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Como a Disney usou 'Mulan', história folclórica de US$ 200 mi, para cortejar a China

Refilmagem em live-action do filme de animação de 1998 estreia direto nos serviços de streaming dos EUA

R.T. Watson
The Wall Street Journal

Por causa da pandemia, a Disney pode estar lançando seu remake de “Mulan”, um projeto de US$ 200 milhões, em seu serviço de streaming, em boa parte do planeta, mas o estúdio ainda tem a oportunidade de causar impacto nas bilheterias do mercado que seus executivos tinham constantemente em seus pensamentos durante a produção do filme –a China.

A estreia de “Mulan” nas salas de cinema da China, que começaram a reabrir no final de julho, se enquadra no esforço mais amplo da Disney para cortejar os consumidores chineses, os atraindo de volta às suas lojas e parques temáticos em Xangai e Hong Kong.

A versão original de “Mulan”, um desenho animado lançado em 1998, foi um fiasco nas bilheterias da China. Para tentar evitar um novo fracasso, a Disney fez muitos esforços para garantir que sua nova adaptação da história folclórica secular ecoasse junto aos espectadores chineses.

A empresa adiou por mais de um ano o lançamento do filme, para esperar pela atriz que os executivos desejavam para o papel principal, e trabalhou em estreito contato com o governo chinês, se esforçando constantemente para apresentar um personagem principal e argumento fiéis aos valores chineses.

Mas avaliar o sucesso comercial do filme será difícil, já que a pandemia desordenou o negócio do cinema. Embora os espectadores da China estejam voltando às salas de exibição, os dos Estados Unidos só poderão assistir a “Mulan” online. Os resultados das bilheterias não bastarão por si sós para determinar se os anos de trabalho que a Disney dedicou a “Mulan” valeram o esforço.

Inicialmente, o maior desafio para a Disney era encontrar a estrela certa para interpretar a personagem-título, uma jovem que se disfarça de homem e vai à guerra, substituindo seu pai envelhecido. Os produtores começaram a formar o elenco do filme no final de 2016, avaliando mais de mil atrizes de todo o mundo.

Eles escolheram Liu Yifei, de 33 anos, uma atriz americana de origem chinesa e estrela estabelecida na China comunista. O lançamento da primeira versão de “Mulan”, como filme de animação, em 1998, despertou reações contraditórias na China. Mas a seleção de Yifei ajudou a Disney a alterar o placar em seu favor, desta vez.

A espera por uma vaga na movimentada agenda de Liu significou que o estúdio teve de abandonar os planos de lançar a nova versão no final de 2018. Depois que a pandemia fechou as salas de exibição em todo o planeta, a Disney cancelou os planos de lançar “Mulan” em todo o mundo no final de março. A companhia remarcou a estreia do filme três vezes, nos últimos meses.

Em agosto, a Disney anunciou que não lançaria “Mulan” nas salas de cinema de muitos mercados, entre os quais o dos Estados Unidos, onde o filme só estará disponível para os assinantes do serviço de streaming Disney+, a partir de 4 de setembro.

Bob Chapek, o presidente-executivo da Disney, disse em conversa com analistas de mercado em agosto que pesquisas da empresa demonstravam que o lançamento online de “Mulan” agiria “como um grande estímulo à conquista de assinantes pelo Disney+”. O serviço de streaming não está disponível na China.

A Disney inicialmente pretendia contratar uma diretora chinesa para comandar as filmagens de “Mulan”, de acordo com uma pessoa informada sobre o assunto, mas surgiu uma candidata promissora –a neozelandesa Niki Caro. A diretora tinha noção da importância da empreitada.

“Todas as crianças chinesas aprendem ‘A Balada de Mulan’”, disse Caro em entrevista no YouTube. ‘É uma grande honra, uma emoção, e uma tremenda responsabilidade levar a personagem à vida de uma nova maneira, em uma nova era.”

Como aconteceu em filmes recentes como “Moana: Um Mar de Aventuras” e “Viva: A Vida É uma Festa”, a Disney buscou lançar um trabalho culturalmente autêntico. Diferentemente da versão de 1998, que tinha no elenco astros ocidentais como Eddie Murphy, o novo “Mulan” conta com um elenco integralmente chinês e tem astros como Jet Li, Donnie Yen e Gong Li.

Boa parte do trabalho na refilmagem de “Mulan” começou muito antes que as câmeras rodassem. Meses de pesquisa sobre a história da China orientaram o aspecto visual do filme, de acordo com pessoas que trabalharam na produção.

Para evitar controvérsias e garantir que o filme pudesse ser lançado na China, a Disney submeteu o roteiro às autoridades chinesas e recorreu a consultores locais. As sugestões do conselho chinês de cinema incluíam a ideia de não concentrar as atenções numa dinastia chinesa específica, de acordo com pessoas informadas sobre o assunto.

Em 1998, o governo chinês inicialmente proibiu a Disney de lançar o “Mulan” original no país —como represália por “Kundun”, um filme sobre a ocupação chinesa do Tibete que a Disney havia lançado no ano anterior. Depois de diversos meses, a China autorizou o primeiro “Mulan” a ser exibido nos cinemas, mas o desempenho do filme foi fraco, mesmo pelos padrões do mercado então pequeno das salas de exibição chinesas. Cópias piratas do filme inundaram o mercado, e a data de lançamento pouco auspiciosa oferecida pelo governo também parece ter ajudado a reduzir a venda de ingressos.

O mais importante é que alguns espectadores chineses rejeitaram a história animada da Disney porque ela adotava valores ocidentais, como a transformação pessoal, de preferência a prioridades chinesas como a dedicação à família.

Barry Cook, um dos diretores do “Mulan” de 1998, diz que sua equipe desejava contar “uma história sobre um indivíduo, não importa seu gênero”. A abordagem parecia contrariar diretamente o espírito da história folclórica, de acordo com acadêmicos e outros especialistas.

“A balada original enfatizava fortemente a dedicação filial de Mulan. Essa é uma ideia confuciana”, disse Lan Dong, professora de inglês na Universidade de Illinois em Springfield, que escreveu um livro sobre o legado da personagem na China e nos Estados Unidos. “A mensagem central mudou, na versão [original] da Disney, porque enfatizava fortemente a luta da personagem principal por se encontrar.”

A nova versão de “Mulan” enfatiza o valor da família e da comunidade. Ao mesmo tempo, também acena para as sensibilidades contemporâneas quanto a gênero. Em lugar de os colegas soldados de Mulan descobrirem por acidente que ela é mulher —a forma pela qual a Disney lidou com a questão em 1998—, na nova versão a personagem principal toma a iniciativa ao decidir quando e como fazer a revelação.

Uma audiência-teste chinesa também influenciou o filme, objetando a um beijo entre Mulan e seu interesse romântico no clímax da história, de acordo com uma pessoa informada sobre o assunto, que diz que a Disney removeu a cena.

Muitas das pessoas que dedicaram anos a levar “Mulan” às telas estão muito felizes por o filme enfim estar sendo lançado, mas ainda não se pode determinar se a estreia direta em streaming nos Estados Unidos resultará em final feliz.

“O tema das conversas sobre o filme é o aspecto econômico da coisa. É descobrir o que ele dirá sobre o estado da pandemia”, disse uma pessoa envolvida no desenvolvimento do filme, expressando preocupação. “E esse não é o tema do filme que fizemos.”

Tradução de Paulo Migliacci

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