Descrição de chapéu The New York Times

Escritora faz memes para explicar 'mansplaining' com ajuda da arte do século 17

Nicole Tersigni faz sucesso no Twitter ao retratar machismo e diferentes tipos de homem, como o 'sexpert'

Alisha Haridasani Gupta
The New York Times

A história começa no Twitter, como tantas outras coisas atualmente.

Em maio de 2019, Nicole Tersigni, uma jornalista radicada em Detroit, entrou na plataforma de mídia social ao final de um dia longo. Ela estava cansada e impaciente, depois de passar horas cuidando de sua filha de oito anos, que estava doente e não tinha ido à escola.

“Eu entrei na internet para dar uma olhada no Twitter e me distrair um pouco e vi um cara explicando a uma mulher a piada que ela mesmo tinha acabado de fazer —algo que aconteceu comigo muitas vezes”, ela disse.

No passado, Tersigni costumava deixar passar essas conversas irritantes sem comentários, mas aquele exemplo específico mexeu com ela. Tersigni foi ao Google e fez uma busca por “mulher cercada de homens” (“porque é essa a sensação do momento, quando você está online”, ela disse) e tropeçou em uma pintura a óleo de Jobst Harrich, do século 17, que mostra uma mulher cercada por um grupo de homens carecas e exibindo um seio.

Ela postou a imagem, com a legenda “talvez se eu colocar o peito para fora eles parem de me explicar a piada que eu mesma fiz”.

Em outra mensagem, Tersigni postou um quadro do século 18 intitulado “Conversação em um Parque”, de Thomas Gainsborough, com a legenda “você ficaria muito mais bonita se sorrisse”, transformando o que parecia ser uma vinheta de um homem flertando com uma mulher em uma cena engraçadíssima.

Ela continuou tuitando, e suas postagens começaram a ganhar circulação viral, conquistando dezenas de milhares de curtidas, de pessoas como as atrizes Busy Philipps (“essa thread é genial”, ela proclamou) e Alyssa Milano (“talvez esta seja minha thread favorita de todos os tempos”), uma indicação clara de que o humor de Tersigni havia capturado exemplos cotidianos de misoginia que pareciam desconfortavelmente familiares para muitas mulheres.

“Foi como uma bola de neve, a partir dali, porque era fácil consumir aquelas imagens, rir delas e sentir empatia”, disse Tersigni. (Diversos homens comentaram a mensagem, para explicar a piada que ela já tinha feito ou apontar que nem todos os homens fazem essas coisas.)

Passados poucos dias, um agente a procurou e sugeriu que ela transformasse seus tuítes em livro. Duas semanas mais tarde, eles começaram a se reunir com editores, explicou Tersigni, e ela fez um acordo com a Chronicle Books.

“Lembro de ter recebido a proposta, olhado para ela e começado a rir”, disse Rebecca Hunt, diretora editorial da Chronicle Books, que trabalha com livros de humor e sobre a cultura pop.

“Quando chegou a hora de informar a equipe editorial sobre o projeto, imprimi diversas das páginas e as espalhei sobre a mesa. Nem precisamos dizer qualquer coisa. Todo mundo leu e começou a rir”, ela disse. “Foi assim que soubemos imediatamente que a ideia funcionaria.”

Pouco mais de um ano depois daquele primeiro tuíte, a visão de Tersigni saltou da mídia social para o papel, com “Men to Avoid in Life and Art”, cujo lançamento aconteceu em 11 de agosto.

Cada capítulo do livro ilustrado, que une obras de arte e legendas aguçadas, explora os diferentes tipos de homens que Tersigni e muitas outras mulheres costumam encontrar regularmente. Ela descreve cinco deles, com exemplos extraídos da cultura pop, abaixo.

O mansplainer

“O ‘mansplainer’ explica coisas de um jeito condescendente”, disse Tersigni. “Os comentários deles sempre surgem sem que sejam solicitados. Ninguém pede por eles. Uma das piadas favoritas entre as que usei na thread e que também está no livro envolve um ‘mansplainer’ dizendo a uma mulher: ‘pode deixar que eu explico a experiência que você viveu’.”

O falso preocupado

O falso preocupado aborda as mulheres expressando preocupação sobre alguma coisa que elas estejam fazendo ou dizendo, mas não é sincero. “Eles usam essa falsa preocupação para criticar ou solapar as mulheres”, diz Tersigni.

Um exemplo é Gaston de “A Bela e a Fera”, que finge preocupação pelo bem-estar de Bela quando a vê com um livro nas mãos. (“Ler é errado para uma mulher! Ela logo começará a ter ideias —e a pensar!”)
No mundo real, disse Tersigni, “esse tipo de homem diz coisas como ‘concordo com seu argumento, mas o tom que você usa alienará a audiência’”.

O comediante

O comediante não é só alguém que conta piadas. Ele é uma pessoa sem graça que está convicta de que é engraçada, “mas se você não ri de seus gracejos, que em geral são velhos, sexistas e racistas, é porque você não entende comédia ou porque lhe falta senso de humor”, disse Tersigni.

“Todd Packer, de ‘The Office’, é um exemplo perfeito desse tipo de cara”, ela acrescentou. “Ele conta as piores piadas e fica bem furioso quando as pessoas não dão risada de ele lhes servindo cupcakes com laxante.”

O especialista em sexo

É o termo que ela usa para descrever um homem heterossexual que acredita ter todas as respostas relacionadas a mulheres e a sexo. “O ‘sexpert’ acha que conhece o corpo de uma mulher melhor do que ela”, disse Tersigni. “Acha que sabe o que acontece com ela por dentro.”

“Harry, de ‘Harry e Sally’, é o o maior ‘sexpert’”, o que a personagem de Meg Ryan, Sally, considera tão irritante que leva a uma performance memorável na Katz’s Deli, em Nova York, ela acrescentou.

O condescendente

Parente próximo do falso preocupado, o condescendente minimiza as mulheres ao invocar o que imagina ser os sentimentos delas. “O condescendente usa as emoções da mulher como armas contra ela, e a faz se sentir pequena para que ele possa se sentir grande”, disse Tersigni. “É o cara que diz que não há como conversar com uma mulher se ela vier com histeria, o que irrita mais do que alguém arranhando o quadro negro com as unhas.”

Tradução de Paulo Migliacci

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