Descrição de chapéu The Wall Street Journal Cinema

Hollywood vê no blockbuster 'Tenet' antídoto ao estrago causado pela pandemia

Novo filme de Christopher Nolan, lançado em meio à Covid-19, tem padrão de estreias do tipo colcha de retalhos

John Jurgensen R.T. Watson
The Wall Street Journal

No novo thriller de Christopher Nolan, “Tenet”, o destino da humanidade depende de personagens que se deslocam no tempo. É uma exploração épica de ideias que o cineasta passou décadas estudando.

Mas, no momento em que estreia nos cinemas após vários adiamentos, ”Tenet” vem carregado de um simbolismo que seu roteirista e diretor não poderia haver previsto.

Como o primeiro filme de grande orçamento a estrear desde a chegada da Covid-19, “Tenet” representa uma das maiores apostas da história de Hollywood —com o estúdio lançando o filme em meio à pandemia, com redes de cinemas contando com ele para reanimar seus negócios e com pessoas que podem comprar ingressos, levando em conta preocupações de segurança.

Mesmo sendo um defensor do cinema visto na tela grande, Nolan está um pouco inquieto com o significado que está sendo atribuído a seu filme, um misto de espionagem e ficção científica. “Esta é a mudança mais radical da minha carreira, da minha vida, entre a criação de um filme e o mundo para o qual ele será exibido.”

Depois de estrear em 26 de agosto em partes da Europa, “Tenet” chegará aos Estados Unidos em 3 de setembro. Essa é a quarta data de lançamento do filme naquele país, mas ainda não está claro quando vai estrear onde os cinemas ainda não foram reabertos, como em Nova York e Los Angeles. No Brasil, deve ser lançado no próximo dia 24.

Nolan conta que quando os lockdowns começaram, em março, o primeiro desafio foi usar métodos remotos para dar os retoques finais a “Tenet”. Enquanto isso, todas as grandes produções tiveram suas estreias adiadas.

A Warner nunca considerou seriamente a possibilidade de uma estreia online para “Tenet”, apesar de outros estúdios terem enveredado por aí.

“Tenet” teve orçamento de US$ 200 milhões. Com valores desse tipo, não há outra alternativa senão um lançamento transicional, diz Nolan. “Não há caminho de rentabilidade para um filme como este que não passe pelas salas de cinema.”

O cineasta fez as pazes com a inevitabilidade dos spoilers, em vista de sua estreia escalonada. “Não é hora de sermos exigentes demais”, comentou. Além disso, a complexidade narrativa de “Tenet” é tanta que “não é o tipo de filme que possa ser estragado”.

O estúdio está apostando num padrão de estreias do tipo colcha de retalhos, começando com mercados que teriam contribuído com dois terços das bilheterias de filmes passados de Nolan. “Tenet” só vai enfrentar concorrência pesada em Hollywood quando “Mulher-Maravilha 1984” chegar, em outubro.

“Será um dos eventos mais importantes do ano no cinema, senão o mais importante”, comentou Mooky Greidinger, executivo-chefe da Cineworld PLC, a segunda maior rede exibidora do mundo. Além disso, está cobrando dos cinemas quase 65% das bilheterias para exibir o filme, quando a divisão habitual é de 50%.

“Se ‘Tenet’ não tivesse optado por esse padrão novo de lançamento, os cinemas só reabririam bem mais tarde ou no ano que vem”, afirma Richard Gelfond, CEO da Imax.

Nesse papel, a Warner e seu cineasta astro vêm sendo amplamente atacados, incluindo por críticos que os acusam de priorizar um filme caro e minimizar o risco aos frequentadores. A discussão se acirrou quando um vídeo online mostrou Tom Cruise, de máscara, indo se juntar ao público para assistir a “Tenet”.

Nolan apoiou o plano de lançamento do filme porque, disse, seu ritmo gradual foi pensado para favorecer “o conforto e a segurança, que precisam ser levados em conta”.

“A indústria do cinema envolve pessoas que vendem pipoca ou ingressos. É enorme, feita de pessoas comuns.”

No Music Box Theatre, em Chicago, “Tenet” foi entregue na semana passada por um caminhão em sete rolos de filme de 70 milímetros, tamanho jumbo. Nolan usa esse formato quase extinto, ao lado de filme Imax, para maximizar a fidelidade dos visuais e sua transferência para formatos digitais. O Music Box começa a exibir as pré-estreias de “Tenet” nesta segunda.

Devido às restrições de distanciamento social o Music Box não pode receber mais de 50 espectadores de cada vez em sua sala principal, com 750 lugares. E esses espectadores não serão agraciados com a serenata pré-sessão feita habitualmente pelo organista do cinema, porque o Music Box ainda não está em condições de pagar pelo trabalho dele.

Mesmo que Nolan seja um dos diretores mais rentáveis —seu filme mais lucrativo, “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, de 2012, rendeu US$ 1,1 bilhão globalmente—, “Tenet” não é um filme pipoca típico. Os críticos elogiam a execução do longa, mas relatam confusão em torno da trama.

Como seu nome, “Tenet” foi concebido como palíndromo. John David Washington faz um agente de nome não citado e que, junto de um parceiro vivido por Robert Pattinson, aprende a usar o tempo como via de mão dupla para impedir uma guerra apocalíptica.

Há cenas complexas de ação em que personagens, carros e projéteis avançam e recuam no mesmo espaço. As primeiras imagens do primeiro sucesso de Nolan, “Amnésia”, parecem pressagiar “Tenet”. A cena se desenrola ao inverso, com a imagem de um homem desaparecendo de uma foto em Polaroid e de um cartucho disparado entrando de novo numa pistola.

Nesse sentido, “a carreira de Nolan realmente parece ser cíclica”, comenta Tom Shone, autor do livro “The Nolan Variations”, previsto para sair em outubro. “Seus temas e obsessões sempre reaparecem.”

Ainda não há data marcada para a estreia do filme na cidade onde Nolan vive, Los Angeles, de modo que ele está tendo de abrir mão do ritual de ir a um cinema. Emma Thomas, produtora de “Tenet” e filmes passados de Nolan, seu marido, diz “essa é uma parte importante de completar o processo". "Nunca sentimos que um filme está pronto enquanto não está na tela.”

Tradução de Clara Allain

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