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Ficção científica de Ray Bradbury buscava no passado a distopia do futuro

Autor de 'Fahrenheit 451', que chegaria aos cem anos, via ciência como detalhe e tecnologia com certo desprezo

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Rio de Janeiro

O primeiro marciano a cair na Terra completaria cem anos neste sábado.

Autor dos clássicos “Fahrenheit 451” e “Crônicas Marcianas”, Ray Bradbury tratava em sua literatura de ficção a ciência como um detalhe e a tecnologia até com certo desprezo. “Por que clonar uma pessoa, quando você pode simplesmente transar e fazer um bebê?”, ele se perguntava. O autor também não dirigia automóvel e tinha medo de avião.

ray bradbury segura placa
O escritor Ray Bradbury, mestre da ficção científica morto em 2012, em imagem feita em 2009 no seu escritório - Ethan Pines/The New York Times

“O que é a ficção científica? É a literatura que prevê o futuro? Não. É a literatura que olha o presente, vê o presente em movimento, vê o presente como uma forma que se avoluma, cresce, toma conta do mundo”, argumenta o escritor e crítico Bráulio Tavares ao comentar a obra do autor.

Em Bradbury, não há monstros alienígenas. Tampouco descobertas científicas extraordinárias e complicadas de o leitor entender. Até os aparatos tecnológicos e o ambiente de lugares a anos-luz de distância assumem um tom poético.

Em Tyrr, nome pelo qual os marcianos chamam o planeta vermelho, se vive num eterno outubro, as mulheres têm olhos amarelos, se assam pães de cristal, se bebe fogo elétrico, a comida é entregue por icebergs voadores.

A recente notícia de que a Nasa prepara mais uma missão a Marte —o jipe Perseverance deverá pousar no planeta em fevereiro do ano que vem para estudar as possibilidades de atividade biológica e pavimentar um caminho para o futuro da vida por lá— soa como uma homenagem às avessas ao centenário do escritor.

Publicado em 1950, “Crônicas Marcianas” trata de um lugar invadido e destruído por um povo estranho —os terráqueos— e da tensa relação entre conquistado e conquistador, com toques de sarcasmo, melancolia e lirismo.

Embora a ação do livro se desenrole entre 1999 e 2026, a ficção científica de Bradbury não mirava o futuro, e sim o passado —o genocídio nas guerras de colonização—, para entender como a humanidade chegara àquele terrível “presente em movimento” da Guerra Fria e da ameaça nuclear.

O próprio escritor desenhou sua árvore genealógica num depoimento –filho de Júlio Verne, sobrinho de H. G. Wells, primo de Edgar Allan Poe. Um meio de campo criativo que reúne não só a fantasia como também o terror. E, sobretudo, o compromisso com o prazer da leitura e o entretenimento.

Seria possível acrescentar à lista as assinaturas de contemporâneos de Bradbury –J. G. Ballard e Philip K. Dick, para os quais a ciência também era um acidente incômodo no mundo distópico.

Ao escrever o prólogo da saga de Marte, Jorge Luis Borges mencionou “seu caráter de antecipação de um futuro possível ou provável”.

O comentário é ainda mais apropriado se pensarmos no romance melhor realizado do escritor. “Fahrenheit 451”, lançado em 1953, retrata uma sociedade sombria, sob censura, dominada ideologicamente, em que os bombeiros a serviço do Estado totalitário não combatem o fogo, mas o ateiam aos livros, para destruir os volumes, apagando o conhecimento, a memória e as artes.

A motivação imediata da obra eram os anos de macarthismo e perseguição política nos Estados Unidos, mas sua antevisão se mostra de um alcance ainda maior e atualíssimo, quando se pensa em governantes que consideram a leitura como “coisa de rico”.

Escritor profissional e contador de histórias, como se definia, Bradbury impôs a si mesmo uma rotina obsessiva. Durante mais de 60 anos escreveu ao menos um conto por semana, que podia ou não ser aproveitado. Neles, desenvolveu um estilo rebuscado, cheio de símiles e metáforas, de vocabulário rico, prosa que causava estranheza e fascínio nos leitores das revistas pulp nas quais costumava publicar.

Dezesseis desses contos estão na coletânea “Prazer em Queimar: Histórias de Fahrenheit 451”, que o selo Biblioteca Azul mandou para as livrarias em homenagem à data redonda de nascimento. De “O Bombeiro” nasceu o romance famoso e, em “A Biblioteca”, um personagem lamenta “rasguem meus livros, queimem meus livros, erradiquem, rasguem, limpem, matem-nos, ah, matem-nos”.

O melhor relato se inspirou numa abordagem sofrida pelo escritor. Em “O Pedestre”, alguém sai de casa à noite. Estamos em 2053, as ruas desertas, todos em casa diante das TVs. Chega o carro de polícia e leva o homem —que tem como único comportamento estranho o hábito de caminhar— para o Centro Psiquiátrico de Pesquisa de Tendências Regressivas.

Morto em 2012, aos 91 anos, o que Ray Bradbury escreveria sobre um tempo —o nosso— em que uma médica, que tem entre seus seguidores o presidente Trump e a cantora Madonna, afirma que relações sexuais com demônios são a origem das doenças, o DNA de aliens é usado como tratamento delas e que cientistas estão desenvolvendo uma vacina para acabar com as religiões?

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