Descrição de chapéu The New York Times

Facebook proíbe vendas de artefatos históricos para evitar mercado ilegal

Empresa anunciou ação após pesquisadores relatarem que tráfico de arte acontece na plataforma

Tom Mashberg
The New York Times

Em resposta a críticas de que o site havia se tornado um mercado para a venda de antiguidades saqueadas no Oriente Médio, o Facebook anunciou em junho que removeria qualquer conteúdo que “tente comprar, vender ou comerciar artefatos históricos”.

A decisão surgiu depois que arqueólogos e ativistas que monitoram o comércio ilícito de antiguidades disseram ter identificado pelo menos 200 grupos de Facebook, com quase 2 milhões de membros, que usavam a plataforma a fim de encontrar compradores no mercado ilegal e oferecer tutoriais sobre como escavar e entregar os itens mais procurados.

Exemplos comuns incluem relíquias de sepulcros, esculturas de pedra, mosaicos e, em alguns casos, sarcófagos completos, provenientes da Síria, do Egito, do Iraque e do norte da África.

"Temos regras em vigor há muito tempo para prevenir a venda de artefatos roubados”, disse Greg Mandel, diretor de políticas públicas do Facebook. "Para manter os artefatos e nossos usuários seguros, estamos trabalhando para expandir nossas regras, e a partir de hoje começaremos a proibir a troca, venda ou compra de todos os artefatos históricos, no Facebook e no Instagram."

Mesquita Umayyad de Aleppo, na Síria, em 2009
Mesquita Umayyad de Aleppo, na Síria, em 2009 - Omar Sanadiki/Reuters

A regra do Facebook define artefatos históricos como “itens raros de valor histórico, cultural ou científico importante”, entre os quais itens funerários antigos, moedas, lápides, lacres estampados, pergaminhos e manuscritos.

Em muitos casos, os intermediários que operam os grupos de Facebook oferecem instruções em tempo real aos saqueadores sobre que itens escavar e roubar, de acordo com vídeos obtidos pelo Antiquities Trafficking and Heritage Anthropology Research Project, um estudo investigativo comandado por especialistas em antiguidades.

Katie Paul, codiretora do projeto, disse em entrevista que “eles literalmente postam fotos de catálogos de leilão e dizem que aquele é o preço pelo qual os itens em questão podem ser vendidos —vão à luta”.

Os traficantes online, ela acrescentou, também tentam garantir aos compradores ilícitos que eles receberão itens genuínos, ao postar fotos e vídeos que mostram os objetos sendo escavados.

Paul disse que compradores e vendedores empregam linguagem codificada para discutir as antiguidades em negociação e depois recorrem a aplicativos dotados de recursos de criptografia para concluir a transação. A conta de Twitter do projeto de investigação que ela ajuda a dirigir traz imagens de tela e vídeos de páginas de Facebook que mostram exemplos escancarados de saque e milhares de objetos à venda.

Paul e seu codiretor, Amr al-Azm, professor na Universidade Estadual de Shawnee, no estado americano de Ohio, vêm capturando imagens e vídeos de grupos do Facebook há anos. Num relatório publicado no ano passado e intitulado “o mercado ilegal de antiguidades no Facebook”, eles afirmam que “o Facebook se tornou um imenso mercado ilegal digital, facilitando o comércio ilícito de antiguidades em todo o Oriente Médio e no norte da África”.

Paul disse que o Facebook demorou a admitir o problema e é relapso quanto ao policiamento de atividades criminais online. “Por anos, o Facebook serviu como um imenso mercado para os saqueadores e traficantes de antiguidades, em seus esforços para manter abastecida uma rede mundial cada vez maior”, ela disse.

Segundo Paul, a decisão recente do Facebook “representa uma importante mudança de posição sobre o comércio de artefatos de herança cultural e demonstra que eles reconhecem que essa atividade é ilegal e prejudicial, e ocorre em sua plataforma”. Mas ela acrescentou que “regras só passam a valer quando há fiscalização de suas aplicações”.

Azm disse querer que o Facebook preserve todos os indícios de tráfego, em vez de simplesmente apagar o conteúdo proscrito. “As fotos e vídeos de artefatos que vemos postadas no Facebook, em muitos casos antes mesmo de eles serem escavados, podem ser as únicas provas da existência do objeto.”

Tradução de Paulo Migliacci

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