Brasil está sendo vendido ao exterior, disse Sérgio Ricardo em última entrevista à Folha

Artista, morto nesta quinta-feira (23), aos 88 anos, fez parte do cinema novo e da bossa nova

São Paulo

Foi sob vaias acaloradas do público da terceira edição do Festival de Música Popular Brasileira, em 1967, que Sérgio Ricardo desistiu de continuar uma apresentação de sua canção "Beto Bom de Bola" e quebrou seu violão, jogando o instrumento sobre a plateia e saiu do palco sem finalizar o show.

"Eu não gosto de ficar repetindo [comentários sobre o episódio]", disse ele à Folha em 2018, quando lançava seu filme "Bandeira de Retalhos", após ter ficado 44 anos sem dirigir um longa-metragem. "Foi um negócio que eu resolvi com a quebra do violão. Pronto."

O artista, que morreu nesta quinta-feira (23), aos 88 anos, devido a uma insuficiência cardíaca, ficou conhecido por sua carreira musical e cinematográfica. Ele fez parte do movimento da bossa nova e ganhou destaque no cinema novo como diretor, roteirista e ator.

Seu último filme lançado, "Bandeira de Retalhos", quebrou um hiato de mais de quatro décadas e foi inspirado em experiências vividas pelo próprio diretor. "Um dia topei com uma marcação na parede do meu barraco", contou Sérgio à Folha, lembrando o que viveu no final da década de 1970, quando morava no morro do Vidigal, na zona sul do Rio de Janeiro.

Assim como ele, mais de 300 famílias que habitavam o local se depararam com a notícia de que a área tinha risco de desabamento e, sendo assim, precisariam deixar suas casas, segundo a prefeitura. Mas nos bastidores da notícia, circulavam planos da construção de um hotel de luxo naquela região, com vista para o oceano Atlântico.

Os moradores travaram então uma série de lutas políticas contra o governo. É a partir dessa história que Sérgio Ricardo criou o roteiro que deu origem a "Bandeira de Retalhos".

O filme teve a presença de diversos artistas do Vidigal e atores como Antônio Pitanga, Osmar Prado, Bemvindo Sequeira e Babu Santana. "Todo mundo junto nessa peleja comigo", disse Sérgio.

"É um filme político e agressivo", definiu ele na entrevista. O artista também afirmou que vê ecos da voltagem política dessa obra refletindo no então ano de 2018. "Tá todo mundo espezinhado, vendo o Brasil ser vendido pro exterior, com essas leis todas."

"Quando se descobre pelas pesquisas que a maior parte da população vai votar no Lula, fica claro que alguma coisa vai acontecer", disse o artista à Folha em sua última entrevista, oito meses antes do resultado da eleição presidencial do país que anunciou a vitória de Jair Bolsonaro.

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