Descrição de chapéu The New York Times Livros

Conheça a livraria chinesa que desafia os líderes comunistas do país

Loja se torna símbolo da vibrante democracia de Taiwan vendendo livros proibidos na região

Amy Chang Chien Javier C. Hernández

Dentro de uma livraria silenciosa no centro de Taipei, numa noite recente, Ju Le-Wen ergueu o punho cerrado, diante de uma grande faixa de tecido preto onde se lia “Revolução Agora!”

Le-Wen, de 26 anos, é advogada e está preocupada com as políticas cada vez mais autoritárias da China, entre as quais as severas leis de segurança adotadas recentemente em Hong Kong. Ela foi à Causeway Bay Books, uma loja irreverente e repleta de livros hostis sobre o regime do Partido Comunista chinês, para demonstrar seu apoio à democracia, em Hong Kong e Taiwan.

“Temos de lutar para proteger nossa liberdade e nosso futuro”, disse Le-Wen.

Dois homens chineses conversam em frente a centenas de livros
Lam Wing-kee, certo, proprietário e gerente da Causeway Bay Bookstore, fala com um cliente em Taipei, Taiwan, em 16 de julho de 2020 - An Rong Xu / The New York Times

A Causeway Bay Books, que ocupa uma salinha apertada no décimo andar de um monótono edifício de escritórios, nas últimas semanas se tornou um ponto de encontro para pessoas que se preocupam com o futuro de Taiwan, uma democracia autônoma sobre a qual a China afirma direitos.

Em meio à repressão abrangente dos líderes da China contra a liberdade de expressão e o ativismo em Hong Kong, cresce o medo de que Pequim também venha a agir para impor mais controle sobre Taiwan.

Centenas de pessoas visitam a loja a cada semana para folhear livros proibidos na China continental. Elas vasculham obras que expõem os segredos das vidas privadas de líderes chineses, relatos históricos de eventos como o massacre da Praça Tiananmen, e romances distópicos como “1984”, de George Orwell.

Um livro sobre o poderoso líder chinês Xi Jinping tem o título “O Zumbi Que Governa o País”.

Posicionados diante de faixas que apelam por independência para Hong Kong, os visitantes ocasionalmente entoam gritos de guerra como “lute pela liberdade”. Em uma parede perto da porta de entrada, recoberta por papéis coloridos, eles deixam ferozes críticas manuscritas à China.
“A tirania deve morrer”, diz um dos bilhetes.

A Causeway Bay Books se tornou um símbolo da vibrante democracia de Taiwan em um momento no qual a ilha está tentando se promover como alternativa ao sistema autoritário da China. A presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, visitou a loja recentemente, e o mesmo vale para dezenas de integrantes do governo, estudantes e comentaristas críticos à China.

“É como um farol de uma sociedade livre”, disse Leo Hong, 38, trabalhador de uma companhia estatal que visitou a loja para comprar um livro de fotografias que registram os protestos contra o governo em Causeway Bay Books no ano passado.

A loja é uma mistura de pequeno comércio familiar e sala de guerra política, com papel de parede floral delicado justaposto a faixas combativas que pedem liberdade para Hong Kong.

Muita gente visita a livraria só pela oportunidade de ver Lam Wing-kee, o proprietário e administrador, um livreiro de Hong Kong que fugiu de lá no ano passado. Wing-kee foi um dos cinco livreiros detidos pelas autoridades chinesas em 2015, por venderem livros que criticam o partido governante. Ele foi aprisionado e passou cinco meses na solitária.

“Ele quer informar as pessoas de Taiwan sobre o tipo de regime do Partido Comunista chinês”, disse Chen Tsai-neng, 55, um apresentador de rádio que visita a loja frequentemente. Chen diz que conversa sempre sobre a história do autoritarismo na China, com Wing-kee e outros fregueses.

“Ele quer informar as pessoas de que o Partido Comunista chinês e os indivíduos que estão no poder por trás dessa tradição cultural não merecem confiança”, disse Chen.

Wing-kee abriu a loja de Taipei em abril, retomando o nome de sua antiga livraria em Hong Kong. No período das 12h às 21h, todos os dias, ele circula pela loja recomendando livros aos visitantes, e periodicamente vai ao terraço para fumar. A loja também serve como moradia para Wing-kee, que dorme em uma cama beliche instalada atrás do caixa.

Wing-kee disse que deseja que os cidadãos de Taiwan tenham um lugar onde possam refletir sobre os desafios que a ilha encara, entre os quais os esforços da China para isolar o país politicamente.
“Taiwan vive um momento instável agora”, ele disse. “E uma coisa é clara: é a China que cria essa instabilidade para Taiwan.”

A livraria também tem seus críticos. Há quem acredite que a seleção de livros oferece uma visão distorcida da China moderna, por se concentrar demais em retratos negativos.

Chinesa com máscara de proteção a coronavírus folheia livro ao lado de estante da biblioteca
Uma cliente examina livros na Causeway Bay Bookstore, em Taipei, Taiwan, em 16 de julho de 2020 - An Rong Xu / The New York Times

A chegada da loja também gerou debate sobre se Taiwan deveria ou não aceitar refugiados políticos como Wing-kee. Tsai e seu partido, o Democrático Progressista, prometeram ajudar mais ativistas de Hong Kong a encontrar abrigo em Taiwan. Alguns membros do partido oposicionista, o Kuomintang, acreditam que isso pode causar retaliações por Pequim.

Wing-kee se transformou em alvo. Em abril, pouco antes de abrir a loja, dois homens lançaram tinta vermelha contra ele na saída de um restaurante em Taipei. Os dois terminaram detidos.

À medida que as tensões com a China continental se agravam, muitos visitantes sentem um clima de camaradagem na loja, onde discutem temas como política de defesa e se Taiwan deve ou não buscar formalmente a independência, uma ação a que Pequim resiste vigorosamente há muito tempo. Há quem se preocupe com a possibilidade de um conflito militar, no qual Taiwan seria apanhada entre os dois combatentes, caso as relações entre a China e os Estados Unidos continuem a se deteriorar.

A decisão do governo chinês, em junho, de impor leis severas de segurança nacional em Hong Kong, conferindo às autoridades amplos poderes para reprimir diversos crimes políticos, galvanizou muitos taiwaneses e os levou a protestar.

“Há quem pense que o que está acontecendo em Hong Kong é um vislumbre do futuro de Taiwan”, disse Chen Wei-nung, 36, que trabalha em tempo parcial em um instituto de pesquisa de opinião.

A coleção de bilhetes na parede perto da entrada imita manifestações semelhantes criadas pelos ativistas em Hong Kong no ano passado. Há desenhos que mostram Jinping usando uma coroa, e citações do Capitão América.

Parede repleta de post-its coloridos
Uma parede de anotações deixadas pelos clientes na Causeway Bay Bookstore, em Taipei, Taiwan, 16 de julho de 2020 - An Rong Xu / The New York Times

Tsai, a líder de Taiwan, deixou um bilhete, em sua visita, que afirma: “Taiwan livre apoia a liberdade de Hong Kong.”

Le-Wen, a advogada que visitou a loja recentemente, comprou um livro sobre os controles de internet na China e um sobre a história dos protestos em Hong Kong. Antes de ir embora, ela parou para deixar sua mensagem na parede de protesto.

“Liberdade para sempre”, ela escreveu. “Liberdade para Taiwan.”

Tradução de Paulo Migliacci

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