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Biografia de Szymborska revela poeta brincalhona e amante de novela

Tarefa das autoras de 'Quinquilharias e Recordações' não foi fácil, já que a polonesa detestava falar sobre sua vida

Noemi Jaffe

Escritora e crítica literária, é autora de "O Que Ela Sussurra" e “A Verdadeira História do Alfabeto”

Quinquilharias e Recordações

  • Preço R$ 109,90 (560 págs.)
  • Autor Anna Bikont e Joanna Szczesna
  • Editora Âyiné

Não foi tarefa fácil, para Anna Bikont e Joanna Szczesna, escrever "Quinquilharias e Recordações", a biografia de Wislawa Szymborska, que sai agora no Brasil, pela editora Âyiné, oito anos depois de ser lançada na Polônia.

Antes de ganhar o Nobel, ou seja, durante 73 anos de vida, a poeta tinha concedido só dez entrevistas e, com o prêmio, lamentava se ver obrigada a aparecer na televisão, em jornais, revistas e incontáveis palestras.

Em Estocolmo, alguns dias antes de ser agraciada, Szymborska chegou a passar mal e, ao ser examinada pelo médico, ele disse que o mal-estar era normal. "É a doença do Nobel." E o poeta irlandês Seamus Heaney, ganhador no ano anterior, telefonou para a polonesa para lhe alertar sobre o "fardo" que recairia sobre ela.

Wislawa Szymborska —e isso fica claro em seus poemas sensivelmente secos— não gostava, ou melhor, detestava falar sobre sua vida privada ou fazer confidências a quem não fosse amigo seu, coisa que ela chegava a contar nos dedos de uma só mão.

Sempre se caracterizou, apesar de ser tão brincalhona e de presentear seus amigos com colagens engraçadas, por uma discrição e elegância quase rígidas, que a mantinham em absoluta privacidade.

No início, em 1997, quando a biografia começou a ser escrita, as autoras se basearam principalmente nas "Leituras Não Obrigatórias" —série de textos em que Szymborska escrevia sobre obras das "prateleiras de baixo", como ela gostava de dizer—, além de conversas com dezenas de conhecidos da autora. Foi só depois de muitas tentativas que a poeta finalmente concordou em conversar com elas.

A partir desse panorama, a leitura do livro vai compondo lentamente —são mais de 500 páginas— uma mulher complexa, cuja adesão inicial ao comunismo soviético causa um trauma profundo; cuja relação com o pai era mais forte do que com a mãe; com dois casamentos muito diferentes entre si; que desde sempre foi apaixonada por limeriques, brincadeiras, jogos e trocadilhos, mas que reservava crises emocionais para a solidão; que amava Montaigne, Thomas Mann, Charles Dickens e Dostoiévski e que, basicamente, sempre manteve a "a crença nos misteriosos poderes adormecidos em cada coisa".

Quem conhece sua poesia sabe que o que mais a atraía eram as coisas. Seus poemas problematizam questões existenciais, políticas e até metafísicas, mas nunca pelo viés da grandiloquência ou das abstrações conceituais. Ao contrário, suas palavras são simples, "menores", assim como ela mesma considerava a sua uma "poesia modesta".

É verdade. Modéstia não precisa significar inferioridade, assim como a "poesia menor" do nosso Manuel Bandeira nunca valeu menos por isso. A modéstia dos poemas de Szymborska vem desse caminho infinito que vai do particular, das quinquilharias, para o geral, extraindo significado do aparentemente insignificante.

Uma das coisas que ressalta na biografia é o amor entre a autora e seu segundo marido, Kornel Filipowicz, com quem ela saía frequentemente para pescar e com quem organizava jantares com cardápios chiquérrimos, só para marcar todos os pratos com "não tem".

Ao final desses jantares, em que servia asinhas de frango do Kentucky Fried Chicken, Szymborska sorteava uma de suas bugigangas, reunidas ao longo de uma vida de atenção a esses pequenos nadas.

A biografia se ressente um pouco da forma de listagem, muitas vezes se assemelhando mais a um grande apanhado do que a um texto fluente e propriamente narrativo. Mesmo assim, a personagem biografada é tão fascinante e o esforço de pesquisa tão valioso que, certamente, a leitura é gratificante.

E, para os brasileiros, há um presente singular: Szymborska dizia que a vida tinha perdido o sentido depois que tinha terminado de passar, na televisão polonesa, a novela "A Escrava Isaura".

Erramos: o texto foi alterado

O nome do livro "Quinquilharias e Recordações" foi grafado erroneamente em versão anterior da crítica. O texto foi corrigido.

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