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Minha meta é passar por isso sem entrar no Zoom, diz escritor David Sedaris

Andarilho compulsivo, o humorista caminha mais de 30 km por dia, seja pela casa e por uma Nova York deserta

Sarah Lyall
Nova York | The New York Times

Quando começou o confinamento em Nova York, David Sedaris se acomodou em seu apartamento no Upper East Side e cancelou a vigem que faria por 45 cidades para divulgar seu novo livro.

“Eu tinha comprado muitas roupas, e estava ansioso por usá-las”, ele disse, mencionando com melancolia especial um paletó preto da Comme des Garçons –“uma mistura da roupa de luto da mãe de 'E o Vento Levou' quando o bebê morre e alguma coisa que P. T. Barnum usaria no circo”. O paletó está pendurado em seu armário, agora, como um artefato de uma realidade alternativa.

Mas a compreensão de que não tem graça usar roupas um tanto satíricas se ninguém estiver ali para vê-lo não é a única coisa com que Sedaris precisa lidar. Autor de dez livros de ensaios autobiográficos e ficção curta, ele é um estudioso ávido da anatomia complicada do comportamento humano, e o momento trouxe um imenso acervo de comportamentos esquisitos a decifrar.

Para começar, o dele mesmo. Aos 63 anos, Sedaris vai lançar dois livros, “The Best of Me”, ou o melhor de mim, uma coleção de seus ensaios favoritos, no final do ano, e “Carnival of the Snackeries”, parada de lanchonetes, um segundo volume de diários, cuja data de lançamento está provisoriamente definida para o ano que vem. Mas sua vida, como a de todo o mundo, está mais ou menos suspensa.

“Compreendi cedo que não há absolutamente coisa alguma que eu possa fazer sobre isso”, ele disse. “Deveria ser óbvio, mas por algum motivo não foi. Eu ficava pensando que deveria tentar controlar ou resolver a situação. Sempre que sinto pena de mim mesmo, penso que todas as pessoas do mundo estão passando por isso. E as coisas ficam mais fáceis.”

Sedaris parecia estar sem fôlego ao falar, um sintoma preocupante no clima atual. Ele explicou que isso estava acontecendo porque ele não impediu que a epidemia atrapalhasse seus esforços para acumular quilômetros na sua Fitbit, a pulseira que registra atividades físicas.

“Estou caminhando pelo meu apartamento”, ele disse no telefone. “Neste exato momento.”

Sedaris encara esse exercício como um esporte de competição.

“Destruo todo mundo de quem sou amigo de Fitbit”, disse Sedaris. “Caminho 130 milhas [por volta de 210 quilômetros] por semana enquanto eles caminham 30 milhas [cerca de 48 quilômetros].” Mas recentemente ele fez um novo amigo de Fitbit, cuja determinação de acompanhá-lo milha a milha forçou Sedaris a aumentar seu esforço. Há dias em que ele caminha quase 20 milhas, ou 32 quilômetros.

Em casa, seus esforços envolvem percorrer o apartamento como Gus, o urso polar neurótico que caminhava compulsivamente por sua área cercada no zoológico do Central Park. Mas, durante a pandemia, Sedaris também vem caminhando, mascarado, até os confins de Nova York.

“Duas semanas atrás, caminhei até Astoria”, ele disse. “Onde quer que eu vá, o cheiro é o mesmo: o cheiro do meu hálito.” Ele em geral sai duas vezes por dia, a segunda depois da meia-noite, para que as milhas da segunda caminhada valham para o total de Fitbit do dia seguinte.

“Gosto de começar o dia já tendo caminhado seis milhas [quase dez quilômetros]”, disse Sedaris. Embora ele seja um recolhedor compulsivo de lixo na região rural da Inglaterra, onde mora por boa parte do ano, resistiu à tentação de limpar as ruas de Nova York. “Nada contra”, ele disse, “mas tudo muda quando você começa a agir assim, não consegue mais parar”.

As excursões lhe mostraram a cidade em sua melhor forma. Ele fica constantemente admirado diante do calibre elevado do discurso dos nova-iorquinos.

“Você está no parque e de repente ouve uma pessoa muito articulada falando sobre como Donald Trump é horrível”, disse Sedaris. “São pessoas muito articuladas, muito ponderadas, que não se limitam a repetir o que ouviram. Em geral as pessoas que se saem com essas coisas escrevem para os jornais, ou para a televisão.”

Ele também viu a cidade em seus momentos mais vulneráveis, as ruas da madrugada repletas de desabrigados e de famintos; e em alguns de seus momentos mais estranhos.

“Eu estava na Times Square à 1h30 da manhã e um cara de cadeira de rodas passou se impulsionando e disse ‘olha aquele palhaço’”, conta Sedaris. “Pensei que ele estava se referindo a mim, mas quando segui seu olhar vi que havia um palhaço lá, com cabelo púrpura e nariz vermelho.”

Mais recentemente, ele vem caminhando por ruas lotadas, encontrando camaradagem e sentimentos compartilhados nos protestos do movimento Black Lives Matter.

“As pessoas são gentis e atenciosas –distribuem comida e água”, disse Sedaris. “Perguntam se alguém precisa de filtro solar. De álcool em gel. É legal ser parte de um grupo, e gosto de caminhar pelo meio da rua. Com o tempo comecei a ver os protestos da mesma forma que vejo os ônibus e o metrô. Penso comigo mesmo que vou apanhar o BLM [Black Lives Matter] até a rua 23. E mais tarde talvez apanhe um BLM para cruzar a cidade até a Segunda avenida, e de lá volto para casa a pé.”

As pessoas que acompanham os escritos autobiográficos de Sedaris, que se tornaram mais doces, emotivos e ponderados nos últimos anos, recordarão que o escritor e seu pai sempre tiveram um relacionamento contencioso. Mas eles chegaram a uma forma de paz no ano passado, escreveu Sedaris em março, na casa para pacientes terminais em que seu pai aguardava a morte.

Porém, em uma virada digna de Sedaris, o pai dele não morreu. Recuperou-se e deixou a casa para pacientes terminais e agora está morando em um lar de repouso, e sua saúde é boa, se considerarmos que ele tem 97 anos e há uma pandemia mundial em curso.

“Tenho certeza de que meu pai quer muita gente em seu funeral”, disse Sedaris sobre a capacidade de seu pai para sobreviver até que funerais lotados voltem a ser possíveis. “De muitas maneiras, me sinto um felizardo por tê-lo tido em minha vida. Não mudaria coisa alguma, porque preciso de alguém a quem me opor.”

Muitos autores usaram o período da pandemia como oportunidade para se conectar virtualmente aos seus leitores. Mas não pense em encontrar Sedaris online.

“Minha meta é passar por isso sem nunca entrar no Zoom, FaceTime ou Skype”, ele disse. “As pessoas me pedem para gravar uma mensagem de esperança para as pessoas que vão ouvir, e eu respondo que não, porque não faltam coisas para assistir.”

Sedaris mesmo se tornou assinante da Netflix em janeiro. “Fui a última pessoa do planeta Terra a fazê-lo”, ele disse. “Literalmente a última pessoa. Achei que passaríamos muito tempo vendo coisas, mas Hugh [seu namorado, Hugh Hamrick, um artista e personagem frequente nas obras de Sedaris] dorme na frente da TV, e por isso não consigo ver nada com ele.”

Em períodos normais, Sedaris viaja tanto que os dois raramente passam muito tempo no mesmo lugar.

“Pelos últimos 20 anos, eu viajo a cada outono e a cada primavera, e as pessoas dizem que deve ser horrível passar tanto tempo longe de Hugh. Mas sempre pensei que na verdade não, era bacana”, disse Sedaris. “Se você vive 30 anos com alguém, é ótimo passar alguns meses sem ver a pessoa.”

Mas o confinamento a dois foi uma revelação.

“Muita gente com quem converso diz que vive brigando com as pessoas com quem vive”, disse Sedaris. “Mas no nosso caso, nunca nos demos melhor. Como escrever sobre isso? Eu disse a ele outro dia que esperava que ele morresse do coronavírus, para eu ter sobre o que escrever.”

(Era brincadeira. De qualquer forma, ele e Hamrick adoeceram e se recuperaram de sintomas parecidos com os da doença, algumas semanas atrás, ainda que não tenham passado por exames para comprovar a contaminação por Covid-19.)

“Foi fantástico, de verdade”, prosseguiu Sedaris, em um rompante inesperado de entusiasmo emocional. “Eu fiquei com medo de ele se cansar de mim. Por exemplo, hoje cedo, acordamos às 10h e às 10h30 Hugh me disse que já estava cansado de mim. E eu respondi que era melhor recomeçar. E começamos o dia de novo.”

Tradução de Paulo Migliacci

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