Elizeth Cardoso, que faria cem anos, deu voz ao samba e à bossa até desaparecer

Vida e carreira da cantora, uma das maiores do Brasil, acabaram esquecidas pela indústria musical do país

São Paulo

“Estou até bobo de ver como as pessoas estão tendo carinho e lembrando da minha vó”, diz Paulo Cesar Valdez Júnior, neto de Elizeth Cardoso. Para a surpresa do dentista, mesmo no meio de uma pandemia, o centenário da cantora, uma das mais importantes da música brasileira, morta em 1990, não foi esquecido.

Elizeth, que faria cem anos nesta quinta, vai ter 26 de seus 44 álbuns —aqueles que pertencem à Universal— lançados nas plataformas de streaming, além de comemorações em shows virtuais e lives espalhadas pelas redes sociais. É a celebração da memória de uma artista de talento e importância indiscutíveis, mas que teve um alcance aquém do que podia.

A cantora Elizeth Cardoso durante apresentação em 1969 - Acervo UH/Folhapress

“Ela não trafegou por onde foram Maria Bethânia, Elis Regina, Gal Costa —as cantoras de primeiro time. A Elizeth nunca teve a popularidade dessas cantoras”, diz João Máximo, jornalista e pesquisador que chegou a entrevistar a cantora. “Eu não sei explicar porque a Elizeth não emplacou.”

Parte dessa explicação está na relação entre a trajetória da cantora e a indústria fonográfica. Elizeth nasceu no subúrbio de São Francisco Xavier, próximo ao morro da Mangueira, no Rio de Janeiro, e já cantava desde criança. Aos dez anos, teve de deixar a escola para trabalhar —foi funcionária em salão de beleza e taxista, entre outras atividades—, até começar a cantar na noite carioca.

Quando foi contratada pela gravadora Todamérica, Elizeth já tinha 30 anos. “Ela chega num momento em que temos o impacto do rádio e da indústria fonográfica”, diz o historiador Luiz Antonio Simas, autor de “Dicionário da História Social do Samba”.

É quando o samba do Estácio de Sá, o samba urbano do Rio, chega ao rádio e passa por transformações. Segundo Simas, esse processo está ligado às mudanças na cidade, à radiodifusão e ao crescimento de uma indústria de discos.

“Tem uma classe média urbana que vai se consolidando no Brasil —e que consome samba. Ao mesmo tempo, há um Estado bairrista, que busca trazer o samba para um certo mito da identidade nacional, que passa pela ideia da mestiçagem. O samba vai sendo desafricanizado. Para ser consumido por quem compra discos e ouve rádio, ele perde uma visceralidade muito ligada aos tambores.”

É nessa época que o samba encontra o bolero, dando origem ao samba-canção, estilo mais arrastado pelo qual Elizeth ficou conhecida. Musicalmente, contudo, sua origem é no samba da Cidade Nova, onde ela conheceu nomes como Pixinguinha ainda jovem.

“Ela foi levada ao rádio por Jacob do Bandolim, foi a primeira a gravar um samba do Noel Rosa [‘Quem Ri Melhor’], que ele mesmo ensinou a ela”, diz João Máximo. “Só que, quando consegue um contrato com uma gravadora, ela não vai cantar os sambas mais originais, mais brasileiros, que tinha aprendido. Vai ser lançada como cantora de samba-canção.”

Seu primeiro sucesso foi “Canção de Amor”, de 1950 e, ao longo daquela década, ela lançou diversos discos e compactos. Em 1958, acabou sendo uma protagonista do surgimento da bossa nova.

É dela a voz de “Canção do Amor Demais”, com composições de Tom Jobim e Vinicius de Moraes e um violão tímido, mas já revolucionário de João Gilberto. O álbum, feito com poucos recursos pelo selo Festa, tem o primeiro registro de “Chega de Saudade”.

“Ela faz esse disco —que é importantíssimo, histórico e muito bom—, e vira uma bossanovista que nunca foi. Vários bossanovistas em entrevistas dizem que ela não pode te r sido a lançadora da bossa nova porque não cantava com ‘voz pequena’. Era uma cantora de peito aberto, cantava pra fora, com muito sentimento”, diz Máximo.

Enquanto a bossa nova adquiria o status de música moderna brasileira, o samba-canção, que Elizeth continuava cantando, saía de moda. Mesmo gozando de prestígio ante a imprensa e o meio artístico, ela também praticamente não aparece na era dos festivais dos anos 1960.

“Ela não era considerada bonita, e várias cantoras da época dela desapareceram quando a televisão começou a fazer programas de música popular”, diz Máximo. “Ela foi pouquíssimo utilizada pela TV. Só em programas mais amadores.”

Segundo Simas, a história do samba é marcada por grandes criadores negros que não necessariamente eram as grandes vozes do gênero.

“O artista que bota a cara no palco, que aparece e fala, é impactado por esse racismo. Esse racismo ‘cordial’, em que você finge que a coisa não é tão importante. O Cartola, por exemplo, vai gravar o primeiro disco na década de 1970. A maioria das cantoras da era do rádio, as que aparecem nas revistas e concorrem a prêmios, são brancas. A Aracy de Almeida, que era negra, é jogada no ostracismo.”

Em “Elizete Sobe o Morro”, de 1965, ela grava sambas de Candeia, Paulinho da Viola, Cartola, Zé Keti e Élton Medeiros. “É um disco também genial, que a reaproxima daquele samba”, diz Máximo. “Os LPs dela eram muito irregulares. Tinham duas ou três faixas boas, algumas ruins. Ela não teve sorte até começar a ser produzida por gente melhor, com Nelson Cavaquinho, volta a cantar com Pixinguinha, mas jamais com a popularidade que mereceu.”

Sérgio Cabral, biógrafo da cantora, relatou em coluna no Diário Carioca um diálogo entre duas pessoas da plateia quando ela cantou Villa-Lobos no Theatro Municipal —uma ousadia para artistas populares. “Se dependesse de mim, essa mulatinha não passava do Teatro João Caetano”, um deles teria dito.

O show de Elizeth no Teatro João Caetano, gravado em 1968 com Zimbo Trio e Jacob do Bandolim, segundo Máximo, é o grande momento da carreira dela.

“Não vejo heresia de uma cantora popular cantar Villa-Lobos. E ela cantou bem, enriquece a biografia, mas acho que o show do João Caetano foi um momento mais popular, que ela nunca teve. Nem antes, nem depois.”

Elizeth estava no Japão em 1987 quando descobriu que tinha um câncer no estômago. Se já havia perdido espaço nos anos 1970, na década seguinte, ficou encostada pelas gravadoras.

“Ela teve um final de vida complicado”, diz Máximo. “Os discos não vendiam, ninguém queria fazer mais disco com ela. Mas como pode? Era uma cantora de primeiríssimo nível.”

Se não era exatamente uma sambista ou uma bossanovista, Elizeth acabou sendo um pouco de tudo. Por um lado, sua carreira esteve à mercê da indústria fonográfica. Por outro, mostra como ela participou intimamente da evolução do samba no século passado.

Paulo Cezar, que está lançando uma cerveja com o apelido da avó, Divina, diz que ela comentava que tinha sido esquecida no fim da carreira. Ele se lembra de Elizeth como uma pessoa humilde e muito parceira dos músicos. Sua maiores paixões eram o Flamengo, a Portela e o bloco Cordão da Bola Preta.

Na visão de Simas, o legado de Elizeth inclui alguns dos discos mais importantes do Brasil. “Se a carreira dela talvez tenha sofrido por causa dessa variação, por outro lado, ela se encaixou muito bem em qualquer gênero que cantou. Se você fizer uma discografia do mais importante do samba, os álbuns dela vão aparecer.”

“Era uma voz potente, aberta e com cara. Uma das maiores do Brasil, do time de Clementina [de Jesus], Elis [Regina], Clara [Nunes], Marinês —aquelas vozes que você sabe que são elas que estão cantando. Elizeth foi tudo, menos uma cantora genérica.”

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