Descrição de chapéu Televisão 70 anos da TV

Entenda como a TV mexeu com a vida do brasileiro, da política à cama, em 70 anos

Debates eleitorais, novelas polêmicas, festivais de música e apresentadoras de shortinho marcaram o imaginário do país

Homens se cumprimentam

Candidatos ao segundo turno da eleição presidencial 1989, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello, em debate na televisão Ed Viggiani/Folhapress

São Paulo

Presente no país há sete décadas, a televisão influenciou de incontáveis maneiras a vida dos brasileiros —e vice-versa, refletindo as mudanças na sociedade. Essa via de mão de dupla hoje se abre em leque, com a fragmentação em centenas de canais e plataformas voltados a nichos específicos.

Mas o meio ainda é, de longe, o de maior penetração em todas as camadas sociais. Nada impede que a TV continue moldando o cotidiano nacional. Como já fez inúmeras vezes, em todas as áreas.

Vote em mim

Antes do segundo turno das eleições de 1989, Fernando Collor de Mello e Luís Inácio Lula da Silva participaram de um debate na TV Globo. No dia seguinte, a emissora exibiu em seus telejornais uma versão editada do confronto, dando clara vantagem a Collor —que acabou sendo eleito. Este é o exemplo mais óbvio do poder da TV de interferir nos destinos do país.

Mas a política na telinha vai muito além dos debates e da propaganda eleitoral. Aparece no viés de muitos noticiários, nos talk shows, no humor e até nas novelas. “O Bem Amado”, de 1973, satirizava o coronelismo. Em “Eu Prometo”, de 1983, a última trama de Janete Clair, um deputado casado arriscava sua carreira ao se apaixonar por outra mulher. “Vale Tudo”, de 1988, expôs nossa corrupção estrutural. “O Rei do Gado”, de 1994, abordou a reforma agrária. E até em “Malhação” o ativismo dá as caras.

Vista a roupa, meu bem

Exibidas com destaque na abertura da novela “Dancin’ Days”, de 1978, as meias coloridas de lurex viraram febre do Oiapoque ao Chuí e consagraram a figurinista Marília Carneiro como um dos nomes mais influentes da moda brasileira.

Das calças boca-de-sino ao topless, incontáveis tendências e modismos foram lançados, ampliados e até saturados pela programação da TV. Era comum que um acessório usado por uma atriz numa única cena congestionasse as linhas telefônicas de uma emissora.

Hoje, proliferam os consultores que dão dicas de como se vestir bem, além dos realities que buscam o vestido de noiva ideal.

Canta, canta, minha gente

A história da música brasileira dos últimos 70 anos se confunde com a da televisão. Fenômenos como jovem guarda ou a tropicália são impensáveis sem os programas e festivais que a Record exibia na década de 1960.

Mais tarde, as trilhas de novelas passaram a ditar o hit parade, dando a Mariozinho Rocha, o diretor musical da Globo entre 1989 e 2016, o poder de decidir quem faria ou não sucesso. Hoje o sertanejo e o funk dominam a telinha, relegando a MPB mais elaborada a horários pouco nobres —ou ao streaming, como aconteceu com a recente live de Caetano Veloso.

Passinho pra frente, passinho pra trás

Gravado e engavetado em “América”, de 2005, e “Insensato Coração”, de 2011, o beijo gay finalmente foi ao ar no final de “Amor à Vida”, em 2014, incitando comemorações e reprimendas.

Há décadas que nossa teledramaturgia exibe comportamentos ainda não de todo aceitos pelo público, nem sempre com sucesso. Em 1979, o seriado “Malu Mulher” conseguiu falar de temas como aborto e orgasmo feminino enquanto ainda existia a censura. Mas, quase 20 anos depois, o casal lésbico de “Torre de Babel” foi rejeitado pela audiência, e precisou morrer na explosão de um shopping.

Ô, da poltrona

No humor, nossa TV vive no presente e no passado ao mesmo tempo. “A Praça É Nossa”, do SBT, segue o mesmíssimo formato criado por Manoel de Nóbrega em 1956, na extinta TV Paulista. Bordões popularizados por Jô Soares (“tem pai que é cego”), Chico Anysio (“o salário, ó”) ou Renato Aragão (“ô, psit!”) continuam na boca do povo.

Mas a renovação no gênero não para. “TV Pirata” “Casseta & Planeta” e “Pânico na TV” abriram caminho para Fábio Porchat, Marcelo Adnet e Tatá Werneck. No entanto, Whindersson Nunes não precisou da TV para se lançar —bastou a internet.

Nossos comerciais, por favor

Em meados da década de 1980, o Brasil descobriu, estarrecido, que enfrentava um inimigo mortal dentro de casa –o ácaro. Tudo graças à campanha publicitária de um purificador de ar, que prometia eliminar um problema que ninguém sabia que tinha.

Esse é só um dos episódios em que a propaganda mudou hábitos de consumo e alterou percepções. Esquecidos nas celebrações dos 70 anos da TV brasileira, os patrocinadores foram (e ainda são) indispensáveis para o crescimento do meio.

Além de venderem seu peixe, também se infiltraram em nossas memórias com slogans pegajosos e comerciais que marcaram época.

Minhas colegas de trabalho

A era dos animadores de auditório está chegando ao fim? Prestes a completar 90 anos, Silvio Santos não tem um herdeiro óbvio para seu trono de mais importante apresentador da história da nossa TV.

Nomes relativamente novos como Rodrigo Faro ou Márcio Garcia são competentes e talentosos, mas não devem virar lendas como Chacrinha, Hebe Camargo e Gugu Liberato. Mesmo assim, a importância do gênero —que nasceu no rádio e floresceu na TV— ainda deve durar algum tempo. Até porque sua produção é relativamente barata.

Me dê imagens, me dê imagens!

Os programas policialescos são comuns em toda a América Latina, e o Brasil não é exceção.

Supostamente jornalísticos, muitos descambam para o mais descarado sensacionalismo, especialmente os de alcance regional. Wallace Souza, que apresentava o “Canal Livre” em Manaus, foi acusado de encomendar assassinatos, só para exibir os crimes em seu programa (e sua história escabrosa acabou rendendo uma série na Netflix). José Luiz Datena, da Band, é o atual imperador do estilo, mas tem muitos concorrentes —e todos são acusados de exacerbar a sensação de insegurança e alarmar a população.

Noventa milhões em ação

A Copa de 1970 foi a primeira que teve seus jogos transmitidos ao vivo pela TV. E o Brasil entrou em transe, assistindo a seis vitórias consecutivas que nos trouxeram o sonhado tricampeonato.

A conquista uniu o país de um jeito que nem o “milagre econômico” conseguiu, atendendo aos objetivos da ditadura militar. Desde então, a presença do esporte na televisão se ampliou, criou ídolos, lançou gírias, emplacou musiquinhas e conquistou fãs para modalidades obscuras. Hoje a oferta é ampla na TV paga, que cobre até torneios de boliche. Enquanto isto, as redes abertas se engalfinham por um único filão –o futebol.

Ilari-lari-lariê

Uma crítica frequente à atual TV aberta é o pouco espaço reservado para a programação infantil. Nas redes comerciais, ela só sobrevive no SBT. No entanto, várias gerações de brasileiros cresceram em frente à telinha, vibrando com “Vigilante Rodoviário” (o primeiro seriado nacional, estreado em 1961), a versão tupiniquim de “Vila Sésamo” ou as apresentadoras de shortinho das décadas de 1980 e 1990.

As crianças de hoje encontram diversão nos canais pagos e, cada vez mais, online —o que pode ser fatal para a TV a longo prazo.

Um instante, maestro

A televisão é frequentemente acusada de emburrecer as pessoas. De fato, a abundância de programas apelativos, atrações vulgares e pura desinformação compõe um panorama desolador. A alta cultura, que já marcou ponto na TV comercial com “Concertos para a Juventude” e "Grande Teatro Tupi”, hoje está confinada aos canais pagos.

Por outro lado, telecursos e emissoras como Futura e TV Escola desempenham um papel importante no acesso à educação.

Atenção para o top de oito segundos

Nos anos 1960, um capítulo de novela da Globo era exibido primeiro no Rio de Janeiro. Aí, a fita vinha fisicamente para São Paulo e dali para outras capitais, o que fazia com que cada estado da federação estivesse assistindo a um momento diferente da trama.

A programação só entrou “em sincro” por todo o país com o advento da transmissão via satélite, no início da década de 1970. A tecnologia permitiu o avanço da integração nacional tão almejada pela ditadura militar, mas também borrou diferenças regionais e homogeneizou o gosto médio do brasileiro.

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