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Doença transmitida pelo beijo aterroriza cidadezinha em série brasileira

'Boca a Boca', de Esmir Filho, chega à Netflix usando surto infeccioso para discutir temas caros à juventude liberta de hoje

São Paulo

Em meio à atual pandemia de coronavírus, muita gente tem sentido falta do contato físico tão presente no nosso dia a dia. Apertos de mão, abraços e beijos foram suspensos até que a crise sanitária causada pela Covid-19 esteja controlada.

Indo para a ficção, beijos também não devem ser recomendados na cidade de Progresso, onde se passa a mais nova série nacional da Netflix, “Boca a Boca”. Por lá, a eclosão de uma doença misteriosa também ameaça o mundo como o conhecemos.

Criada por Esmir Filho, de “Alguma Coisa Assim” e “Os Famosos e os Duendes da Morte”, a trama acompanha um grupo de adolescentes dessa fictícia cidadezinha, que da noite para o dia vê seus jovens serem contaminados por um vírus transmitido de boca em boca —e que desencadeia consequências muito mais graves que o sapinho.

Mas o grande vilão da trama, como os seis episódios que estreiam nesta sexta-feira devem revelar, não é tão microscópico assim. Na verdade, os mocinhos da série lutam contra algo intangível –o conservadorismo latente de Progresso (um lugar que de progressista não tem nada), que contamina sua população e instituições de forma arrebatadora.

“‘Boca a Boca’ não é exatamente sobre uma doença, mas sobre como, diante desse cenário de crise, as relações humanas e as relações que temos com nossos corpos se transformam”, diz Filho. “É uma metáfora do ser adolescente, do experimentar, do correr atrás das suas vontades. A doença é só o ponto de partida para isso.”

E é por causa desse surto infeccioso que os protagonistas adolescentes vão se impor contra os olhares preconceituosos e intolerantes que julgam seu estilo de vida. “A ideia partiu desse meu universo sobre jovens, suas descobertas, o corpo e a sexualidade, que são temas sempre presentes nos meus trabalhos”, diz o criador da trama.

De acordo com Filho, “Boca a Boca” é uma resposta à crescente onda de conservadorismo que tem tomado o Brasil e o mundo. É uma série que levanta a voz contra o moralismo —“sem erguer bandeiras, mas dizendo que diferentes formas de desejo são possíveis”.

À medida em que o medo e as restrições causados pelo vírus fictício aumentam, a série traça um paralelo com as proibições originadas pelas mentes retrógradas que estão cada vez mais em evidência no cenário político global.

A missão de encarnar esse conservadorismo ou de lutar contra ele ficou a cargo de nomes como Denise Fraga, Grace Passô, Bruno Garcia e Caio Horowicz, de “Califórnia” e “Hebe: A Estrela do Brasil”, que vive um dos protagonistas.

“‘Boca a Boca’ é a história do vírus do conservadorismo, do retrocesso e da árdua batalha que se trava contra ele. É a história de uma juventude que vem com o pé na porta, dizendo que existem atitudes que não são mais toleráveis. Atitudes que consomem tanto a vida até que invadem os corpos, as entranhas, o sangue”, resume o ator de 24 anos.

A realidade de Alex, seu personagem, é uma boa síntese das forças antagônicas que dão forma à história de Esmir Filho –o adolescente é vegano, mas filho do pecuarista mais poderoso de Progresso. O embate entre ele e “seu velho” é só um exemplo do que torna “Boca a Boca” muito mais do que uma série centrada numa epidemia.

Segundo Horowicz, a trama encontra ressonância entre os adolescentes do mundo real ao mostrar “uma juventude que sente a urgência de viver o seu limite enquanto, ao mesmo tempo, se vê encurralada pelas fronteiras de um aparelho reacionário”.

Mas a pouca idade não é condição para que o público se envolva com Alex e os outros protagonistas. Filho destaca que, de fato, “Boca a Boca” tem uma “pegada jovem” —mas sua história se abre para temas que extrapolam gerações. “A gente quer principalmente passar uma mensagem sobre afeto”, resume.

Boca a Boca

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