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Maratona

Drama existencial com Juliette Binoche é '2001' para os quarentenados

Dirigido pela francesa Claire Denis, 'High Life' examina a solidão e a sobrevivência em uma nave espacial

High Life

  • Quando 2018, França
  • Onde Disponível no Google Play, Youtube, Now e Apple TV+
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Robert Pattinson, Juliette Binoche, André Benjamin, Mia Goth
  • Direção Claire Denis
  • Duração 112 min.

Virou lugar-comum dizer que essa ou aquela obra captura muito bem o zeitgeist, o espírito do tempo que vivemos desde o começo da pandemia. São livros, filmes e séries que lidam com confinamento, desesperança, falta de alternativas, desespero até.

Poucas delas serão tão boas quanto “High Life”, o novo longa da diretora veterana francesa Claire Denis, que chega direto ao streaming. A produção é da Apple TV, mas já está disponível no Now, YouTube e GooglePlay. O filme foi concebido, realizado e ficou pronto mais de um ano antes de o mundo nem sequer saber imaginar que haveria uma Covid-19.

Ainda assim, funciona quase como um “2001” para quarentenados (com a escassez de recursos própria desse período), se Stanley Kubrick estivesse deprimido ou se recuperando de coronavírus quando finalizou a obra-prima que revolucionaria o cinema de ficção científica.

Aqui, o monolito icônico do filme de 1968 parece inspirar a própria nave (desenhada pelo premiado artista dinamarquês-islandês Olafur Eliasson) em que um grupo de prisioneiros singra o espaço, sem rumo muito claro para os espectadores nem que se saiba muito mais sobre eles.

Sem deixar nada superexplícito, o time de astronautas dá dicas de que está em uma aparente missão suicida, à procura de buracos negros, regiões em que o campo gravitacional é tão intenso que nada escapa deles. A Terra está em crise e a incumbência da viagem parece ser tirar de um buraco negro uma quantidade de energia que pode salvar a humanidade.

Em vez das formas lânguidas e penetrantes que se costuma associar a naves espaciais, a deles é um caixote que poderia ser feito de restos de construção e se assemelha mais a um armazém de feno da América rural do que de um Apolo-qualquer-número feito pela Nasa.

Dentro dele vivem condenados na Terra que foram degredados. O comando é de uma médica enlouquecida, a doutora Dibs, interpretada por Juliette Binoche, que trabalhou com a diretora em seu filme anterior, “Let the Sunshine In”, de 2018, e que aqui encontra um de seus melhores papéis.

O ritmo da obra é propositalmente lento, parecido com o dia a dia dos navegantes, em que pouca coisa acontece. Mas, em algumas cenas, há suspense e sustos, e até alguma violência. Os momentos mais agitados vão chegando sem aviso e causam aflição maior do que se tivessem em um longa de ação. As consequências dos atritos entre os viajantes são de vida ou morte, e aos poucos a espaçonave vai ficando vazia.

Dentro dela há uma horta bem cuidada, da qual tiram parte dos alimentos que consomem e onde acontecem as conversas mais reveladoras entre os tripulantes, entre eles Tcherny, interpretado por André Benjamin, que costumava ser conhecido como Andre 3000, metade da dupla de rappers Outkast. Está lá também a adolescente ex-drogada Boyse, vivida pela britânica filha de mãe brasileira Mia Goth, por quem o personagem de Robert Pattinson tem uma atração reprimida. O elenco é todo muito jovem, a única veterana é Juliette Binoche.

Para que a nave seja palco do nascimento de uma criança no espaço, projeto em que a doutora trabalha obsessivamente, ela seda e insemina as detentas com o esperma dos detentos, que aceitaram a experiência para fugir da pena de morte. Tudo é muito rude e explícito, num filme que vai e vem no tempo.

Robert Pattinson, mais conhecido como o vampiro da série "Crepúsculo", não decepciona como Monte, o mais sensível dos prisioneiros e o fio condutor de “High Life”. Ele é o único que se recusa a participar do plano da doutora Dibs e se mantém abstinente durante toda a travessia. Sua relação com uma bebê que crescerá é ao mesmo tempo amorosa e perturbadora.

Não tão perturbadora como a cena de masturbação protagonizada por Juliette Binoche, numa sala apropriadamente chamada de “Fuck Box”, em que a atriz cavalga loucamente um vibrador numa espécie de touro mecânico. No final, as quase duas horas terão valido a pena.

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