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Biografia revela Churchill chorão e passa pano para preconceitos do premiê

Livro colossal de Andrew Roberts deixa clara a opção de traçar um retrato simpático e humano do político

Churchill: Caminhando com o Destino

  • Preço R$ 129,90 (1.200 págs.); R$ 49,90 (ebook)
  • Autor Andrew Roberts
  • Editora Companhia das Letras
  • Tradução Denise Bottmann e Pedro Maia Soares

Em documentários ou obras de ficção sobre a Segunda Guerra Mundial, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill quase sempre é figura de destaque, mas o curioso é que, apesar da profusão desses relatos, não se vê entre eles um traço fundamental do comportamento do político –ele era tremendamente chorão.

Churchill derramou lágrimas abundantes no casamento do filho mais velho, ao ser ovacionado por populares britânicos após os ataques aéreos nazistas que vitimaram dezenas de milhares de civis, ao firmar a aliança de seu país com os Estados Unidos, ao ditar um discurso sobre o fim da guerra e durante toda a sua visita à França recém-libertada da ocupação alemã pelos Aliados.

Homens seguram armas
Primeiro-ministro britânico Winston Churchill ao lado dos generais americanos Dwight Eisenhower e Omar Bradleyna Inglaterra em abril de 1944 - AFP

“Nunca se furtou a chorar em público, mesmo como primeiro-ministro, numa época que admirava o autocontrole”, escreve Andrew Roberts, biógrafo do premiê, em seu monumental livro “Churchill: Caminhando com o Destino”, que acaba de chegar ao Brasil.

É claro que só esse tipo de detalhe íntimo não seria suficiente para preencher as mais de mil páginas da biografia. Não faltam ao livro os meandros das estratégias militares de Churchill, as reviravoltas políticas em que se meteu ao longo de seis décadas de carreira parlamentar e duas passagens pelo cargo de primeiro-ministro.

Mas as dezenas de menções ao pranto triste ou jubiloso do líder, assim como relatos sobre seus trocadilhos e suas piadas, sua capacidade impressionante de ingerir álcool sem ficar (propriamente) embriagado e seu costume de ditar mensagens de Estado na banheira ou na cama, deixam clara a opção do escritor –traçar um retrato essencialmente simpático e “humano” de Churchill.

Uma abordagem como essa tem, obviamente, seus prós e contras.

De um lado, seria injusto dizer que Roberts, historiador formado pela Universidade de Cambridge, joga para debaixo do tapete os muitos erros da trajetória de Churchill ou os posicionamentos que, do ponto de vista do século 21, parecem profundamente equivocados ou preconceituosos –o apego emocional à grandeza do Império Britânico, a crença na “missão civilizatória” e superioridade cultural dos europeus.

Em nenhum momento essas facetas do gigante da Segunda Guerra Mundial são apagadas ou recebem pouco peso.

Por outro lado, fica no ar, por vezes, a sensação de que Roberts está “passando pano” para Churchill, para usar uma expressão a gosto do moderno tribunal das redes sociais. Ou seja, transparece a impressão de que o autor frequentemente está em busca de uma desculpa —em geral, os “preconceitos naturais” da época e da classe social, as necessidades políticas imperiais— para não atribuir à pessoa de Churchill seus piores erros.

Feitas essas ressalvas, no entanto, é preciso reconhecer os méritos do livro por sua capacidade de apresentar um retrato condignamente colossal de um colosso e mostrar como ele se confunde com as forças que moldaram as catástrofes do século 20.

O plural aqui é importante. Embora Churchill seja uma das figuras centrais da Segunda Guerra, nunca se pode negligenciar a importância de sua participação na Primeira Guerra Mundial, quando foi primeiro lorde do Almirantado, uma espécie de ministro da Marinha.

Homens sentados na frente de soldados
Da esq. para a dir.: o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt e o marechal e líder soviético Joseph Stalin, no Palácio de Yalta, na Conferência de Ialta, em 1945 - Divulgação

A ironia é que, no primeiro conflito, o desastre das campanhas conduzidas por ele, em especial a de Galípoli, na Turquia, teve o duplo papel de endurecer Churchill contra obstáculos aparentemente insuperáveis e de o transformar, durante décadas, numa figura aparentemente folclórica da política britânica, cheio de grandes ideias e retórica arrebatadora, mas não muito confiável.

Esse rótulo acabou fazendo com que muitos não ouvissem os insistentes alertas de Churchill contra os perigos da Alemanha nazista ao longo dos anos 1930, antes que fosse quase tarde demais.

Mas foi essa mesma clareza de propósito, determinação férrea e crença na capacidade de galvanizar uma nação por meio da palavra, por meio do poder da língua inglesa, que ele dominava como poucos de seus contemporâneos as habilidades responsáveis pelo sucesso do primeiro-ministro em manter a independência e a democracia em seu país e boa parte da Europa.

O mundo aristocrático e imperial que forjou Churchill deixou de existir há muito tempo e, em muitos aspectos, é ótimo que tenha desaparecido. Mas isso não deveria impedir os cidadãos do mundo atual de reconhecer a grandeza de uma figura para quem as palavras, e o significado delas, faziam a diferença.

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