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Jia Zhangke retrata China através de confronto entre tradição e modernidade

Cineasta que fará pôster da 44ª Mostra Internacional de Cinema de SP quer pluralizar narrativas chinesas

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Cena do documentário 'Nadando Até o Mar Ficar Azul', de Jia Zhangke

Cena do documentário 'Nadando Até o Mar Ficar Azul', de Jia Zhangke Reprodução

Berlim

A China ainda era o epicentro mundial da Covid-19 quando o diretor Jia Zhangke apresentou em Berlim o documentário “Nadando Até o Mar Ficar Azul”, em fevereiro. Era inevitável que o chinês dedicasse parte de suas entrevistas a matar a curiosidade dos jornalistas sobre a situação no país.

“É uma oportunidade para repensar as coisas, sermos mais introspectivos. Não acho que eu vá abordar a pandemia propriamente dita em um filme, mas certamente essa introspecção, o reexame e a ideia de pensar em como certas coisas podem ser evitadas são temas que planejo abordar em um filme no futuro”, disse o diretor na época, apenas alguns dias antes do surto de coronavírus chegar à Itália —e, em seguida, se espalhar pelo mundo.

Enquanto ainda não se dedica a esse novo projeto, Jia já tem trabalho pela frente. Ele foi convidado pela 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo a criar a arte do cartaz oficial do evento. E “Nadando Até o Mar Ficar Azul” estará na programação —que, neste ano, deverá acontecer principalmente online, a partir de 22 de outubro.

O filme mostra uma revisita de Jia à região onde nasceu, a província de Shanxi, onde acontece anualmente um festival literário. O diretor conta com o depoimento de escritores de diferentes gerações, mas que, de uma forma ou de outra, fizeram um importante registro da história da China a partir da Revolução de 1949.

“Achei o evento uma boa oportunidade para captar melhor a criação desses artistas, porque acho que a experiência rural é algo que tem faltado nas principais narrativas e discursos feitos na China de hoje em dia. Experimentamos um processo de urbanização muito vertiginoso, e as novas gerações não fazem mais ideia de como era a vida nas cidades rurais, de detalhes sobre essa cultura”, diz o diretor.

Mais uma vez, o cineasta fala de um de seus temas favoritos –o confronto entre tradição e modernidade, em uma China industrializada e economicamente liberal, mas que ainda não se descolou por completo de um passado socialista de viés autoritário.

Chinês acena e sorri
Diretor chinês Jia Zhangke acena para fotógrafos durante a 66ª edição do Festival de Cannes, em Cannes, na França, em 17 de maior de 2013 - Alberto Pizzol/AFP

“É importante preservar e manter registros de memórias em sua totalidade, porque se não sabemos o que já houve no passado, não temos meios de pensar no que precisa ser mudado. Meu trabalho [como documentarista] é preservar essa memória, de modo que eventos trágicos não se repitam”, afirma o cineasta.

E nessa linha tênue entre que tipo de tradição em seu país deve ser mantido e qual deve ser abandonado, Jia tem um critério básico de julgamento –“conhecendo o que já aconteceu no passado, o importante é abandonar o que viola a dignidade humana e o que cerceia os direitos das pessoas”.

Jia costuma ser mais lembrado por seu trabalho ficcional —obras como “Em Busca da Vida”, de 2006, vencedora do Leão de Ouro no Festival de Veneza, e “Um Toque de Pecado”, de 2013, que ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes—, mas sente por vezes necessidade de voltar aos documentários.

“Gosto de ficção, mas também acho interessante usar o formato documental como veículo para captar o depoimento de quem de fato testemunhou um tempo”, diz o chinês.

“Na filmagem de ficções, geralmente se tem um script do qual não se pode afastar muito —há até algumas mudanças na hora de filmar, mas o essencial já estava no papel. No documentário, você tem sempre novas descobertas durante a filmagem, muitas coisas não planejadas acontecem, tudo é mais espontâneo. É um processo contínuo de desenvolvimento.”

Jia diz que, apesar de falar de alguns fatos muito próprios da história de seu país, seu longa tem um caráter universal.

“Mostro coisas muito específicas da experiência chinesa, mas também há ali várias coisas comuns à experiência humana de qualquer lugar. É um filme que, de certa forma, dedico às gerações mais jovens, como uma narração que traz de volta um passado. Mas também é um filme dedicado a essas pessoas que vivenciaram tudo aquilo —muitos dentre eles têm uma certa memória seletiva, bloqueiam algumas lembranças às vezes por trauma. Mas mesmo pessoas que têm uma vida completamente distinta também podem se identificar com vários aspectos presentes ali”, diz.

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