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Chris Rock usou Trump para arrancar riso de plateia distanciada na pandemia

Em uma entrevista franca, humorista discute o verão de confrontos nos Estados Unidos, blackface e seu papel em 'Fargo'

Homem sorri deitado em grama

Chris Rock em sua casa em Nova Jersey, nos Estados Unidos, em 8 de setembro de 2020 Dana Scruggs/The New York Times

Dave Itzkoff
The New York Times

Chris Rock não sabia se estava ou não se escondendo.

Na sexta-feira anterior ao Dia do Trabalho, a primeira segunda-feira de setembro, nos Estados Unidos, ele conversou comigo ao telefone, de Yellow Springs, no estado americano de Ohio, a aldeia rústica para onde viajou a fim de passar algum tempo com o amigo e também humorista Dave Chappelle.

Rock já havia visitado o lugar em julho para se apresentar diante de pequenas plateias com distanciamento social, como parte de uma série de especiais de comédia que Chappelle vinha organizando.

Mas Rock não foi capaz de determinar se sua segunda visita deveria ou não ser clandestina. “Não sei se é segredo”, ele comentou, discretamente. “Talvez seja, por aqui.” Rock também teve dificuldades para descrever o que vinha fazendo logo antes da viagem. “Bem, se preciso rotular, posso dizer que estava atuando”, ele afirmou. E, depois de uma pausa curta, acrescentou num tom mais confiante e no volume que nos acostumamos a associar a ele –“em uma pandemia”.

Em agosto, Rock viajou a Chicago para concluir as filmagens de “Fargo”, do canal FX, uma série sobre crime cuja quarta temporada estreou em 27 de setembro. O criador da série, Noah Hawley, o escolheu para estrelar a mais recente narrativa da série, uma história que se passa no submundo do crime de Kansas City, no estado americano de Missouri, na década de 1950, e escala Rock —humorista infatigável e ator de comédias— para o papel de Loy Cannon, um bem-vestido líder do crime organizado.

Talvez num mundo diferente, onde a nova temporada de “Fargo” teria estreado em abril, como planejado, o novo papel de Rock, de 55 anos, servisse para conferir uma nova trajetória à sua carreira, abrindo as portas a papéis mais substanciais e silenciando os fãs que continuam a brincar com ele pedindo “só uma costela”, uma referência ao seu papel no filme “I'm Gonna Git You Sucka”, de 1984. Pode ser que isso ainda aconteça, mesmo nas condições que temos agora.

Mas, quando a pandemia do novo coronavírus estourou, a produção de “Fargo” foi suspensa, em março, e Rock e seus colegas de elenco (entre os quais Jason Schwartzman, Ben Whishaw, Jessie Buckley e Andrew Bird) foram mandados para casa.

Depois, há algumas semanas recentes, Rock foi chamado de volta ao estúdio, e primeiro passou por uma semana de quarentena para depois poder completar seu trabalho como ator, seguindo novos protocolos e sofrendo considerável estresse.

Outros projetos importantes em que ele estava envolvido foram adiados —Rock fez um dos papéis principais em “Spiral”, uma refilmagem da série de horror “Saw”, cujo lançamento foi adiado por um ano, para maio de 2021. Mas Rock não está lamentando a postergação de qualquer gratificação profissional, depois de passar o segundo e terceiro trimestres realinhando seus valores à nova realidade da vida pandêmica.

“Eu posso ter reclamado por um dia ou dois”, disse, fazendo uma careta amuada. “Mas, honestamente, o mais importante era garantir que minha família estava segura e ficar perto de minhas filhas.”

Durante o período, Rock também ouviu um número imenso de americanos ecoando a lição que ele ofereceu nos primeiros minutos de seu especial “Tamborine”, de 2018, ao falar com humor mas enfaticamente sobre os constantes incidentes de violência policial contra pessoas negras.

Como ele disse no especial, o trabalho policial é uma das profissões nas quais não se pode permitir “umas poucas maçãs podres”. Rock disse que “a American Airlines não pode dizer que, cara, a maioria dos nossos pilotos gosta de aterrissar". "Temos só algumas maçãs podres que preferem colidir com uma montanha.”

Quando conversamos, Rock estava incerto quanto ao poder de seu humor para fazer mais do que entreter e também inseguro sobre quando poderia voltar a se apresentar diante de grandes audiências.

E ele com certeza parecia cauteloso com relação a esta entrevista, explicando com uma risadinha que ao falar para a mídia impressa, “você precisa se conformar com ser entediante". "Se você não se conformar com ser entediante às vezes, vai terminar arranjando encrenca.”

Não que Rock tenha de fato sido entediante em algum momento da longa conversa, que abarcou “Fargo” e sua carreira mais ampla; suas observações mais recentes sobre um país que está tentando enfrentar simultaneamente uma pandemia e uma busca renovada por igualdade racial; o reaparecimento de um velho vídeo no qual Jimmy Fallon o imita com uso de blackface; e, é claro, o presidente Trump. (“Ninguém tem menos compaixão por outros seres humanos que um senhorio”, disse ele.)

Mesmo sem plateia, Rock foi franco, animado, demonstrou agilidade mental incomum e parecia estar sempre em busca do riso. Que a encrenca comece.

*

Houve um momento em que você imaginou que essa temporada de 'Fargo' não seria completada e que a série poderia passar muito tempo fora das telas, talvez até para sempre? Aconteceram algumas coisas estranhas na minha carreira. Por exemplo, eu deveria ter feito um filme com Bob Altman, “Hands on a Hard Body”. Nós conversamos bastante ao telefone, discutindo meu personagem. Eu estava muito entusiasmado. E aí ele morreu.

Eu também deveria ter feito Jimmy Olsen em “Super-Homem”, com Nicolas Cage [produção cancelada no final dos anos de 1990]. Lembro ter ido ao estúdio da Warner, ter feito uma prova de figurino e papear com Tim [Burton], um dos meus ídolos.

Tipo, lá estava eu com o cara que dirigiu “As Grandes Aventuras de Pee-Wee”, e ele me mostrando os cenários de "Super-Homem"! Por isso, eu certamente sabia que havia uma possibilidade de que a série não fosse ao ar. Felizmente para todos os envolvidos, não foi o que aconteceu.

Como Noah Hawley o procurou com a ideia de fazer 'Fargo'? Foi um dia estranho, porque foi o dia das indicações para o Emmy, e eu não fui indicado pelo meu último especial [“Tamborine”]. Não vou dizer que estivesse decepcionado, mas fiquei um pouco desapontado, mas aí recebi um telefonema do meu agente dizendo que Noah Hawley queria conversar comigo.

Recebo ofertas para trabalho como ator, mas o que mais recebo são ofertas para apresentar alguma coisa. Não é raro que alguém queira me contratar para apresentar um casamento ou bar mitzvá caro —alguns anos atrás, oficializei o casamento de Daniel Ek, o dono do Spotify. E a banda do casamento era a de Bruno Mars.

Fui colocado ao lado de Mark Zuckerberg na recepção. Presumi que Noah [Hawley] tivesse alguma proposta maluca como essas. O único motivo para aceitar o convite para a reunião foi que eu amo “Fargo”. E aí, quando cheguei lá, ele me ofereceu um papel.

Como ele lhe explicou o personagem Loy Cannon? Ele disse “um gângster dos anos de 1950”, e por isso eu sabia do que ele estava falando. Meu pai nasceu em 1933. Não é como se fosse “12 Anos de Escravidão”. O papel era literalmente o de um cara da idade do meu avô.

No primeiro episódio vemos Loy propor a ideia do cartão de crédito para um executivo branco de um banco que parece muito desinteressado. Podemos dizer que Loy gostaria de fazer parte da sociedade convencional, mas que ela o rejeita? Olha, eu me lembro de quando tinha um contrato de produção com a HBO e levei uma pessoa lá para vender a ideia de um talk show. Eles recusaram. A pessoa era [a hoje apresentadora de TV] Wendy Williams. Lá se vão US$ 100 milhões que nunca ganhei.

Tentei vender Leslie Jones para produtores, agentes, empresários por anos, antes de ela ser contratada para “Saturday Night Live”. Ou seja, sei muito bem o que é vender uma ideia óbvia mas que as pessoas não compreendem.

Loy é diferente de outros personagens que você interpretou no passado por ser mais velho e por não sabermos por quanto tempo mais manterá o trono? Sim, o trabalho dele é assim –paga tão bem que o podem matar a qualquer momento. É o melhor papel que eu interpretei na vida, pode ter certeza.

Espero que não seja o melhor que farei pelo resto da minha vida. Ei, Morgan Freeman fez uns cem filmes depois de “Um Sonho de Liberdade”. Mas aquele foi o melhor papel que ele teve na vida.

Esse papel parece se posicionar como diferente daquilo por que você é mais conhecido. Você está pensando diferente sobre sua carreira como ator e sobre a direção que ela pode tomar? Minha escalação não é tão estranha como parece, para quem assiste a “Fargo”. Key e Peele participaram da primeira temporada, e Brad Garrett foi maravilhoso na temporada seguinte. Agora é minha vez, ora.

Quero trabalhar em coisas boas. Nem tudo que fiz foi bom, mas sempre procuro pelo que é bom. Adorei “História de um Casamento”. Eu mataria por um papel como aqueles. Você viu o que [Adam] Sandler fez, em “Joias Brutas”. Mas você precisa que alguém o chame e tem de estar pronto quando o chamado vier.

'No Auge da Fama', que você escreveu, dirigiu e estrelou, em 2014, foi muito pessoal para você. Você ainda quer fazer filmes como aquele? É algo que pretendo continuar a explorar. Quando fiz “No Auge da Fama”, eu tinha me divorciado. E como a maioria das pessoas que se divorciam, eu precisava de dinheiro. Precisava pagar coisas. Por isso fiz uma turnê.

Agora, com a Covid-19, não parece que vamos poder voltar a turnês sérias antes de 2022. Por isso, me tornei "roteirista-diretor-ator", por enquanto. Estou trabalhando em alguns roteiros ao estilo de “No Auge da Fama” e espero honestamente os poder dirigir depois da virada do ano.

Que proporção de 'Fargo' vocês tiveram de rodar durante a pandemia? Mais ou menos um episódio e meio —todo o episódio final e algumas cenas do anterior. É estranho trabalhar como ator durante a quarentena. Atuar já cria isolamento, de qualquer forma, e você ainda precisa acrescentar a quarentena. Você fica em confinamento solitário, com a companhia da Netflix e Uber Eats.

Mas não vamos complicar demais a coisa. Uma pessoa que está na solitária, está trancafiada, não vai aceitar a comparação. Mas você precisa atuar, passar por exames a cada dois dias, usar uma máscara sempre que não tiver diálogos a dizer. E tem de estar ciente de em que zona você está. Na zona A, todo mundo foi examinado, mas na zona B, nem todo mundo. Na zona C, todo mundo tem Covid-19.

Você participou de um dos shows ao vivo de Chappelle em julho. Como foi a experiência para você? Quem costuma se apresentar nos clubes de stand-up sabe que a plateia da chuva é a melhor plateia. Sempre que está chovendo, os espectadores que vão realmente querem estar lá. A plateia da pandemia é realmente ótima. “Cara, nós não só queremos mesmo estar aqui como não temos mais nada para fazer. Nada mais para assistir. Muito obrigado.”

Do que você falou? Falei sobre sei lá, política. Os Estados Unidos. Parte da razão para estarmos nessa situação é que o presidente é senhorio. Ninguém tem menos compaixão pelos seres humanos do que um senhorio. E as pessoas ainda se chocam por ele não estar engajado?

Você já viu aquele filme “O Último Imperador”, em que um moleque de cinco anos é o imperador da China? Há um moleque e ele é rei. E eu digo que é tudo culpa dos democratas. Porque sabíamos que o imperador tem cinco anos. E quando um imperador tem cinco anos, ele só reina em teoria. Usualmente há um adulto que diz “bem, é isso que vamos fazer, de verdade”.

A responsabilidade toda era de Pelosi e dos democratas. E eles decidiram pedir o impeachment, que nunca aconteceria. Assim, permitiram a entrada da pandemia. Sim, podemos culpar Trump, mas ele na verdade é o moleque de cinco anos.

Uma forma de resumir é que os republicanos mentem descaradamente. Os democratas excluem partes cruciais da verdade que poderiam produzir um diálogo mais explicativo. Em certo sentido, é tudo fake news.

No começo de 'Tamborine', você dedica diversos minutos a falar de violência policial e de criar filhos em um país racista. Quando você discute essas questões e nada muda, a sensação é de futilidade? Lembro quando “Tamborine” saiu e muita gente me criticou pelo que eu disse sobre a polícia. Havia muita gente tentando começar uma fogueira, que nunca cresceu. É estranho perceber que, dois anos mais tarde, tudo que eu disse se aplica. Eu me lembro de ver as notícias na TV e de Trump falar de “maçãs podres”. A sensação foi a de que eu tinha vencido! Eu venci!

Mas você disse às pessoas dois anos atrás. Sim. Mas o Public Enemy fez a mesma coisa. E Marvin Gaye. Ver coisas registradas por uma câmera muda a situação. Se O. J. [Simpson] tivesse matado Nicole diante de uma câmera, o julgamento teria acabado em dois dias.

Dois dias para tentar descobrir que tipo de cela ele merece. Dois dias de Johnnie dizendo [imitando a voz do advogado Johnnie Cochran] “ele merece pelo menos uma cela de 3,5 por 2,5 metros, talvez com acesso à ESPN”. O julgamento todo seria isso.

Mas a agressão a Rodney King foi registrada em vídeo. E isso não garantiu um determinado resultado. Claro, cara. Vamos dizer assim –estamos vivendo o segundo grande movimento dos direitos civis. O doutor [Martin Luther] King e seus companheiros eram maravilhosos, mas não sabiam nada sobre dinheiro.

Não pediram coisa alguma. E, no fim, aquilo que eles conseguiram foi simplesmente que as pessoas começassem a ser tratadas de maneira mais humana. Tudo que obtivemos foi isso —um tratamento mais humano.

Se tivéssemos de fazer tudo aquilo de novo, em retrospecto, deveríamos prestar mais atenção à disparidade financeira de todos aqueles anos —não vamos nem contar a escravidão, mas só os anos de segregação racial.

Estamos falando de um sistema que não acabou até 1973. E eu nasci em 1965, na Carolina do Sul. Provavelmente em uma ala segregada do hospital —de nenhuma maneira teriam me colocado ao lado de um bebê branco. Mesmo que o hospital não fosse segregado. Eu fui colocado em outra enfermaria, onde não tinha o melhor leite, os melhores lençóis. Meus pais não podiam ter imóveis em certos bairros quando nasci.

Havia disparidade econômica ali, e isso não foi tratado pelo movimento original dos direitos civis. Foi um grande engano. Não havia dinheiro e não havia terra. E se você não tem um ou o outro, você na verdade não tem muito.

Você quis participar dos protestos recentes? Eu e minhas filhas vimos de longe. Mas estamos no meio de uma pandemia, cara, e conheço pessoas que morreram dela. Para mim, essa coisa da Covid-19 é real.

​​Você vem dizendo às suas plateias há anos que o racismo não está diminuindo e continua a ser uma força poderosa nos Estados Unidos. Você acredita que tenha acontecido alguma melhora nas circunstâncias? É real. E não está desaparecendo. Eu já disse isso antes, mas isso de que o "Obama presidente representa progresso" é para os brancos. Não é progresso para os negros.

É como a situação de Jackie Robinson. A história é narrada como se ele tivesse derrubado uma barreira, como se não existissem negros capazes de jogar beisebol em times integrados antes.

É assim que as pessoas brancas aprendem sobre o racismo. Elas pensam que quando os outros [negros] trabalharem com afinco, eles serão como Jackie. E a verdadeira narrativa deveria ser que essas pessoas, as negras, sofrem abusos por parte de um grupo de pessoas deficientes mentais. E as estamos tentando fazer superar essas deficiências e admitir que todo mundo é igual.

Um tratamento humano não é progresso; só é progresso aos olhos daqueles que privam os demais de humanidade. Se uma mulher está em um relacionamento abusivo e o marido a para de surrar, você não diria que ela fez progresso, certo? Mas é que o fazemos com relação aos negros. Nos dizem constantemente que estamos fazendo progresso. O relacionamento em que estamos —o casamento arranjado em que estamos— é um em que agora somos menos surrados.

Jimmy Fallon foi muito criticado alguns meses atrás por um vídeo gravado há 20 anos em que ele usa blackface para imitar você em 'Saturday Night Live'. Como você se sente sobre o vídeo? Olha, eu sou amigo de Jimmy. Ele é um grande cara. E não tinha más intenções. Muita gente diz que intenção não importa, mas é claro que importa. Não acho que Jimmy Fallon quisesse me magoar. E não magoou.

Houve um movimento mais amplo para acabar com o blackface em filmes e programas de TV do passado em que esse tipo de cena tenha aparecido. Você acha exagero? Se disser que acho, vou ser o pior cara do mundo. Existe literalmente uma única resposta que pode acabar com a minha carreira.

Blackface não é bacana, OK? É o que tenho a dizer. Blackface é ruim. É triste que agora vivamos num mundo no qual você precise dizer que é contra o câncer. “Ei, eu presumi que você era a favor do câncer.” Não, não, não, sou contra. É preciso declarar tantas coisas óbvias às quais você se opõe.

Com quem você convive hoje em dia? Quem é sua turma? Eu convivo com Dave [Chappelle]. Com meus filhos. Com Nelson George. No mundo da Covid-19, conviver não é tão normal. Seria melhor perguntar com quem a pessoa conversa no FaceTime.

Está bem. Com quem você conversa no FaceTime? Um dia desses percebi que eu não conheço nenhuma pessoa velha de quem os amigos tomem conta. Todos os velhos que conheço e têm algum problema e são cuidados por seus cônjuges ou filhos. Às vezes, a pessoa tem cinco filhos, mas só um ajuda. Onde foram parar os amigos? Os amigos não vão estar lá quando for mesmo necessário.

Quando meu pai estava morrendo no hospital, onde estavam os amigos dele? E os amigos da minha avó? É claro que, se você adoecer na casa dos 20 anos, os amigos o visitarão no hospital. É uma aventura. Mas se você adoecer depois dos 60, logo começa a surgir uma escala. “Você vai na quarta e eu vou no sábado.”

Aproveite os amigos enquanto pode. Mas, se você acha que amigos são a solução de longo prazo para a solidão, você é um idiota.

Tradução de Paulo Migliacci

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