Bailarino nigeriano de 11 anos ganha bolsa em NY depois de vídeo viral

Gravação com o estudante de balé Anthony Mmesoma Madu dançando foi vista mais de 20 milhões de vezes

Crianças dançam em rua com casas pobres

Anthony Mmesoma Madu, à esquerda, com alunos da Leap of Dance Academy, em Lagos, Nigéria, em 1º de agosto de 2020 Stephen Tayo / The New York Times

Noor Brara
The New York Times

Em junho, um vídeo de um minuto de duração mostrando um jovem estudante de balé dançando na chuva começou a circular na internet. A chuva cai e forma poças sobre o piso irregular de concreto em que ele dança, enquanto Anthony Mmesoma Madu, de 11 anos, faz pirueta após pirueta.

Ainda que as condições sejam as menos apropriadas para a dança —e até perigosas—, ele rodopia sem parar, voando descalço em um arabesco que conclui com perfeição. O dançarino sorri para a câmera, mas apenas por um momento, e volta a assumir uma expressão de feroz determinação, erguendo os olhos ao céu, seus braços esbeltos e dedos graciosos acompanhando o olhar.

O amplo alcance do vídeo —visto mais de 20 milhões de vezes em plataformas de rede social—destaca a improvável história de uma escola de balé instalada em um subúrbio pobre de Lagos, na Nigéria, a Leap of Dance Academy.

Fundada em 2017, a academia mudou a vida de seus alunos e deu a eles um lugar onde dançar e sonhar. E, nos últimos meses, inspirou pessoas influentes no balé a ajudar. Os alunos receberam ofertas de bolsas de estudo e convites para estudar em escolas e companhias de balé prestigiosas no exterior.

A escola recebeu doações consideráveis, que permitirão que ela construa um espaço adequado, equipado com uma pista de dança real.

Por enquanto, a Leap of Dance Academy continua alojada na casa de seu fundador, Daniel Owoseni Ajala, em Ajangbadi, uma periferia a oeste de Lagos. A cada dia, depois da escola, os 12 alunos de Ajala vão ao seu apartamento, onde ele encosta os móveis na parede e estende uma folha fina de vinil sobre o piso de cimento para as aulas, abrindo as portas e janelas para permitir que a luz entre.

Diante de faixas de chiffon de cores vivas, usadas para tornar o ambiente humilde um pouco mais festivo, os estudantes fazem suas aulas em pequenos grupos, usando uma barra de balé curta e mantendo os olhos voltados na direção de Ajala ou de algum instrutor estrangeiro em aulas —através do Zoom— para receber instruções.

Boa parte do processo é filmado e postado na conta de Instagram da escola, na qual a alegria dos estudantes é evidente em cada vídeo. Os movimentos deles são precisos, e belos —como provam os comentários e os emojis com corações e estrelas deixados como testemunho por espectadores.

Nos primeiros dias da Leap of Dance Academy, muitas das famílias de Ajangbadi desconfiavam do balé. Os movimentos severos e regimentados da modalidade eram muito diferentes dos usados nas fluidas danças africanas que elas conhecem bem —e o mesmo vale para os figurinos sumários e as sapatilhas aparentemente dolorosas, que, como as pessoas não demoraram a descobrir, causam calos, feridas e contusões.

“No começo, as pessoas sempre questionavam o que estávamos fazendo”, disse Ajala. “Tive de as convencer de que o balé não era uma dança ruim ou indecente, e sim algo que na verdade requer muita disciplina e teria efeitos positivos sobre a vida de suas crianças fora da classe. Eu sempre digo que não é só a dança, e que é preciso também considerar o valor da educação para a dança.”

Quando Ajala, de 29 anos, fundou a Leap of Dance Academy, três anos atrás, ele era um dançarino recreativo autodidata e tinha um sonho –abrir uma escola de balé para estudantes que levassem a sério o aprendizado dessa arte e a possibilidade de se dedicarem a ela profissionalmente um dia.

“Eu queria, mais que qualquer coisa, dar uma oportunidade àqueles que são mais jovens do que eu, para que eles não perdessem sua chance, como eu perdi”, ele disse em uma entrevista recente no Zoom. "Porque é difícil para mim ter de viver com a ideia de que já era velho demais, quando percebi que o que eu queria era dançar.”

Quando criança, Ajala desenvolveu uma obsessão pelo balé ao assistir a “No Balanço do Amor”, um filme de 2001 sobre uma jovem que abandona o balé e muda para o sul de Chicago quando sua mãe morre. Ela se apaixona por um colega de classe que compartilha de sua paixão pela dança e a ajuda a nutrir e a realizar o sonho adormecido de se tornar bailarina.

Ainda que a história parecesse esquemática e frívola na opinião dele, Ajala disse que se sentiu cativado pelo movimento que viu na tela e, talvez ainda mais, pela disciplina e sacrifício evidentemente necessários para dominar os passos. O balé também o atraía por outro motivo –não era ensinado ou praticado amplamente na Nigéria.

“Eu queria ser diferente”, disse ele. “Amava o fato de que o balé não fosse comum aqui. Quando se fala de dança na Nigéria, é como pegar uma rua de mão única –todo mundo faz a mesma coisa, e todo mundo termina no mesmo lugar.”

Ele aprendeu sozinho o que podia, assistindo a aulas e a apresentações de companhia de balé profissionais no YouTube; também fez alguns cursos curtos de balé em um centro de arte local.

Quando chegou a hora de cursar o ensino superior, ele estudou administração de empresas na Universidade Estadual de Lagos, a pedido de seus pais, com a intenção de seguir na dança como uma carreira paralela.

Mas, depois de fazer seus exames finais, ele decidiu que sua vocação era mesmo a dança. “Tive que explicar a meus amigos e família que às vezes um emprego como executivo não era tão bom quanto costuma ser retratado”, ele disse. “Porque lhe falta coração.”

E assim nasceu a Leap of Dance Academy. O nome é uma menção ao salto de fé que Ajala empreendeu ao abandonar a perspectiva de empregos mais seguros. Recorrendo novamente às plataformas online, ele se tornou parte de uma rede internacional de professores de dança no Facebook.

O dançarino postou uma mensagem explicando que estava planejando criar uma escola de balé na Nigéria que ensinaria os alunos gratuitamente, e perguntou se alguém tinha equipamento de dança usado que pudesse lhe enviar, já que muitas das famílias de Ajangbadi não teriam como arcar com esse tipo de despesa.

Logo depois, ele foi posto em contato com um representante da Traveling Tutus, uma ONG do estado americano da Flórida que doa equipamentos de balé usados para estudantes de dança no mundo inteiro.

No Facebook, ele também se conectou com três instrutores que se tornariam importantes na direção da Leap of Dance Academy –Linda Hurkmans, diretora do San Jose Dance Theater, na Califórnia; Thalema Williams, de Saint Croix; e Mary Hubbs, de Brooklyn, no estado americano de Michigan, dona de uma escola de dança. As três deram aulas online a Ajala, ajudando a melhorar sua técnica para que pudesse instruir seus alunos corretamente.

Agora, fazem o mesmo pelos estudantes, acordando cedo uma vez por semana para dar aulas enquanto ainda é dia na Nigéria —o condomínio em que Ajala mora só tem luz elétrica a cada dois dias—, para que os estudantes possam fazer suas aulas e voltar para casa antes que escureça.

As três também ajudaram Ajala a administrar a imensa atenção que a escola recebeu desde que o vídeo de Mmesoma Madu se tornou sucesso viral, com a ajuda de divulgação por celebridades como a atriz Viola Davis e de esforços de grandes companhias de balé como o American Ballet Theater e o New York City Ballet, e o apoio dos amantes do balé de todo o planeta, muitos dos quais ex-dançarinos impressionados com o desempenho do menino.

Fade Ogunro, jornalista e personalidade de mídia na Nigéria (e fundadora da Bookings Africa, uma agência de talentos pan-africana), foi uma dessas pessoas. “Como ex-bailarina, fiquei com inveja das belas linhas dele, de seu trabalho de ponta, e de sua graça singela”, ela disse no Twitter. "Quero pagar por toda a sua educação formal, onde quer que seja, até que ele se forme na universidade.”

Depois de conversar com a escola, Ogunro, que cresceu em Lagos e Londres, disse que assumiu o compromisso de patrocinar a educação acadêmica de Mmesoma Madu (seus uniformes na escola pública, livros e aulas particulares, e sua educação universitária depois disso), bem como a de mais um aluno da escola.

“É muito, muito difícil treinar balé formalmente na Nigéria”, ela disse em entrevista. “Há talvez uma ou duas escolas, como a Kingdom Ballet Company, que levam a coisa a sério, mas nada como a Leap of Dance Academy, que treina seus estudantes para dançar profissionalmente e não cobra por isso. Carreiras criativas como a dança estão apenas começando a ser levadas a sério na Nigéria.”

Ogunro disse que não conseguiu encontrar uma única loja na Nigéria onde pudesse comprar equipamento novo para os alunos da Leap of Dance Academy —“nem mesmo sapatilhas rosa clássicas, quanto menos sapatilhas para pessoas com tons de pele negros”.

E por isso, ela acrescentou, “o que Daniel e essas crianças estão fazendo, ao conseguir que tudo isso aconteça apesar das forças em contrário, é muito, muito notável”.

O papel de Ajala nas vidas de seus alunos vai além da dança; ele quer promover seu desenvolvimento completo como pessoas. Uma das aulas da escola por semana é dedicada inteiramente ao estudo convencional; os alunos levam suas tarefas para a escola e Ajala cada um deles conforme precisem.

Eles treinam a fala, escrita e leitura em inglês, juntos. E entre as aulas, que vão da metade da tarde ao início da noite, ele prepara uma refeição caseira para eles.

A rotina da escola mudou nos últimos meses. Com o fechamento das escolas do país por causa do coronavírus, os estudantes agora dançam pela manhã. (A Nigéria registrou menos de 50 mil casos de coronavírus; Ajangbadi, localizada a algumas horas de distância do centro de Lagos, escapou em geral incólume, até agora.)

Os alunos também começaram recentemente a receber aulas de conversação em espanhol, italiano e inglês, de seus professores de balé no exterior, como Williams e Hubbs. “Quero que os alunos aprendam a se relacionar com pessoas internacionalmente”, disse Ajala.

Estudantes como Mmesoma Madu e Olamide Olawale, de 19 anos, a primeira bailarina da escola e sua aluna mais velha, não parecem intimidados pela perspectiva de dançar no exterior.

No começo de agosto, Mmesoma Madu, um dos três meninos que estudam na escola, recebeu a oferta de uma bolsa de estudos integral no programa de treinamento de verão do Jacqueline Kennedy Onassis School of American Ballet Theater, depois que a diretora da companhia, Cynthia Harvey, viu seu vídeo viral.

“Aquele menino tem foco”, disse Harvey. “Está fazendo balé porque é o que ele quer fazer.”

Olawale disse que aspira a ser a nova Misty Copeland e também está matriculada num programa de verão, o da Elmhurst Ballet School, parte da Birmingham Royal Academy, na Inglaterra. No Instagram, ela posta fotos de sua jornada na dança, com a esperança de inspirar o sonho do balé em outras meninas.

“Encontre seu equilíbrio, garota”, ela aconselha em uma publicação, na qual descreve sua nova e estonteante realidade. “Você consegue.”

Desenvolver esse tipo de autoconfiança em seus jovens alunos, disse Ajala, era seu objetivo ao criar a escola, em companhia de sua missão de reenquadrar o contexto histórico e cultural do balé. “Eu queria mostrar que é possível aprender, viver e respirar o balé —crescer e ir a muitos lugares por causa dele”, afirmou.

Quando questionado como se sente sobre tudo que aconteceu nos últimos meses, ele disse que, acima de tudo, é bom ser visto. “É o sonho de cada professor”, ele disse. “O que aconteceu em todo o mundo com o coronavírus foi devastador. Mas de alguma forma foi uma benção para nós, porque trouxe o aprendizado online ao primeiro plano e tornou possíveis algumas oportunidades incríveis."

“Muitas pessoas também nos disseram que os alunos e sua dança são uma inspiração para elas. Sentem nossa alegria e isso lhes dá vida. E nos lembra de que a arte está aqui para ficar.”

Tradução de Paulo Migliacci.

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