Descrição de chapéu The New York Times

Quem está salvando Nova York da Covid-19 é a mulher negra, diz artista do Brooklyn

Aya Brown destaca em desenhos a importância das profissionais que compõem os serviços essenciais

Sandra E. Garcia
The New York Times

Os rostos das mulheres em seus retratos muitas vezes estão parcialmente cobertos por uma máscara amarrada atrás da cabeça, puxando suas tranças, seus coques ou cachos. As mulheres usam uniformes que revelam os trabalhos essenciais que fazem, mas essa armadura cotidiana não consegue esconder seu estilo e carisma.

São negras que realizam funções que a pandemia do coronavírus rapidamente revelou como sendo essenciais para o funcionamento de Nova York. E todas foram desenhadas pela artista Aya Brown, de 24 anos, do Brooklyn. São as mulheres que a atenderam em um hospital ou um supermercado. Entre elas há zeladoras, funcionárias dos transportes públicos de Nova York, operárias, carteiras e seguranças.

Feitos com lápis de cor sobre papel pardo, os desenhos compõem a série “Essential Workers”, uma coleção desenhada com uma intimidade que faz o espectador sentir que conhece as pessoas desenhadas. Não é apenas seu trabalho que é revelado pelas linhas e cores, mas também sua atitude.

“Meu objetivo é enaltecer mulheres negras que se parecem comigo e me inspiram —dar a elas um espaço para serem vistas, para que as pessoas se conscientizem delas”, disse Brown.

As mulheres vêm sendo as heroínas da pandemia. Elas estão nas salas de emergência, estão nas ruas fazendo entregas, estão em casas de repouso, em obras de construção, e muitas continuam a dar aulas a seus alunos, a distância.

Um em cada três empregos ocupados por mulheres é essencial, segundo uma análise feita pelo New York Times dos dados do recenseamento cruzados com as diretrizes do governo federal sobre trabalhadores essenciais. A maioria das mulheres que têm trabalhos essenciais são não brancas.

“Acho que quando pensamos em trabalhadoras essenciais, não pensamos em nós mesmas”, comentou Aja Brown, de 26 anos, irmã da artista e tema de um de seus retratos.

Aja é educadora paraprofissional, um papel semelhante ao de assistente de professor. Ela trabalha com alunos da quinta série no bairro do Brooklyn. Desde que as escolas fecharam as portas, em março, ela vem trabalhando de casa. Aja nunca se enxergou como trabalhadora essencial até se ver no Instagram, em retrato feito por sua irmã. Ela conta que o retrato a fez chorar.

“Não sei se eu precisava daquele espaço”, ela comentou. “Só quero que meus alunos cheguem aonde precisam chegar, emocionalmente e em termos de aproveitamento escolar. Não penso muito em mim mesma.”

Aya Brown quer mudar esse modo de pensar. Quer ajudar mulheres negras a se enxergarem como sendo essenciais, pondo essas figuras no centro de seu trabalho artístico e aproximando o espectador de seu universo.

“Está claro que ela é muito próxima do mainstream, que seu olhar não tem filtro. Fica claro o quanto ela ama seu pessoal e sua aldeia”, comentou Tamara P. Carter, roteirista e diretora da série de TV ainda inédita “Freshwater”.

Temporariamente afastada da empresa para a qual trabalha como organizadora de eventos, a Gavin Brown Enterprises, Aya Brown vem aproveitando o tempo livre para mergulhar fundo em sua arte, na qual quer mostrar as mulheres negras queer da maneira mais plena possível, com sua sexualidade, sua força, seu estilo, seus corpos, sua alegria e ousadia. Mesmo os materiais que ela usa são intencionais –Aya faz seus desenhos sobre papel pardo porque, afirma, “corpos pretos não precisam começar do branco”.

De vez em quando ela promove festas cuja finalidade é oferecer um espaço seguro para lésbicas negras, como ela própria. É o tipo de apoio que ela tinha quando estava crescendo no Brooklyn, mas que lhe fez falta quando ela estudou na faculdade particular Cooper Union, em Manhattan. Brown disse que sua experiência ali foi traumática; ela sentiu que sua negritude não era aceita. Acabou abandonando a faculdade depois de três anos, em 2017.

“Me fizeram sentir que eu não merecia estar lá”, ela explicou.

Aya Brown começou a criar sua série “Essential Workers” em abril, depois de passar por uma sala de emergência hospitalar. Ela notou como a enfermeira, negra caribenha, cuidava dela, enquanto o médico passava no quarto só intermitentemente.

“Notei que os enfermeiros na sala de emergência geralmente são mulheres e negras”, disse Brown. “Fiquei pensando nessas mulheres negras na linha de frente. Me incomodou o fato de ninguém estar prestando atenção nisso.”

Alguns meses mais tarde, sem trabalho devido à pandemia e com pouca coisa a fazer, ela começou a desenvolver sua série “Essential Workers”.

Brittany Tabor, 29, uma das mulheres retratadas por Aya Brown, é diretora de uma loja Target no Brooklyn há seis anos.

“Até a chegada da Covid-19, nunca soubemos que éramos essenciais”, ela comentou. “Agora percebo que preciso ficar firme para apoiar a comunidade. Eu não tinha me dado conta de tudo que fazemos.”

Como inúmeras mulheres negras nos Estados Unidos, Tabor teve que se fazer às vezes de psicóloga para seus funcionários durante a pandemia. Quando alguém perdia um parente ou vizinho, ela tentava dar apoio à pessoa.

“Eu tentava dizer ‘estou do seu lado, vamos passar por isto juntas’”, ela contou. “Ao mesmo tempo, eu também estava apavorada. Sou humana, como todo o mundo. Só que consegui mostrar outro lado.”

As mulheres negras também são pouco representadas nos mundos da arte e da mídia, e as negras queer são praticamente inexistentes em museus, segundo Chaédria LaBouvier, curadora da mostra “Basquiat’s ‘Defacement’: The Untold Story”, no museu Guggenheim.

“Isso é repulsivo de um jeito realmente violento e indiferente”, disse LaBouvier. “Não há desculpa para isso. Até curadores negros podem ser cúmplices, ajudando a perpetuar essa situação.”

Segundo LaBouvier, o trabalho de Aya Brown não trata de ela ter ficado de fora do mundo artístico branco, hétero e patricarcal, mas da classe trabalhadora negra dizendo “já estou no centro, e há muita beleza aqui”.

O trabalho de Brown “pergunta o que pode ser a libertação”, disse LaBouvier. “Estamos em um momento em que as mulheres queer estão dizendo ‘é muito mais do que encontrarmos um lugar dentro do sistema, vamos abolir o sistema’."

Segundo Carter, quando olharmos para este momento da história, no futuro, perguntando quem salvou Nova York da pandemia de coronavírus, os retratos pintados por Aya Brown darão a resposta.

“Tão importante quanto a arte dela em si parece ser para quem ela está fazendo essa arte”, disse Carter. “Arte criada com esse tipo de amor e rigor é autoevidente e não pode ser cooptada.”

Tradução de Clara Allain

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.