Descrição de chapéu The New York Times

É hora do antirracismo invadir as óperas e trazer mudanças permanentes

Companhias de música clássica não podem continuar ignorando racismo que propagam

Eric Owens, como Porgy, em “Porgy and Bess”, em Nova York, 12 de setembro de 2019

Eric Owens, como Porgy, em “Porgy and Bess”, em Nova York, 12 de setembro de 2019 Sara Krulwich/The New York Times

Joshua Barone
The New York Times

No final de maio, pouco após o assassinato de George Floyd, a Los Angeles Opera convidou a meio-soprano J’Nai Bridges a fazer um recital virtual.

“Apesar de querer muito, eu não estava no estado emocional certo para me apresentar daquele jeito”, ela recordaria mais tarde, em discussão online com o tenor Lawrence Brownlee. E fez outra sugestão –e se ela reunisse um grupo de colegas cantores líricos negros para um bate-papo sobre raça e desigualdade na ópera?

A companhia aceitou a proposta, e enquanto os protestos do movimento Black Lives Matter agitavam o país, Bridges moderou um debate de quase 90 minutos de grande abrangência e franqueza notável.

A discussão variou de sessão de terapia em grupo a manifesto improvisado em prol do futuro de um gênero artístico que historicamente elevou cantores não brancos seletos, ao mesmo tempo se mantendo predominantemente branco fora do palco, desde as salas de ensaio até a direção das companhias.

Transmitido como live no Facebook, o debate já foi visto por mais de 60 mil pessoas. Deveria ser obrigatório para todos os líderes de companhias de ópera americanas e ser enviado a todos os membros de todos os conselhos de direção. Porque se alguma vez já houve um momento para adotar transformações abrangentes, esse momento seria agora.

A pandemia de coronavírus levou teatros de todo o país a fechar as portas, forçando companhias de ópera, cujas temporadas geralmente são programadas com grande antecedência, a repensar seus próximos anos com um grau de flexibilidade e criatividade que teria sido inimaginável até agora.

Mas a perturbação encerra oportunidades e assinala o fim das justificativas. O momento agora é propício para empreender uma reforma real da cultura da ópera, pondo o antirracismo no primeiro plano das preocupações enquanto o setor se reconstrói.

As companhias de ópera poderiam começar por simplesmente prestar atenção naquilo que os artistas negros estão dizendo em discussões como a que foi organizada por J’Nai Bridges ou em talk shows online como “The Sitdown with LB”, de Lawrence Brownlee, ou “Kiki Konversations”, da soprano Karen Slack.

Enquanto os problemas levantados nessas discussões não constituem novidade, nestes tempos de turbulência racial eles ganharam nova urgência que, para muitos, simplesmente parece diferente. É um tempo em que, como disse Bridges, “as pessoas estão ouvindo”.

Brownlee e Slack estão entre os artistas que participaram do bate-papo de Bridges, que também incluiu a soprano Julia Bullock, o baixista Morris Robinson e o tenor Russell Thomas. Os relatos que eles compartilharam representariam uma crise de recursos humanos em qualquer local de trabalho.

Christopher Koelsch, presidente e executivo-chefe da Los Angeles Opera, disse em entrevista que sua reação inicial ao vídeo foi “choque e pesar pelo fato de que as experiências vividas por esses artistas tenham sido ignoradas daquela maneira cruel”.

Refletindo sobre a brutalidade policial e as ameaças racistas feitas a Christian Cooper quando estava observando pássaros no Central Park, Robinson, no debate, disse que sempre soube que algo desse tipo pode vir a acontecer com ele.

“Em todo ensaio de ópera do qual já participei, eu ando atento, vigilante”, ele disse, “ciente do fato de que minhas interações precisam ser muito públicas, diante de todo o mundo e muito inócuas, para erradicar quaisquer dúvidas ou imagens potenciais”.

Ele descreveu indignidades casuais que sofreu ao longo de sua vida profissional, como a dissonância entre os elogios que recebe sobre o palco e as atitudes amesquinhadoras com que se defronta de longe, como quando uma pessoa da plateia lhe comunicou que uma lâmpada no banheiro precisava ser trocada e outra lhe perguntou onde ele havia estacionado o ônibus.

Durante uma temporada de verão de “Il Trovatore”, de Verdi, em Cincinnati, ele e Russell Thomas participaram de uma festa dos membros do conselho de direção da companhia em que tiveram que fazer força para manter a calma ao serem tratados com racismo flagrante por um doador branco à companhia.

“Tenho que continuar vindo ao teatro para fazer meu trabalho, porque ainda preciso daquele cheque”, explicou Thomas. “Tenho filhos para sustentar, um financiamento de casa para pagar.”

Houve um suspiro coletivo de exasperação quando foi mencionado como a negritude na ópera praticamente desaparece fora do palco. “Em 20 anos na profissão, nunca fui contratado por um negro, nunca fui dirigido por um negro, nunca vi um CEO negro de uma companhia de ópera, nunca vi um negro presidir o conselho de direção de uma companhia de ópera, nunca trabalhei com um regente negro”, disse Robinson. “Nunca vi sequer um gerente de palco negro. Nem um sequer, nunca, em 20 anos.”

A Metropolitan Opera, a maior companhia de ópera dos Estados Unidos –de fato, a maior organização americana de artes cênicas—é um exemplo revelador disso. Seu conselho de direção tem 45 membros, dos quais apenas três diretores gerentes são negros. Dos dez integrantes de seu staff musical, um é negro.

Dos 90 membros da orquestra, dois são negros. Em seus 137 anos de história, o Met apresentou 307 óperas, nenhuma delas de um compositor negro. (Isso vai mudar quando a companhia encenar “Fire Shut Up in My Bones”, de Terence Blanchard, em uma temporada futura.)

A temporada passada foi aberta com uma produção de “Porgy and Bess”, que, apesar do elenco quase exclusivamente negro —exigido pelos herdeiros de seus criadores, os irmãos Gershwin—, foi dirigido e regido por homens brancos (mas coreografado por uma mulher negra, Camille A. Brown). Segundo Thomas, o mínimo que se pode exigir é que isso não volte a acontecer.

“Parem de deixar que brancos contem a negros sobre a experiência negra”, ele disse. “Isso para mim é um ultraje. Não me diga como eu devo me sentir como negro e como devo me movimentar.”

Julia Bullock, que no início do debate disse estar "ficando cansada de tentar fazer as pazes" consigo mesma, sugeriu que seja feita uma pesquisa anônima para identificar padrões de desigualdade racial no campo da ópera, incluindo nos conservatórios. Em entrevista posterior, J’Nai Bridges opinou que, como é feito com workshops sobre assédio sexual, as companhias de ópera deveriam impor a participação em workshops sobre racismo e diversidade.

Soprano J'Nai Bridges em Houston, 13 de junho de 2020
Soprano J'Nai Bridges em Houston, 13 de junho de 2020 - Rahim Fortune / The New York Times

Karen Slack disse no vídeo que a exigência que ela faz não passa de uma simples questão de humanidade. “Não estou pedindo para ocupar seu lugar. Estou pedindo para me dar licença para que eu possa ocupar meu lugar e que você concorde com isso.”

Há sinais de que líderes no mundo da ópera estão ouvindo, se bem que isso seja apenas um passo rumo ao progresso. “É muito fácil ser aliado dos negros neste momento”, disse Brownlee em entrevista. “Mas o que estou pedindo das pessoas são atitudes com propósito. Eu disse a meu agente, disse aos diretores gerais que agora é a hora de passar do discurso à ação.”

Como seus colegas em outros campos, alguns músicos negros rejeitam a ideia de educar seus colegas brancos. Isso não é responsabilidade deles. Mas é algo que Bridges, embaixadora da organização
Coligação para Afro-americanos nas Artes Cênicas, acha fundamental. Ela contou que nos últimos 30 dias vem tendo discussões com várias organizações que a procuraram.

Por sua parte, a Los Angeles Opera, disse Christopher Koelsch, “vai se engajar com esse trabalho em todos os níveis das operações da companhia”. O Met —que só proibiu o uso de blackface em suas produções em 2015 e cuja diva Anna Netrebko já demonstrou e defendeu essa prática racista nas redes sociais— anunciou em junho que vai contratar seu primeiro diretor chefe de diversidade.

Peter Gelb, gerente geral da companhia, disse em entrevista que o Met também vai reformar seu programa de estágio, tradicionalmente não pago, para introduzir estágios pagos e lançar uma campanha para recrutar uma diversidade de candidatos.

“Será um projeto de longo prazo, que está começando agora”, ele disse. Essa é a esperança de artistas negros —e de ativistas negros de modo mais geral— que receiam que o apoio amplo que estão recebendo de brancos neste verão americano seja apenas temporário. “Não quero que isto daqui seja uma coisa passageira, uma simples hashtag”, disse Bridges. “Tem que ser uma discussão contínua, para sempre.”

Tradução de Clara Allain

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