'Coringa' expõe fios de barbárie que estão nas nossas cidades e vidas, diz psicanalista

O longa de Todd Phillips foi debatido no Ciclo de Cinema e Psicanálise de terça-feira (28)

São Paulo

A neurologia pode explicar o riso, mas não a dor que escapa dele, afirma a psicanalista Raya Zonana. Em “Coringa”, ela diz, a clássica imagem do palhaço que chora sob a máscara feliz se estende para um riso doloroso, que expõe a doença e o desequilíbrio psicológico de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), mas também seu desamparo e vazio existencial.

“Percebemos que a máscara do palhaço Arthur Fleck mais revela do que encobre. Assim, seu verdadeiro riso é mais ostensivo e transforma seu semblante, tornando-o um personagem trágico.”

O longa dirigido por Todd Phillips foi debatido no Ciclo de Cinema e Psicanálise na terça-feira (28), promovido quinzenalmente a distância pela Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Além de Zonana, participaram do evento online Rodrigo Salem, colaborador da Folha em Los Angeles, e a psicanalista Luciana Saddi, que fez a mediação.

Salem, que teve a oportunidade de entrevistar Phillips e Phoenix para a Folha em 2019, discorreu sobre a trajetória do personagem dos quadrinhos nas adaptações que apareceram nas telas a partir dos anos 60, com interpretações de Cesar Romero, Jack Nicholson, Heath Ledger e Jared Leto.

Segundo ele, o cineasta não tinha grande afinidade com o universo dos quadrinhos, mas queria falar de um homem com problemas mentais quebrado pelo sistema e também abordar a desigualdade social das grandes cidades. “O Coringa foi basicamente uma desculpa para poder falar sobre esses temas, mas com o verniz do pop, que é o que move a indústria de Hollywood nos últimos tempos.”

No chat, o público, que chegou a 704 pessoas, questionou por que as pessoas enxergam no Coringa, que é um agente do caos, um campeão dos menos favorecidos.

Para o jornalista, ao contrário do Coringa interpretado por Heath Ledger que representava –de fato uma onda de caos e tentava provar que não existem heróis, mas escolhas morais–, o Arthur Fleck de Phoenix é, além de um produto do caos, alguém que luta contra o sistema.

Luciana Saddi vê no longa uma espécie de sítio arqueológico de Fleck, que escava e expõe o passado do personagem. “A gente vai tendo a oportunidade de observar camadas de um homem que nos é apresentado como infantil e ingênuo, que tem dificuldade de discriminar o que é mundo interno ou realidade”. O resultado é não apenas uma violência desenfreada e assustadora, mas, sim, contagiante do ‘palhaço do crime’.

Na opinião de Raya, no filme explodem os palhaços que buscam por um líder que grite os sentimentos calados. Coringa surge como salvador em meio a uma situação de vazio, dor e precariedade. “Vivemos em uma sociedade onde a condição de exceção é universal e permanente, pelo descaso, pela violência e pobreza que criam uma necropolítica explícita.”

Os debatedores concordaram que é a partir dos devaneios que Fleck tenta escapar do silêncio e marginalização de sua vida, a partir da criação de uma presença humana que o acolhe, no caso, sua vizinha. Ao mesmo tempo, ele tenta transformar a dor em criação por meio dos registros, mas ainda assim falta quem receba suas histórias.

Salem parte da interpretação de que o filme inteiro se passa na cabeça de Arthur e, portanto, é influenciado pela fala do personagem de que todos os seus pensamentos são sombrios. “Eu vejo cada ambiente como uma espécie de representação da mente dele.”

“O frágil e oscilante equilíbrio psíquico de Fleck ao longo do filme é um retrato do que observamos no processo civilizatório, que se esgarça em fios de barbárie, não somente na ficcional Gotham City, mas nas nossas cidades e vidas”, afirma Raya.

O debate pode ser conferido na íntegra no canal do MIS no Youtube. O próximo filme que será debatido pelo Ciclo de Cinema e Psicanálise será “Dor e Glória”, de Pedro , no dia 11 de agosto, às 20h.

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