Descrição de chapéu Artes Cênicas

Renato Borghi apresenta, de casa, peça de Beckett que tem tudo a ver com a pandemia

Em 'Fim de Jogo', ele e Elcio Nogueira Seixas interpretam dupla isolada no fim do mundo

São Paulo

Há quatro anos, o ator Renato Borghi foi submetido uma série de operações na coluna que o deixaram sem andar por semanas. De carreira de rodas, ele se viu totalmente dependente de Elcio Nogueira Seixas, com quem divide o grupo Teatro Promíscuo e um apartamento próximo à avenida Paulista.

O absurdo da situação logo remeteu a "Fim de Jogo", peça de Samuel Beckett sobre a relação entre um patrão e um empregado isolados num abrigo em meio a um cenário pós-apocalíptico. Enquanto o patrão, Hamm, é cego e tetraplégico, o empregado, Clov, tem uma doença que o impede de se sentar. A dupla passa o espetáculo inteiro sem sair do lugar, andando e falando em círculos.

Na época com dificuldades para encontrar o palco ideal, Borghi e Seixas acabaram encenando o texto no próprio apartamento, sob a direção de Isabel Teixeira. E assim foi por meses, para euforia dos fãs de Borghi, que chegavam mais cedo para espiar sua casa, e desespero inicial dos vizinhos.

"Mal sabíamos que era tudo um ensaio para agora", diz Seixas. Desde meados de março, os intérpretes estão confinados, tal qual Hamm e Clov, naquele mesmo apartamento.

Como Borghi tem 83 anos, o esquema é de lockdown. E foi por isso mesmo que o texto doeu mais, conta o ator, um dos mais importantes da cena atual e fundador do Teatro Oficina ao lado de José Celso Martinez Côrrea. "A peça me tocou nos nervos, na minha situação de confinado, na minha condição de grupo de alto risco."

Seixas concorda: "Agora que fomos entender de verdade o espetáculo. Antes estávamos só fazendo teatro."

Fez sentido, portanto, retomar a montagem no Palco Virtual, que o Itaú Cultural estreou na semana passada. O projeto exibe, à distância, espetáculos inéditos e montagens recentes, além de curtas.

Apesar de o cenário ser o mesmo, ele volta numa versão um pouco diferente daquela apresentada no apartamento há quatro anos. Desta vez, a peça de quase duas horas foi dividida em capítulos já filmados e transmitidos entre esta sexta (3) e a próxima terça (7).

Além de a forma de não cansar tanto a plateia com os diálogos densos, a divisão não deixa de ser uma brincadeira, afirma Seixas, já que na trama tudo se repete, o tempo todo. "Até pensamos em fazer aquele resumo do episódio anterior, mas era muita palhaçada."

Já os retratos do pai e da mãe de Borghi que fazem as vezes dos pais de Hamm, no texto original metidos em latas de lixo, continuam presentes, mas com uma comicidade acentuada ao serem enquadrados em closes.

O humor inesperado da obra, aliás, é algo que parece ter resistido a esses tempos sombrios, diz Borghi. "Gravando, não estava pensando em fazer comédia. Mas quando assisti à montagem, com aqueles pessoas completamente isoladas, perdidas, sem conseguir ver nada, é risível. A humanidade tem essa coisa de rir da desgraça."

Já a sensação de terra arrasada que serve de pano de fundo para a história e que Borghi já pressentia no Brasil daquela montagem inicial só cresceu. Em parte por causa do coronavírus, afirma Borghi, mas também em razão do que ele chama de "desgoverno" atual que, ele diz, odeia as artes, a cultura, a ciência, a pesquisa.

"Fato é que a janela para fora é a televisão, e o que ela me diz não é nada bom, que está tudo difícil, que não há superação. Zero, zero, zero", completa Borghi, em referência a uma fala recorrente do serviçal Clov ao observar, com uma luneta, o cenário estéril de fora do abrigo.

"Essa peça é engraçada, sabe. Ela sempre me deixa uma leve depressão depois, porque me lembra algo em que se evita pensar, a nossa própria morte. Ela trata disso, do fim", continua o ator, citando uma frase do seu personagem, Hamm, que diz que "o fim está no começo, e no entanto, continua-se". "É isso. Ainda assim continuamos.

Fim de Jogo

  • Quando Sexta (3) a terça (7), às 21h
  • Onde No site itaucultural.org.br
  • Preço Grátis
  • Elenco Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas
  • Direção Isabel Teixeira

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