SP-Arte termina primeira edição virtual com vendas, mas por fora da plataforma

Galerias dizem ter fechado maioria dos negócios em paralelo ao site, pondo em xeque cobrança de taxa sobre transações

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São Paulo

Ainda que com um volume de vendas bem menor do que o de anos anteriores, a primeira edição virtual da feira SP-Arte termina atendendo às expectativas do setor, mas pode mesmo assim sinalizar uma crise do evento. Segundo relatos de galeristas, a maioria das transações não foi fechada por meio da plataforma da feira —o que acende dúvidas em relação à comissão de 2,5% cobrada pela organização sobre parte das transações.

Na galeria Fortes d’Aloia & Gabriel, por exemplo, as vendas realizadas no site do evento representaram só 15% do volume total. Na Simões de Assis, essa fração foi de 20%.

Os marchands afirmam que a prática de negociar obras em paralelo é comum também nas feiras presenciais. Mas, argumentam, ela pode ter sido alavancada pela pandemia.

Isso porque a maioria das casas paulistanas manteve, com hora marcada, o funcionamento dos seus espaços físicos ao longo da semana da SP-Arte. Dessa forma, potenciais clientes podiam visitar as obras de seu interesse, estivessem elas expostas online ou não.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com o estreante Projeto Vênus, de Ricardo Sardenberg. O espaço no bairro de Santa Cecília mal tinha aberto as portas quando o coronavírus chegou ao país. Com a feira, enfim passou a receber visitas, que ajudaram a fechar a maioria dos negócios —das cerca de cinco obras que Sardenberg vendeu, só uma foi por meio da plataforma.

Mesmo galerias de outras cidades afirmam ter iniciado conversas que, ocasionadas pela feira, acabaram levando a outros rumos.

Thais Darzé, da Paulo Darzé, em Salvador, conta que recebeu muitas mensagens de colecionadores interessados em determinado artista, mas não exatamente nos trabalhos dele em exibição. “O digital é um canal, mas ele não se conclui sozinho”, ela diz.

Na prática, isso significa que uma das fontes de lucro previstas pela SP-Arte, uma comissão de 2,5% sobre as transações de obras acima dos R$ 25 mil cadastradas pelas galerias que decidiram participar com os pacotes mais completos, de R$ 6.000 e R$ 9.000, pode ser prejudicada.

A taxa virou alvo de críticas do setor antes mesmo de a edição virtual ser anunciada, já que ela não tinha sido cobrada em edições anteriores da feira e, segundo alguns membros do setor, poderia incitar uma falta de transparência na prestação de contas por parte das galerias. Procurada, a SP-Arte não quis esclarecer como essa cobrança funciona.

Mesmo com essas negociações em paralelo, as casas relatam ter tido um desempenho bem inferior em relação às outras edições da SP-Arte —o evento é descrito como o pico dos negócios do ano. Desta vez, elas contam ter vendido em média cinco peças cada uma.

Já o perfil dos trabalhos comercializados não mudou tanto. Segundo as galerias, a maior parte das obras foi vendida a colecionadores já conhecidos, por preços médios. Trabalhos de valores muito altos, que tradicionalmente funcionam pior no online, não tiveram muita procura.

De todo modo, as conversas ainda devem continuar pelas próximas semanas. Até porque a isenção de impostos que as galerias paulistanas costumavam receber do governo estadual na semana da SP-Arte, grande motor de vendas no período, a princípio não valerá para esta edição.

E, enquanto os elogios ao site da feira foram frequentes, alguns marchands se disseram decepcionados com a parca quantidade de colecionadores estrangeiros a entrar em contato. Frequentes em edições anteriores, eles tinham sido anunciados como uma das vantagens de se fazer um evento 100% online, acessível de qualquer lugar do planeta.

As galerias parecem encerrar, dessa forma, a primeira edição virtual da SP-Arte com uma conclusão paradoxal –o presencial vende. “Tive muitos contatos, fechei negócios. Mas todos queriam ver a obra pessoalmente”, diz Berenice Arvani, da galeria de mesmo nome.

“É diferente de você comprar uma roupa. O pessoal quer sentir, namorar os trabalhos. Só o digital não vai funcionar, não.”

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