Artistas assinam carta-manifesto em apoio a Paulo Mendes da Rocha

Iniciativa surge após arquiteto anunciar que doará seu acervo para a instituição privada Casa da Arquitectura, em Portugal

São Paulo

​Uma carta-manifesto de apoio ao arquiteto Paulo Mendes Rocha foi publicada na noite desta segunda-feira (14).

O texto tem assinaturas de nomes como a curadora de arte Aracy Amaral, a artista plástica Carmela Gross, o fotógrafo Bob Wolfenson e o diretor do Sesc paulista, Danilo Santos de Miranda.

O manifesto também é assinado por arquitetos internacionais, como o chileno Alejandro Aravena e o português Eduardo Souto de Moura, vencedores do Pritzker —principal prêmio da arquitetura no mundo.

A carta surge após a notícia anunciada na semana passada de que Mendes da Rocha doará seu acervo para a instituição privada Casa da Arquitectura, em Matosinhos, na região metropolitana do Porto, em Portugal. A iniciativa é de um grupo de arquitetos formado por Alvaro Puntoni, Angelo Bucci, Antonio Carlos Barossi, Carlos Alberto Maciel e Milton Braga.

O arquiteto, que venceu o Pritzker em 2006 é considerado um dos maiores nomes da arquitetura no Brasil e causou polêmica com a decisão, sendo criticado por alguns pesquisadores da área, que acusam Mendes da Rocha de estar dificultando o acesso brasileiro a seu material.

Após as críticas, Rocha disse à Folha que Portugal não "está fora do Brasil" e que atualmente "tudo é computadorizado".

Segundo o grupo responsável pela carta-manifesto, a doação de Paulo Mendes da Rocha se trata de "um acervo totalmente digitalizado e disponibilizado gratuitamente a pesquisadores de qualquer parte do mundo".

"É a esse cenário abrangente e generoso para a pesquisa que nos conduz a decisão pessoal de Paulo Mendes da Rocha para o destino do acervo do seu escritório de arquitetura. Ele esboçou esse caminho para confiar a guarda da sua produção autoral de modo coerente com os critérios de beleza pelos quais ele vem desenhando os seus projetos", completou o grupo.


Confira a carta na íntegra:

Um abraço no Paulo

O arquiteto e professor Paulo Mendes da Rocha nos convida a refletir se em uma pirâmide “é a pedra ou a ideia que estão lá há mais de 5.000 anos". "São as pedras ou as ideias que duram mais?”

Sua decisão pessoal de doar o acervo de documentos para a Casa da Arquitectura em Portugal que garantirá sua preservação e acesso público e gratuito aos documentos, nos indica este caminho: em nosso mundo integrado e de comunicação instantânea o que deve ser reconhecido e preservado são as ideias e deverá ser o conjunto do conhecimento que nos conduzirá ao futuro.

Para além do respeito à liberdade para escolher o destino de seu acervo pessoal, entendemos que é fundamental e urgente, nesse momento, rememorar a sua rara trajetória de exemplo, resistência e humanidade na vida profissional, na docência e nas suas posições políticas.

Muito antes de o tema da colonização ser posto no centro das discussões, como tão pertinentemente tem sido nesses tempos, Paulo já se manifestava quanto aos problemas advindos da sua persistência entre nós.

Muito antes de a crítica internacional contemporânea investigar a urbanização e a desfuncionalização dos edifícios, Paulo já se inseria em uma tradição democratizadora da arquitetura brasileira de construir os “espaços significativos sem nome”, como definiu Flávio Motta.

Muito antes desses tempos duros que hoje vivemos, Paulo viveu a cassação, junto a Artigas, Maitrejean e tantos outros, viu interrompida sua presença na FAU-USP e soube a ela retornar e ressignificar sua atuação docente e a própria escola nos anos de reconstrução democrática.

Chega esse momento em que decide lançar suas ideias ao mundo, com o mesmo vigor e a mesma imaginação generosa e democrática de sempre. Para ampliar o mundo de todos, em todos os lugares do mundo. É um gesto grande, que não diminui a importância de todas as instituições brasileiras, que tanto vêm sofrendo em um momento triste de desmonte cultural no Brasil.

O esforço para salvaguardar sua obra pode ser entendido como parte da resistência contra esse desmonte. Por tudo isso, manifestamos nossa confiança no acerto da sua decisão por tudo o que ele já decidiu certo na vida e que o depósito do seu acervo na Casa de Arquitectura é uma ação civilizadora, que supera questões históricas, estreitando de forma desejável as relações supranacionais (e do universo luso-brasileiro), como projeto de um mundo melhor e mais justo para todos.

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