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Livros

Bob Wolfenson exibe a corrosão das aparências em fotos após enchente

Em seleção de retratos danificados pela água, artistas e modelos agora ostentam um aspecto viscoso

Thyago Nogueira

Curador e coordenador de fotografia contemporânea no Instituto Moreira Salles

Sub/Emerso

  • Preço R$ 60 (48 págs.)
  • Autor Bob Wolfenson
  • Editora Ipsis

Em fevereiro deste ano, uma enchente arruinou casas e vidas em São Paulo. O estúdio do fotógrafo Bob Wolfenson e quase 80% de seu arquivo fotográfico também sucumbiram.

Enchentes já causaram tragédias na história da fotografia, quando atingiram o arquivo de German Lorca ou de Nair Benedicto. No livro "Sub/Emerso", Wolfenson reúne uma seleta de seus retratos danificados pela água, intercalados por fotografias do estúdio arrasado.

Artistas, modelos, amigos e outras personalidades agora ostentam uma aparência viscosa, causada pelas manchas e reentrâncias que a lama criou sobre as fotografias.

Ao lado do rival J. R. Duran, Wolfenson se consagrou desde os anos 1980 como um inventivo fotógrafo de moda e publicidade. Também dominou a seara das mulheres peladas. Sua inteligência, carisma e descontração insuflaram originalidade num celeiro dominado por egos inflados e muito marketing.

Mas foi nos retratos que melhor explorou o jogo de forças formulado por Roland Barthes, “diante da objetiva sou ao mesmo tempo: aquele que me julgo, aquele que eu gostaria que me julgassem, aquele que o fotógrafo me julga e aquele de que ele se serve para exibir sua arte”.

Estampam o livro Jorge Mautner, Gisele Bündchen, Hermeto Pascoal, Fernanda Torres, Raí, Cacá Rosset e muitos outros. Mesmo destruídos, seus retratos resistem.

Ariano Suassuna ganhou rugas quase imperceptíveis; a fotografia retorcida de Hermeto realçou o sopro musical de seus cabelos; o hierático Oscar Niemeyer atravessou a intempérie sólido como sua arquitetura; os rastros d’água deixaram Bruna Lombardi ainda mais sexy, como se tivesse saído do mar vestida. Até o olho antológico de Caetano Veloso emergiu da lama sem perder irreverência.

"Sub/Emerso" é parte de uma coleção de livros fotográficos organizada durante a quarentena, com renda revertida para o combate ao coronavírus. Não fosse a urgência do propósito louvável, o livro talvez se beneficiasse de edição menos corrida.

A intimidade desarmada das imagens contrasta com a pretensão poética do título. Ainda que eloquentes, as fotos do estúdio em frangalhos são meras ilustrações. Nos retratos, quase todas as mulheres estão seminuas, enquanto praticamente todos os homens estão vestidos. Também não há celebridade negra.

Isso diz menos sobre o fotógrafo do que sobre o machismo e o racismo que dominam a publicidade e o jornalismo. Se as paredes daquela época tivessem ouvidos, disse Wolfenson certa vez, muita gente teria saído presa das reuniões.

O livro abre com tiras de contato coladas pelas águas. Escondida numa pequena imagem, uma mulher negra, de lenço na cabeça, repousa sentada. Parece resignada, como o contingente de pessoas cujas vidas são há séculos tragadas por enchentes e barbáries. Ela se infiltrou nas páginas por acaso, mas transformar a mulher em celebridade é justa e tardia homenagem.

Além de efeito gráfico e registro da tragédia, as manchas fétidas do rio Pinheiros ampliam o sentido do conjunto fotográfico. À diferença de Dorian Gray, imagens e pessoas envelhecem. Valores também.

Os retratos que espelhavam com nitidez o vigor de nossa cultura, hoje também exibem a corrosão do mundo de aparências que os sustentava. É aí que reside o impacto do livro –mostrar que é preciso desconfiar das imagens, antes que sejamos todos tragados.

Erramos: o texto foi alterado

O texto referia-se, erroneamente, à mulher negra retratada com lenço na cabeça como idosa. O trecho foi corrigido.

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