Descrição de chapéu The New York Times

'Sempre fui profundamente fascinada pela música brasileira', diz Gloria Estefan

'Brazil305', o 14º álbum solo da artista, lançado na quinta-feira (13), tem participação de Carlinhos Brown

The New York Times

“Sempre fui profundamente fascinada pela música brasileira”, disse a cantora americana de origem cubana Gloria Estefan, em conversa via Zoom numa manhã recente, de sua casa na isolada Vero Beach, no estado americano da Flórida, onde está passando a quarentena em companhia de seu marido, Emilio. “Nós temos um cerne comum, as raízes profundas desses ritmos africanos.”

A conexão é a força propulsora de “Brazil305”, o 14º álbum solo de Estefan, lançado na semana passada e contém novas canções e reinterpretações radicais de alguns de seus maiores sucessos, todos arranjados por músicos brasileiros e gravados com eles. (“Conga” virou “Samba”, apropriadamente.)

Capa de 'Brazil305', novo álbum de Gloria Estefan
'Brazil305', novo álbum de Gloria Estefan - Reprodução

Em abril, inspirada por um grande amigo que por acaso é médico especialista em doenças infeciosas, ela lançou outro tipo de reinterpretação –um vídeo musical intitulado “Put on a Mask”, que toma por base seu hit “Get on Your Feet!”. Foi uma desculpa para enfim brincar com uma tela verde para gravação de vídeos com efeitos especiais que ela comprou dois anos atrás mas ainda não tinha posto em uso.

“O humor me ajudou a passar pelos momentos mais difíceis de minha vida”, ela disse. Numa conversa animada que serviu para demonstrar seu alcance intelectual eclético (filosofia grega, pop britânico do começo da década de 1960, programas de TV grudentos), ela falou sobre dez necessidades culturais que a mantiveram inspirada e motivada.

Passagem de ida e volta a Cuba pela Pan Am

Eu tinha dois anos de idade quando viemos de Cuba [para Miami, em 1959]. Aquela passagem da Pan Am representava uma grande esperança de retorno e, enquanto isso não acontecia, para meus pais era importante manter a cultura cubana viva entre nós. Por isso eles me regaram e me plantaram em solo cubano, com sol, nossa comida e nossa música. Imaginar que retornaríamos era importante e se tornou ainda mais importante quando se tornou claro que talvez isso não acontecesse.

Gerry and the Pacemakers, 'Ferry Across the Mersey'

Antes dos Beatles, havia Gerry e os Pacemakers. Eu tinha seis anos, minha irmã tinha acabado de nascer, e nós tínhamos nos mudado para o Texas. Meu pai estava estacionado lá, como parte do exército dos Estados Unidos. A gente estava no carro com minha mãe, indo para a lavanderia, e essa canção tocou no rádio. Fiquei arrepiada. Não queria sair do carro. Pedi para minha mãe me deixar ficar lá escutando até o fim. E até hoje, quando ouço a música, sinto o cheiro da lavanderia.

Agora percebo que a canção na verdade era um bolero, o que provavelmente é o motivo para que tenha me afetado. A música de minha primeira infância, a música de minha mãe, era música cubana. E, mais tarde, quando comecei a exercitar a curiosidade, descobri que os britânicos curtiam música latina. Emilio e eu compramos o microfone com o qual os Beatles gravaram sua primeira demo para a gravadora EMI, e a canção que eles gravaram foi “Bésame Mucho”. Havia essa conexão. Os Beatles estavam experimentando aquele som de bolero.

Teatro ao vivo

Lembro a primeira vez que fui ao teatro, quando tinha 17 anos, e eu não contei à minha mãe que tinha comprado um ingresso para “Equus”, no Coconut Grove Playhouse, em Miami. Foi não só minha primeira experiência de teatro, mas minha primeira experiência de ver um homem nu! Foi revelador.

Mas me lembro de estar sentada no teatro e de achar o máximo a experiência de ouvir músicos ao vivo e de ver pessoas atuando. Quando me casei com Emilio, no minuto em que conseguimos juntar dinheiro para ir a Nova York, eu disse que queria ver os musicais. E meus filhos, logo que aprenderam a parar quietos na cadeira, eu os levava ao teatro, e eles adoravam. Sei o quanto os [profissionais de teatro] se sacrificam, algo que descobri com muita clareza quando começamos a montar nossos espetáculos [o musical “On Your Feet!”, com seus grandes sucessos, estreou na Broadway em 2015]. O que está acontecendo agora acaba comigo. Sofro por eles. Seria um crime para nós perder o teatro ao vivo.

Psicologia jungiana

Estudei psicologia, uma das coisas em que me graduei. No começo eu era freudiana, mas agora sou totalmente jungiana. A crença central de Jung é o inconsciente coletivo, e isso se enquadra bem na mecânica quântica e em todas as ciências.

Eu queria ser psiquiatra —fui aceita pela escola de psicologia clínica da Universidade de Miami. Àquela altura eu já conhecia Emilio e já estava cantando na banda [Miami Sound Machine], por diversão. Também tinha sido aceita pela Sorbonne, na França. Mas a banda deu certo, eu me apaixonei pelo meu marido e minha vida virou. Dizer a uma mãe imigrante que você vai ser cantora não está no alto da lista de prioridades! A pessoa sempre precisa ter um emprego. Mas a mente humana e como nos comunicamos é fascinante para mim. Mesmo a forma pela qual componho —faço músicas pensando no impacto que vão ter sobre o ouvinte, porque sei que a música me ajudou a passar por alguns dos momentos mais difíceis de minha vida.

'Breaking Bad'

Adoro TV, e há tantos programas de TV excelentes em produção! Eu adoro assistir temporadas inteiras de séries. Quando assisti a “Breaking Bad” pela primeira vez, o que me atraiu foi o elemento psicológico. Você pode ver de verdade como o ego transforma uma pessoa, lentamente.

Textos filosóficos

Também estudei filosofia e tento ler alguma coisa todos os dias. “O Kybalion”, que é sobre a filosofia hermética grega, é um livro que realmente me atrai. Dizem que o livro o encontra quando você precisa dele. Também “Seth Speaks” e “Muitas Vidas, Muitos Mestres”, de Brian Weiss, que alguém me mandou depois de meu acidente [em 1990, Estefan sofreu lesões graves na espinha por conta de um acidente em seu ônibus de turnê]. É como um reconhecimento, aquela sensação de ler alguma coisa e perceber que “calma lá, eu já acredito nisso; não sei por que acredito, mas acredito”. Fui educada em uma escola católica para meninas, mas não sou dogmática. Dogmas me incomodam, são criações humanas e eu não gosto deles. Mas sou muito espiritual. Sempre que vejo livros sobre formas diferentes de pensar, gosto de aprender e explorar esse tipo de coisa.

Nochebuena

Nochebuena é a véspera do Natal. Essa celebração provavelmente é a maior do ano, para os cubanos. Você sempre passa a ocasião com a família e ela sempre envolve muita comida, usualmente acompanhada por música e dança. As pessoas simplesmente saem dançando —ninguém precisa de uma pista de dança ou de uma banda. Já dancei com meus cachorros na cozinha. Este ano, mesmo que tenhamos de ir todos de máscara, vamos comemorar a Nochebuena. No quintal, a dois metros de distância uns dos outros. Mas temos de celebrar.

PBS

A [rede de TV e rádio pública americana] PBS é uma importante adição ao nosso mundo. Lembro de assistir a “Vila Sésamo” e de que depois meu filho literalmente aprendeu a ler com “Vila Sésamo”. Eu não gostava que ele assistisse a TV a não ser esse tipo de coisa, mas o colocava no seu cercadinho e deixava o programa ligado, porque sabia que era bom. Nós andávamos de carro pela rua e, quando ele via uma placa de pare, dizia “pare!”, ou “dê preferência”. Rita Moreno estava no elenco, o que era ótimo, porque ele podia ver alguém culturalmente semelhante a ele.

As reuniões semanais da 'Dirty Dozen'

Conheço quatro dessas meninas desde que tinha dez anos, e as demais desde os 14, porque todas fizemos o segundo grau juntas. As amizades se tornam cada vez mais importantes para as mulheres, à medida que a vida avança, e é realmente bom nutrir essas relações e se manter próxima das pessoas que você conhece desde criança. Todas nascemos em Cuba e viemos para cá muito pequenas, coincidentemente. Por acaso estudamos nas mesmas escolas e nos conhecemos e terminamos por nos tornar parte das vidas umas das outras.

Na terceira quinta-feira de cada mês, quem pode participar vai aos encontros. Era assim; agora conversamos pelo Zoom toda semana. Nós comemos, tomamos vinho e rezamos. Transferimos as orações para o começo, porque percebemos que, quanto mais comíamos e bebíamos, mais curtas ficavam as orações, no final.

Tradução de Paulo Migliacci

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