Descrição de chapéu Obituário Carlos Moreira (1936 - 2020)

Morre aos 83 anos o fotógrafo Carlos Moreira, o Cartier-Bresson paulistano

Composições precisas e sensualidade de cores, formas e texturas marcaram imagens do artista e professor

São Paulo

Morreu, na manhã desta quinta (11), o fotógrafo paulistano Carlos Moreira, aos 83 anos. Segundo pessoas próximas, ele estava internado no Hospital Sírio-Libanês havia alguns meses por causa de um câncer.

Moreira se formou economista na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado, a Fecap, em 1964. Nunca exerceu a profissão, no entanto.

Naquele mesmo ano, passou a trabalhar com fotografia, mais tarde se tornando professor da disciplina. Primeiro na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, a ECA-USP, entre os anos 1970 e 1990. E depois na Escola de Fotografia M2 Studio, que fundou ao lado de Regina Martins e na qual marcou a trajetória de muitos alunos.

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O fotógrafo Carlos Moreira, morto aos 83 anos nesta quinta (11), posa para retrato de Regina Martins - Regina Martins/Acervo pessoal

Num primeiro momento, o modelo maior de Moreira era o francês Henri Cartier-Bresson, cujas imagens, impressas numa revista, o paulistano carregava em viagens e andanças pela rua, conta o fotógrafo e documentarista Fábio Furtado, um dos organizadores de uma exposição sobre Moreira no Espaço Cultural Porto Seguro no ano passado.​

E, de fato, são notáveis as semelhanças entre os trabalhos de Moreira e Cartier-Bresson naquele período, continua Furtado, entre elas uma “capacidade de composição extraordinária”.

À medida que o tempo passa e a realidade brasileira muda, porém —em especial, a da capital paulista e do litoral, registradas por Moreira extensivamente—, também a obra do fotógrafo se transforma, diz Furtado.

O ponto de virada é uma cena que Moreira registra em 1976, de um homem idoso espiando um jornal numa banca no viaduto do Chá.

“Naquele momento dos anos 1960, as imagens do Cartier-Bresson e dos demais fotógrafos da Magnum eram profundamente humanistas, comprometidas com os valores do pós-Guerra”, afirma Furtado.

“Mas com aquela foto ele percebeu que algo daquele novo mundo trazia uma certa decadência, que não combinava com uma abordagem de pureza geométrica que ele vinha fazendo até então. Então ele decidiu mudar.”

Essa sensibilidade em relação à paisagem e aos seus retratados marca a prática do fotógrafo, diz o curador Rodrigo Villela, que ao lado de Furtado e de Regina Martins organizou a retrospectiva do Espaço Cultural Porto Seguro.

“Ela faz com que a São Paulo representada na obra dele seja uma cidade que mudou muito, não só nos signos evidentes, mas também na maneira sutil como se apresenta essa relação do fotografado com a obra”, afirma Villela.

Outra característica do trabalho, dizem Villela e Furtado, é uma sensualidade que Moreira transmite nas formas, luzes, texturas.

É uma característica que se liga à homossexualidade do fotógrafo, que em anos recentes ele passou a discutir cada vez mais. Furtado ressalta que o tema nunca foi um objeto fotográfico em si para Moreira. Mas que o fotógrafo costumava dizer que o fato de ter se assumido gay num momento tão repressivo quanto os anos 1960 impactou fortemente a construção de seu olhar.

Moreira deixa uma obra extensa, segundo Villela —seu arquivo é composto por cerca de 80 mil fotogramas em preto e branco e 150 mil coloridos, além de uma produção digital realizada a partir dos anos 2000 que “duplica esse volume”.

Ali, estão imagens expostas em algumas das principais instituições de São Paulo, entre elas o Masp e a Pinacoteca. Hoje, elas estão sob os cuidados de Martins, mas segundo Furtado há um plano de criar uma fundação para disseminar a pesquisa do fotógrafo.

Além das imagens, Moreira ainda será eternizado num documentário que Furtado agora monta, fruto de três anos de encontros semanais com Moreira em que os dois ora discutiam fotografia —e a vida—, ora iam à rua registrar a realidade.

Também será lembrado “por uma quantidade imensa de alunos”, diz Furtado. “São pessoas cujo olhar e sensibilidade foram transformadas pela força, pela energia que ele tinha.”

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