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Maratona

Jim Carrey faz público de 'Kidding' rir e chorar ao mesmo tempo

Série demonstra domínio pleno de uma equação fundamental no universo das séries e ressalta talento do ator

São Paulo

Kidding

  • Onde Globoplay
  • Produção EUA, 2018

A humanidade se divide em dois grupos –aquele dos que riem com Jim Carrey, e o outro dos que não veem a menor graça nele. Tivesse qualquer embasamento técnico, esta análise aqui ainda diria que fazem parte do segundo grupo os espectadores que amam e aplaudem qualquer performance dramática do ator —e a pesquisa terminaria por afirmar que são eles os seus verdadeiros fãs.

À primeira vista, parece que é só para eles, estes fãs de verdade, que “Kidding” foi feita. A série, que estreou em 2018 nos Estados Unidos e agora tem suas duas temporadas disponíveis no Brasil via Globoplay, conta a história de Jeff Piccirillo, que há 30 anos apresenta o infantil “Mr. Pickles’ Puppet Time”.

Seu envolvimento com o programa de fantoches é tão profundo que parece não haver separação entre Piccirillo e Mr. Pickles, o apresentador carismático nas telas e quase monástico na vida pessoal —ele não bebe álcool nem fala palavrões, mantém um corte de cabelo esquisito e vive para fazer o bem para as crianças.

E é andando retinho na linha dentro da TV e fora dela que Pickles se vê surpreendido por um arrasador golpe do destino. Um de seus filhos gêmeos morre em um acidente, quando a mãe dos meninos dirigia o carro com ambos no banco traseiro.

É o argumento perfeito para que Carrey exercite seu inegável talento para o drama, tão evidente em produções como “O Show de Truman” e “Jim e Andy”. A partir da tragédia, o casamento de Pickles se desfaz, e tem início um processo interno de digestão da dor e vazão da raiva.

Só que um exame mais generoso da trama e dos roteiros espetaculares de cada episódio mostra que “Kidding” é, sim, uma série cômica, com piadas afiadas e quase impróprias, e que abrem uma oportunidade talvez inédita –a de as pessoas do segundo grupo fazerem as pazes como o humor de Carrey.

O papel do homem que sofre para administrar um império familiar milionário e, ao mesmo tempo, o pior trauma possível a um ser humano dá ao ator a chance de estressar polos tão opostos quanto o riso e o choro em uma atmosfera controlada. E, assim, fica impossível não se apaixonar por ele.

“Controlada”, aliás, aqui não quer dizer careta, porque “Kidding” passa a quilômetros da discrição. Seu texto é sarcástico, sua estética é vibrante, e a quantidade de maconha por metro quadrado —tanto em cena quanto provavelmente nos bastidores— só perde para “Narcos” e “Breaking Bad”.

“Kidding” demonstra domínio pleno de uma equação fundamental para o universo das séries, na qual, quando um elemento entra em desequilíbrio, tudo desanda e alguém muda de canal. É a fórmula e o ritmo (os episódios têm meia hora de duração), mais consistência, mais qualidade, igual à vontade de maratonar.

Criada por Dave Holstein, a série tem como produtor executivo Michael Gondry, com quem Carrey trabalhou em “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", e um elenco impecável, incluindo Frank Langella no papel do pai de Pickles, Judy Greer como a quase ex-mulher, e Catherine Keener, que interpreta a irmã Deirdre, criadora dos fantoches, à beira de um colapso nervoso, e que se prova no fim a verdadeira força motora da família Piccirillo.

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