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Maratona

'Rede de Ódio' é eficiente ao descrever campanhas de desinformação

Fatos do filme poderiam ter acontecido em qualquer país que testemunhe manipulação de debate público nas redes sociais

Rede de Ódio

  • Onde Disponível na Netflix
  • Classificação 18 anos
  • Direção Jan Komasa

O lançamento do filme “Rede de Ódio”, do diretor polonês Jan Komasa, estava marcado para o início deste ano, mas precisou ser adiado quando se deram conta que o filme “previra” uma tragédia.

Três semanas após o fim das filmagens de “Rede de Ódio”, em 13 de janeiro deste ano, o prefeito de Gdansk, Pawel Adamowicz, foi esfaqueado enquanto estava num palco, na frente de centenas de pessoas, num evento filantrópico na Polônia. Adamowicz era um político progressista, grande defensor dos direitos LGBT. Por isso, era alvo de constantes ataques de extremistas nas redes sociais. O homem que o matou era muito ativo nas redes de ataque ao prefeito e tinha distúrbios mentais.

Em “Rede de Ódio”, um candidato a prefeito de Varsóvia, também chamado Pawel, faz uma campanha progressista, pedindo a união do país. Ele é atacado nas redes sociais por ser gay e acusado de querer islamizar a Polônia. Também na ficção, o enredo acaba em horror.

Esse não é o único enfoque assustadoramente real do filme polonês.

Por meio do protagonista Tomasz Giemza, interpretado pelo magnífico ator Maciej Musiałowski, a obra retrata a cada vez mais frequente —e fácil— manipulação da opinião pública e destruição de reputações com uso das redes sociais.

Giemza vem do interior, de família pobre, e consegue cursar a faculdade de direito graças à ajuda da família Krasucki. Ele simboliza as massas de órfãos da globalização, deixados para trás na divisão do bolo da prosperidade, abandonados e cheios de ressentimento. Os Krasucki personificam uma elite progressista condescendente e preconceituosa, com sua caridade seletiva e visão paternalista. Enquanto promovem leilões filantrópicos e defendem causas de esquerda, fazem troça da colônia e do cheiro de Giemza.

O estudante é flagrado plagiando, é expulso da faculdade e tem de se virar. Acaba em uma empresa que se dedica a campanhas de marketing digital e relações públicas. Na realidade, é uma fazenda de trolls e robôs que espalha notícias falsas e assassina reputações de políticos e celebridades.

Giemza é a tradução perfeita de um “hater” —não por acaso, o título do filme em polonês. Ele se dedica com afinco a campanhas de ódio, enquanto espiona e persegue a filha mais nova dos Krasucki, Gabi, por quem é obcecado.

Tudo isso se dá em meio à ascensão da extrema direita, muito semelhante à que ocorre na Polônia real. Parte da população é seduzida pelo discurso nacionalista, xenófobo e homofóbico. O candidato a prefeito de Varsóvia, Paweł Rudnicki, papel de Maciej Stuhr, é abraçado pelos progressistas como a tábua de salvação contra os extremistas e corporifica a visão cosmopolita da capital a respeito de direitos humanos.

(Em 12 de julho, o presidente da Polônia, o nacionalista Andrzej Duda, derrotou o prefeito de Varsóvia, Rafał Trzaskowski, moderado e defensor dos direitos das minorias, e se reelegeu.)

O filme brilha na descrição das táticas dos manipuladores das redes. A certa altura do longa, Giemza consegue acabar com a carreira de uma influenciadora digital de fitness ao espalhar milhares de memes falsos dizendo que o suco vendido por ela deixava as pessoas com as mãos amarelas. Depois, a empresa onde trabalha é contratada por um partido de direita para acabar com o candidato progressista à prefeitura da capital polonesa.

Usando inúmeros perfis falsos na internet, alguns contratados na Índia, Giemza convoca uma passeata a favor do candidato de esquerda, Pawel, inflamando progressistas pelo Facebook e outras redes. Ao mesmo tempo, cria uma passeata da extrema direita, conclamando nacionalistas a se manifestarem contra o “amante de muçulmanos” —e marca uma ao lado da outra. O resultado é que as duas passeatas, convocadas artificialmente por robôs e perfis falsos, acontecem e acirram a polarização.

Algo muito parecido já aconteceu na vida real. Logo após a eleição americana de 2016, perfis falsos no Facebook, administrados por russos, convocaram milhares de americanos a participar de uma passeata contra o recém-eleito Donald Trump em Nova York. O protesto foi criado por um movimento inventado pelos trolls, um certo “BlackMattersUS”, imitação do Black Lives Matter. “Junte-se a nós nas ruas! Vamos deter Trump e sua agenda racista”, dizia a página do evento.

Embora os russos tenham interferido na eleição e apoiado Trump, para eles era interessante manter o ambiente polarizado nos Estados Unidos. Cerca de 5.000 pessoas compareceram ao evento de 12 de novembro de 2016, criado pelo grupo falso no Facebook.

Mais para o final, o filme derrapa. De troll de internet, Giemza se transforma em arquiteto de assassinato em massa, um salto bem pouco crível. Ele orienta um nacionalista perturbado a cometer um atentado terrorista, usando para isso o chat de um videogame violento. Sobra sensacionalismo e sangue.

Mas o filme é muito eficiente ao descrever as campanhas de desinformação e o aspecto insidioso da ascensão dos supremacistas brancos na Polônia. Alguns dos fatos narrados na obra poderiam ter acontecido no Brasil, nas Filipinas, nos Estados Unidos, na Hungria ou em qualquer outro país que vem testemunhando o uso disseminado das redes sociais para manipular o debate público. Na verdade, já aconteceu em algum desses países —e muita gente nem percebeu.

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