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Moda

Livro seduz ao destrinchar mítica de Costanza Pascolato

'Fio da Trama' é composto por relato com viradas de tempo e flashbacks similares aos de um roteiro de cinema

Fio da Trama

  • Preço R$ 65 (512 págs.)
  • Autor Alessandra Blocker e Consuelo Blocker
  • Editora Tordesilhas

Pascolato é desses sobrenomes que logo entregam, pelo menos a quem se interessa um pouco por moda, o nome à frente dele —Costanza.

Mas, por trás desta que é tida como a papisa da moda brasileira e ícone de elegância, há uma história de desafetos familiares, cicatrizes deixadas pela gênese do fascismo na Itália, de onde seus pais fugiram no auge da Segunda Guerra, e matizes do patriarcado do século 20 que definiram o carimbo feminino do clã.

Outras três mulheres, além de Costanza, tecem o “Fio da Trama”, livro composto por um extenso relato amarrado com viradas de tempo e flashbacks similares aos de um roteiro de cinema. Os diários de Gabriella Pallavicini, a matriarca morta há uma década, foram escavados pelas netas, Alessandra e Consuelo Blocker, fruto do relacionamento de Costanza com o banqueiro Robert Blocker.

Costanza Pascolato em jantar anual na Casa do Povo
Costanza Pascolato em jantar anual na Casa do Povo - Mathilde Missioneiro - 26.set.2019/Folhapress

Não se trata de uma massagem de ego típica de biografias da moda, porque em suas páginas se descortinam fatos como as armadilhas do discurso nacionalista de figuras como Benito Mussolini.

Gabriella expõe em seus diários as reuniões de jovens do recém-fundado Grupo de Universitários Fascistas, que frequentava, ainda que se dissesse não identificada com ele, porque era um ótimo lugar para encontrar “bons partidos”.

O resgaste histórico costurado pelas netas se entremeia aos relatos, apaixonados, das cartas trocadas com seu marido, Michele Pascolato. Membro do partido fascista, teria se desencantado com as escolhas de Mussolini e com os horrores que culminariam na fuga de Gabriella da Itália ao lado dos filhos e da babá, a pé, até a fronteira da Suíça. De lá, partiram até o destino que consagraria sua família.

Embora o Brasil não tivesse sido a primeira opção, o livro conta, os “argentinos foram mal educados” com a família e os amigos Matarazzo, em São Paulo, ajudaram na escolha do patriarca em viver no país, um lugar que produzia algodão de qualidade mas importava sua seda.

Do ponto de vista histórico, os fios dessa trama seduzem pelas minúcias —o cuidado em descrever o ambiente político e econômico mundial, o modus operandi das elites brasileiras e, no caso dessa família, a transformação da tecelagem Santaconstancia, por meio das conexões de Costanza e do irmão, Alessandro, numa das mais prestigiadas casas de tecido da América Latina.

Como documento de moda, joga luz, para além das relações da família com medalhões da costura, sobre a mítica em torno de Costanza. Disléxica, fora da caixa para os padrões da família e dona de um senso de independência, chegou a ser impedida de criar os filhos por decisão da família —ela largou o pai das autoras para viver com o marquês Giulio Cattaneo della Volta, morto em seus braços em 1990.

Nuances de sua personalidade são narradas em passagens como quando Consuelo pediu à mãe para a ver vestida de mãe, porque a então editora de moda estava inebriada com a desconstrução promovida pelos estilistas japoneses no vestuário.

“Qual mãe você quer? Ralph Lauren, Donna Karan?”, perguntou, lembrando que estilo tinha nome e sobrenome.

Os efeitos da modernidade nos costumes, as redes sociais e a palavra divórcio costuram relatos dos dias atuais, quase como contos privados.

Embora as palavras muitas vezes soem como antídotos para curar traumas e amenizar segredos de um passado duvidoso, o mérito do conjunto está na capacidade do livro em mostrar como mulheres, sozinhas, podem tecer o seu próprio futuro.

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