Banda Deafbrick, que tem Iggor Cavalera, estreia com tambores em faixas sujas

Grupo que lança primeiro disco é soma do trio de punk paulistano Deafkids com o duo de eletrônica Petbrick

São Paulo

Os tambores hipnóticos que abrem o primeiro disco do Deafbrick parecem menos uma música com início, meio e fim e mais uma introdução à faixa seguinte, “Força Bruta”. Esta é um misto de sintetizadores e guitarras executados em velocidade tão rápida que o ouvinte fica tonto, sem tempo de absorver a agressividade do som. A música tem um ar meio retrô, lembrando o grupo industrial Ministry, que fez sucesso nos anos 1990.

Mas as faixas seguintes do álbum de estreia da banda —formada pela junção do trio paulistano de punk psicodélico Deafkids com o duo britânico de eletrônica Petbrick, que tem o baterista Iggor Cavalera na formação— jogam o ouvinte em outros territórios. “The Menace of the Polar Night” parece a trilha de um filme de Glauber Rocha, com seu vocal cheio de eco repetido à exaustão. “O Antropoceno” lembra as experimentações com percussão do Sepultura, antiga banda de Cavalera.

A banda Deafbrick em estúdio, em Londres
A banda Deafbrick em estúdio, em Londres - Felipe Pagani

Com o mesmo nome da banda, o disco foi concebido e gravado em só dois dias e meio, em Londres, no estúdio do produtor Wayne Adams, a outra metade do Petbrick —dupla eletrônica à qual Cavalera se dedica em paralelo ao grupo de thrash metal Cavalera Conspiracy, com seu irmão Max. Cavalera conta que a sonoridade maníaca do Deafbrick é em grande parte devido à mão de Adams, que fez carreira no Reino Unido produzindo tanto artistas de música eletrônica não dançante quanto de rock pesado.

“Ele picota qualquer coisa em questão de segundos, faz aquilo ali virar uma loucura sônica. Isso vem de vários anos, de fazer isso lá atrás, quando não existia Ableton Live [software de produção musical], esses plugins. Ele fazia tudo na mão. Ele consegue tirar um puta som de guitarra pesada, um som orgânico de bateria, como também entende para caramba da parte de música eletrônica, não é um cara que começou ontem no laptop", afirma o baterista.

O disco capta o “estado febril” dos músicos em estúdio, diz Mariano de Melo, do Deafkids, banda sensação do underground paulistano com carreira consistente no exterior. A empolgação começou no ano passado, quando o grupo se apresentou com o Petbrick no festival holandês Roadburn. No show, eles tocaram versões turbinadas das músicas de ambos os grupos. A sinergia ao vivo funcionou tão bem, relata, que os grupos resolveram formar uma nova banda e gravar um álbum com material original.

“Deafbrick” alterna faixas de identidade profundamente brasileira com outras de hardcore eletrônico. Há tambores que remetem a ritmos africanos e uma certa sujeira sonora, que põe o grupo ao lado de outros nomes de hoje que tentam expandir as fronteiras do metal, a exemplo dos americanos do Uniform. A overdose de elementos em cada faixa demanda atenção do ouvinte, mas a produção limpa torna possível perceber cada detalhe.

Os 40 minutos do álbum têm clima de fim do mundo, num descontentamento que se manifesta na sonoridade e nos títulos das faixas, como em "Free Speech for the Dumb", ou liberdade de expressão para os idiotas, um cover do grupo punk Discharge. O protesto se realiza mais na forma do que no conteúdo —não espere letras panfletárias.

"Deafbrick" é um trabalho "politicamente motivado, mas não politicamente explícito", afirma Melo, acrescentando que, mesmo antes da paralisação geral da vida causada pela pandemia, já havia muitas situações para serem postas para fora.

O baterista exemplifica lembrando o mal-estar psíquico causado pela depressão, além de um estado de tanto faz, de acordar e fazer as coisas se sentindo desconectado do próprio corpo, sentimento que a pandemia acentuou, segundo ele. “Você para de sentir um calor, um ímpeto de fazer as coisas."

A sensorialidade das músicas da banda, conclui, “permite que a gente consiga retomar um contato com o próprio corpo, essa coisa febril e de movimento”.

Deafbrick

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