Curadora da Flip pede demissão e sugere que mulher negra ocupe cargo

'A Flip agora precisa de uma curadora negra para reinventá-la nesse mundo pós-pandemia', afirma Fernanda Diamant em nota

São Paulo

A curadora da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, Fernanda Diamant, pediu demissão do cargo nesta quarta-feira (12).

Em nota, a editora afirma que "a Flip agora precisa de uma curadora negra para reinventá-la nesse mundo pós-pandemia".

"Uma mulher negra, na minha opinião, é a renovação que o evento mais importante da literatura do país precisa."

Fernanda Diamant na 17ª edição da Flip
Fernanda Diamant na 17ª edição da Flip - Folhapress

A organização da Flip disse que anunciará um novo titular para o cargo em breve e agradeceu a agora ex-curadora por seu "brilhante trabalho curatorial" em nota.

Diamant esteve à frente da última edição da festa no ano passado, quando o evento homenageou o escritor Euclides da Cunha, e foi confirmada para a edição deste ano, que aconteceria entre os dias 29 de julho e 2 de agosto e foi adiada para novembro por causa da pandemia de coronavírus.

A escritora escolhida como a homenageada na edição deste ano tinha sido a americana Elizabeth Bishop. A opção por uma autora estrangeira gerou polêmica na época do anúncio, contrariando a expectativa dos que esperavam uma escritora brasileira. Causou também alvoroço o fato de Bishop ter sido simpática ao golpe militar de 1964 no Brasil e feito comentários ácidos sobre a arte brasileira.

“À minha revelia, a Flip foi postergada para novembro. A pandemia se agravou, a condução genocida que o governo federal fez da crise sanitária deixou tudo muito sombrio. Cada vez mais me parecia que a celebração desenhada previamente pertencia a uma outra época e tinha perdido sentido. Não havia nada a ser comemorado. Ainda não há. Era preciso repensar a curadoria e até mesmo o próprio evento —virtual ou não— à luz dos acontecimentos”, escreveu Diamant. ​

"É muito pesado o que a gente está vivendo no Brasil, e teve essa coisa maravilhosa que foi esse levante nos Estados Unidos e que reverberou muito aqui, um movimento que eu venho acompanhando”, disse ela, em referência aos protestos pela morte do americano George Floyd. "As pessoas cederam perfis no Instagram, a gente viu gestos acontecendo aqui."

Segundo a editora, que também é uma das fundadoras da revista Quatro Cinco Um e sócia da livraria Megafauna, prevista para abrir no térreo do edifício Copan, em São Paulo, o evento "tem muito a ganhar" ao pôr uma mulher negra à frente da curadoria. "A razão do meu pedido de demissão é porque eu acho que essa pessoa precisa ocupar esse lugar."

Leia a íntegra da nota de Fernanda Diamant:

A Flip é um dos oásis culturais do Brasil. A festa, cada vez menos elitista em decorrência do aumento das chamadas casas parceiras, concentra discussão de ideias, apoio à leitura e aos livros, divulgação e revelação de autores, encontro entre pessoas, liberdade de expressão, celebração. Desde a curadoria de Josélia Aguiar, o programa principal também passou a ser mais diverso. Há ainda a biblioteca comunitária mantida pela Flip que funciona o ano todo na ilha das Cobras — uma das áreas mais vulneráveis da cidade de Paraty —, agora ameaçada por falta de recursos.

Em agosto de 2018, aceitei o convite para ser a curadora da Festa Literária Internacional de Paraty de 2019. Euclides da Cunha, o autor homenageado, foi uma escolha de comum acordo entre curadoria e direção artística. Dos cinco autores mais vendidos em Paraty em 2019, quatro são autores negros e um indígena — Grada Kilomba, Ayobami Adebayo, Kalaf Epalanga, Gael Faye e Ailton Krenak. Foi a primeira vez que isso aconteceu. A escritora Marilene Felinto acusou o racismo de Euclides em sua participação, questão que também foi bastante discutida no Ciclo do Autor Homenageado, uma parceria que a Flip faz com o Sesc CPF e que teve minha curadoria em parceria com a professora Walnice Nogueira Galvão.

A boa recepção da Flip com Euclides da Cunha fez com que o convite para a curadoria se repetisse em 2020. Minha principal exigência para seguir era que a homenageada fosse dessa vez uma mulher. Tendo isso em mente, optamos por homenagear Elizabeth Bishop, novamente uma escolha compartilhada entre curadoria e direção artística (era desejo antigo da Flip homenagear Bishop). A ousadia de decidir pela primeira vez por uma estrangeira me pareceu um bom desafio: num momento de fechamento de fronteiras e acirramento de nacionalismos, me parecia ser oportuno olharmos para fora como modo de olharmos também para dentro. E, ainda, seria uma forma de prestar homenagem também aos grandes tradutores de poesia no país. O Brasil tem uma tradição fortíssima de tradução, que é desconhecida de muitos. Além disso, a própria Bishop verteu poesia brasileira para o inglês, apresentando ao mundo anglófono escritores como Drummond e Clarice Lispector. O fato de a poeta ser homossexual também pesou — lembrando que o preconceito com a população LGBTQI+ vem num crescente no Brasil. Dentro de minha curadoria, pretendia ressaltar sua biografia multifacetada, trágica e queer.

Para além da homenagem, eu havia decidido que pelo menos metade dos convidados de 2020 seriam autoras e autores negros, o que também seria inédito. Eu já tinha a maior parte dos convites confirmados quando veio a Covid-19. Desde o princípio defendi que não se poderia definir prematuramente uma nova data para o evento. À minha revelia, a Flip foi postergada para novembro. A pandemia se agravou, a condução genocida que o governo federal fez da crise sanitária deixou tudo muito sombrio. Cada vez mais me parecia que a celebração desenhada previamente pertencia a uma outra época e tinha perdido sentido. Não havia nada a ser comemorado. Ainda não há. Era preciso repensar a curadoria e até mesmo o próprio evento virtual ou não à luz dos acontecimentos.

Ainda, em meio às denúncias crescentes do movimento negro brasileiro, veio o brutal assassinato de George Floyd nos Estados Unidos, no dia 25 de maio, e a poderosíssima reação impulsionada pelo movimento Black Lives Matter. Esses dias mais intensos de levante antirracista me fizeram entender que precisamos lutar mais ativamente, agir da forma mais contundente possível. Mais que uma programação com autoras e autores negros, a Flip agora precisa de uma curadora negra para reinventá-la nesse mundo pós pandemia. Uma mulher negra, na minha opinião, é a renovação que o evento mais importante da literatura do país precisa. Ao longo de 18 anos, a curadoria da Flip jamais foi ocupada por uma pessoa negra. Passou da hora disso mudar. Como curadora, entendo que é meu papel levar em conta questões artísticas e políticas (sendo que a arte, por sua vez, é sempre política). Por essa razão, decidi pedir demissão e declarar meu desejo de ceder esse espaço de privilégio de forma pública. A direção da Flip reagiu positivamente à minha ideia, o que me deixa esperançosa. Sou sinceramente grata à Flip por tudo que pude aprender e criar nesse trabalho, que é acima de tudo coletivo.

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