Descrição de chapéu Ao Vivo em Casa

Seria maravilhoso ter um artista na presidência do Brasil, diz Caco Ciocler

Ator debateu 'Partida', seu filme de estreia, com a psicóloga Vera Iaconelli em live da Folha desta sexta (10)

São Paulo

Questionado se a atriz Georgette Fadel continua com os planos de se candidatar à Presidência narrados no filme "Partida", o ator Caco Ciocler, diretor do filme, respondeu que ela ainda não descartou a possibilidade. Mas, acrescentou, ele mesmo considerava a ideia de ter um artista na presidência maravilhosa.

"O próprio Bolsonaro disse que não entende de nada. Já que é para não entender de nada, que seja uma cabeça que pense uma existência não tão simplificada, banal."

A frase foi dita numa live que a Folha realizou nesta sexta (10). Nela, Ciocler discutiu sua obra de estreia na direção de longas com a psicóloga e colunista do jornal Vera Iaconelli, numa conversa mediada pela repórter Teté Ribeiro.

chamada ao vivo em casa 10jul
O ator Caco Ciocler e a psicóloga e colunista da Folha Vera Iaconelli em chamada para o 'Ao Vivo em Casa' - Núcleo de Imagem

Lançado no mês passado, "Partida" acompanha um grupo que viaja nos últimos dias de 2018 para passar o Ano Novo com o ex-presidente uruguaio José Mujica, logo após as eleições que alçaram Jair Bolsonaro ao poder.

Entre eles, está Fadel. E um ator e empresário, Léo Steinbruch, que tem posições políticas opostas às dela.

Durante a live, Iaconelli afirmou que essa simples convivência entre pessoas com opiniões políticas distintas já representa uma espécie de utopia no país cindido de hoje. “Parece que a grande ficção do filme é imaginar que nesse ‘ônibus Brasil’ essas partes dialoguem”, disse.

“O Brasil não está conseguindo fazer justamente com que haja política. E no filme os antagonistas conseguem trocar, rever posições, sem que os laços se deteriorem.”

Um movimento que, de alguma maneira, parece ter antecipado as frente democráticas surgidas nos últimos meses, como o Somos 70%, continuou a psicóloga. “Pois é isso que está acontecendo, as diferenças produzindo algo pelo bem comum.”

Ciocler contou que essa voz divergente, de Steinbruch, foi convidada para a viagem de última hora, depois que ele e a equipe perceberam que faltava à narrativa algum tipo de conflito, já que grande parte dos integrantes da equipe técnica compartilhavam das ideias de Fadel.

Além disso, ele acrescentou, “sempre achei que havia um caráter performático naquelas brigas que vivemos em 2018”.

Essa ideia de performance, aliás, foi um dos temas mais abordados na live. O documentário a todo tempo evidencia a sua fabricação ao espectador, seja ao enunciar que está refilmando um material perdido por causa de um cartão de memória queimado, ou ao incitar uma briga entre os viajantes.

Ciocler afirmou que a decisão de fazer isso foi motivada pelas condições de filmagem —o grupo conviveu continuamente por seis dias, mas só havia dois microfones disponíveis, e as câmeras nem sempre estavam ligadas.

Por isso, qualquer situação que ele ou os membros da equipe achassem que valia ser capturada precisava ser interrompida para que eles recebessem microfones, as câmeras fossem posicionadas, a claquete fosse batida. “Meu combinado com os atores era de que não adiantava propor nada que não fosse registrado pelas câmeras.”

O que, se de um lado incluía um atraso recorrente de pelo menos 30 minutos “entre as faíscas e o que era registrado”, por outro tornou o filme mais autêntico, completamente calcado na improvisação. “Tivemos experiências desastrosas quando quisemos controlar o incontrolável”, disse Ciocler.

O ator afirmou que esse método também permitiu ao documentário registrar como a política na verdade se insinua nas relações diárias.

Ele citou cenas como aquela em que a diretora de fotografia, sentindo que seu espaço está sendo invadindo, o demarca com fita. Ou uma outra em que um integrante da trupe passa por debaixo do outro para não atrapalhar o sono dele.

Segundo o ator e diretor, "Partida" ensina que, seja naquele momento de acirradas disputas políticas ou agora, durante a pandemia, “não adianta só projetar utopia, temos que ir atrás dela". "Chega de esperar, ou de achar que terceiros podem traçar esse caminho.”

Iaconelli concordou e disse que a utopia é importante para dar sentido à vida. “O destino nós sabemos qual é, a morte. Se desistimos disso, o que sobra é a necropolítica”, ela disse, em referência ao conceito desenvolvido pelo filósofo camaronês Achille Mbembe para refletir sobre como os governos decidem quem vive e quem morre.

Partida

  • Onde Nas plataformas Now, Vivo Play, Oi Play, Petra Belas Artes à la Carte, Filme Filme e Looke
  • Elenco Georgette Fadel, Léo Steinbruch, Caco Ciocler, Sarah Lessa
  • Direção Caco Ciocler
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