Vida dos museus fechados tem controle de luz e calor a distância e raio-x nas obras

Instituições no país aceleram processos de restauração e ainda vivem incerteza de como a volta do público deve acontecer

São Paulo

"Tereza", obra de 1998 do artista plástico Tunga exposta no Instituto Inhotim, está ocupando cinco vezes mais espaço que o original durante a pandemia. Estendidos pelo chão da galeria, os 565 cobertores que formavam a trança de três metros foram desentrelaçados para arejar a peça e evitar que, com o museu fechado e com os processos de conservação dificultados, o tecido seja um convite para insetos e resíduos.

Sem previsão de reabertura, o instituto e outros museus do país tiveram de recriar suas rotinas de manutenção dos acervos para seguir as regras de isolamento social e para manter os espaços em condições ideais de umidade e iluminação.

Obra "Tereza", de Tunga, teve seus tecidos desentrelaçados para arejar a peça durante a pandemia no Instituto Inhotim
Obra "Tereza", de Tunga, teve seus tecidos desentrelaçados para arejar a peça durante a pandemia, no Instituto Inhotim - Elton Damasceno/Divulgação

No Inhotim, o primeiro desafio foi criar protocolos de higienização e conservação que pudessem ser executados por uma única pessoa. O procedimento não era comum no espaço –com muitas obras em larga escala, o mais eficiente era trabalhar em equipe nesses processos, conta Paulo Soares, gerente da área técnica do instituto.

A instalação "De Lama Lâmina", obra de 2009 de Matthew Barney, por exemplo, exigia uma equipe de cinco a seis pessoas e um andaime para executar a limpeza da árvore de seis metros da instalação —branca, a peça tende a acumular partículas avermelhadas que estão no ar da região de mineração em que o museu foi construído.

"Não fazemos mais esse procedimento, realizá-lo com um funcionário único ia ser muito desafiador e optamos por protegê-la por completo. Ela é bastante frágil, pode quebrar com uma lona mais pesada, então houve um cuidado enorme para envolvê-la por completo com um tecido", conta Soares.

O Masp organizou visitas semanais ao acervo e às duas exposições temporárias —do Hélio Oiticica e da bailarina e coreógrafa americana Trisha Brown—, que já estavam prontas para abertura ao público.

"No meio da pandemia, a gente tinha duas exposições que foram montadas, mas que não conseguimos abrir. Esse é o maior desafio. Há uma exposição montada, um cenário de fechamento inicial e nenhuma data de abertura prevista", conta Marina Moura, coordenadora de produção de exposições e publicações do museu.

Cecília Winter, coordenadora dos núcleos de acervo, conservação e restauro da instituição, conta que a equipe decidiu manter as luzes acesas para facilitar as vistorias e o controle remoto, mas mais baixas que o usual para proteger as peças. Já as mais sensíveis foram cobertas com um TNT preto. "A luz tem um efeito cumulativo. Pensa em uma exposição que ainda não abriu. Depois que o museu voltar, ela vai ter mais três, quatro meses de exposição à luz", ela afirma.

As temperaturas e umidade, ambas controláveis remotamente pelas profissionais, estão mais estáveis nesse período de fechamento para o público, mas o que mais notaram foi a diminuição de pó nas obras, resultado da falta de público e da circulação reduzida de carros na avenida Paulista.

Em um primeiro momento da quarentena, quando o museu estava fechado, mas com os funcionários ainda trabalhando no prédio, as equipes de conservação viram um efeito positivo do fechamento. Todas as análises de obras agendadas para o ano foram feitas em dez dias. Entre elas, estavam a de três pinturas do impressionista Pierre-Auguste Renoir —"Rosa e Azul", de 1881, "Retrato de Marthe Bérard", de 1879, e "Dama Sorrindo", de 1875.

Raio-x de "Rosa e azul" (1881), de Pierre-Auguste Renoir, do acervo do Masp, foi feito durante a pandemia; procedimento é importante para revelar mudanças na composição da obra e mostrar elementos estruturais, como o chassi e os pregos laterais
Raio-x de "Rosa e azul" (1881), de Pierre-Auguste Renoir, do acervo do Masp, foi feito durante a pandemia; procedimento é importante para revelar mudanças na composição da obra e mostrar elementos estruturais, como o chassi e os pregos laterais - Pedro Campos/Elizabeth Kajiya/Márcia Rizzuto (IFUSP)

Procedimentos como raio-x, análise de infravermelho e exame para restauro só podem ser feitos em uma sala de vídeo do prédio que dificilmente está desocupada em dias normais.

"Há muitas outras coisas que a gente está conseguindo fazer de casa que o dia a dia não permitia, como organizar arquivos digitais, documentos, renomear fotos, subir obras para o site", conta Moura.

O Instituto Moreira Salles agilizou processos de catalogação e digitalização do acervo, que hoje tem cerca de 2,5 milhões de itens, durante a pandemia. Entre os projetos, está a integração dos modelos de catalogação do acervo, conta Gabriel Moore, gestor de acervos do IMS.

A instituição também tem controles remotos de umidade e temperatura dos acervos, mas precisaram treinar os bombeiros, que ainda trabalham in loco, para auxiliar na verificação das reservas técnicas.

Com uma lista de checagem, eles fazem acompanhamento com fotos e filmagem das obras. As instruções foram ensinadas remotamente, por videoconferência.

"O desafio, para nós, foi ter pessoas sem formação e experiência para fazer essa verificação", diz Moore. "Mas foi uma experiência muito interessante porque a gente pode aproximar nosso trabalho mais técnico das equipes operacionais, de manutenção e segurança".

Acervo do MASP em transformação em 1970
Acervo do MASP em transformação em 1970 - Arquivo/MASP

As obras emprestadas para outros museus também passaram por mudanças no momento de devolução, conta Teodora Carneiro, coordenadora de conservação e restauro da Pinacoteca.

Antes da pandemia, um funcionário da Pinacoteca iria à instituição em que a obra emprestada foi exibida para fazer a verificação antes do retorno. Agora, o procedimento é feito por videochamada, e uma das partes passa lentamente uma lanterna com luz rasante para garantir a qualidade e o detalhe da imagem.

Quando os trabalhos retornam à Pinacoteca, também passam por uma quarentena de pelo menos 15 dias para evitar que peças contaminadas, principalmente com coronavírus, tenham contato com o resto do acervo.

"O momento que estamos passando é muito diferente das outras instituições porque temos poucas obras expostas do acervo. Antes de sairmos da quarentena foi exatamente o momento que desmontamos todas as salas e levamos para a reserva técnica para começar a reforma das salas para outra exposição", conta Carneiro.

A equipe de conservação se reveza em duas idas semanais ao museu para duas funções principais –trocar o papel do termohigrógrafo, que registra temperatura e umidade relativa dos espaços, e esvaziar as caixas que acumulam a água dos desumidificadores.

Segundo Carneiro, a reabertura é incerta e muitos procedimentos que podem ser adotados para receber o público ainda estão no plano da teoria. "Algumas dúvidas e questões vão aparecer realmente quando a gente se deparar com o museu aberto, com o público", diz.

Marilucia Botallo, diretora técnica do Instituto de Arte Contemporânea, conta que os museus e as instituições da área estão articuladas e discutindo em conjunto como manter os acervos em condições adequadas e os possíveis protocolos para uma reabertura.

O instituto vive um caso particular. Pela primeira vez com sede própria, ele fechou em 13 de março deste ano. A abertura estava prevista para o dia seguinte, com uma exposição de projetos de artistas como Ivan Serpa e Iole de Freitas que nunca haviam sido realizados até então. O estudo na reabertura, no caso, é o da inauguração que nunca aconteceu.

Raio-x de "O Escolar" (1888), de Vicent van Gogh, do acervo do Masp, foi feito durante a pandemia; procedimento é importante para revelar mudanças na composição da obra e mostrar elementos estruturais, como o chassi e os pregos laterais
Raio-x de "O Escolar" (1888), de Vicent van Gogh, do acervo do Masp, foi feito durante a pandemia; procedimento é importante para revelar mudanças na composição da obra e mostrar elementos estruturais, como o chassi e os pregos laterais - Pedro Campos/Elizabeth Kajiya/Márcia Rizzuto (IFUSP)

"Foi um fechamento sem anúncio prévio que demandou um desafio inédito para as equipes de conservação dos museus. São profissionais que vemos como uma espécie de linha de frente na proteção de um patrimônio que é de todos nós", diz Renata Motta, presidente do Conselho Internacional de Museus, o Icom, no Brasil.

O conselho publicou diretrizes detalhadas para auxiliar os museus no processo de conservação durante a pandemia.

Mesmo com as dificuldades dessa adaptação abrupta e inesperada, ela assinala como uma oportunidade desse cenário a presença dos museus no ambiente digital. Segundo ela, isso pode resultar em uma visibilidade maior dos acervos.

"Acho que essa vai ser uma grande guinada", afirma Gabriel Moore sobre a atuação online dos museus. "Isso passa pela ampliação dos acervos digitais que já existem, mas também de adoção de novas tecnologias para fazer visitas virtuais mais qualificadas, interfaces de pesquisa, apresentação gráfica de acervos".

Mesmo com um movimento de reabertura dos espaços em outros países, para Cecília Winter, a incerteza da reabertura ainda é o maior desafio que as equipes têm que lidar no Brasil.

"Tínhamos uma lista, um cronograma do ano de restauros de obras, trocas de molduras. Temos um restauro grande com um profissional que viria da França que está suspenso. O pior é não saber quando vamos voltar."

No começo da quarentena, o Masp fazia semanalmente um plano com previsão de abertura e com o que seria possível executar com as datas previstas. A prática se tornou inviável com a extensão contínua da quarentena.

"Em geral, como todo mundo, está sendo bem desafiador, sem contar uma certa ansiedade que a equipe toda passa por querer entender o dia de amanhã. Algumas ações [de conservação] nós não desempenhamos agora, mas sabemos que, no futuro breve, vamos precisar. Que mundo é esse que vai se apresentar para todos?", pergunta Paulo Soares, do Inhotim.

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