Nova onda agora é ter bundão, diz Fernanda Abreu, primeira madrinha do funk

Cantora fala sobre mudança de seus planos em meio à pandemia da Covid-19 e critica o governo federal

Bruno Cavalcanti
São Paulo

Em 1990, Fernanda Abreu despontou com seu primeiro disco solo "SLA Radical Dance Disco Club" e, em entrevista a este jornal, cravou que a onda da vez era “ser negão”. Passadas três décadas, a carioca olha para sua trajetória e garante que, agora, a onda é “ter bundão”.

Embora alguns colegas não vejam a música atual com bons olhos, direcionando suas críticas ao funk, que chamam de ode à bunda, Abreu vê a representação como um bom panorama do ritmo do qual se tornou defensora desde que subiu o morro no final dos anos 1980 com o amigo DJ Marlboro. “Tem a ver com o empoderamento feminino também, é político”, diz a cantora, que direciona sua crítica a atual conjuntura política do país.

“Do jeito que está não dá para continuar. Nós merecemos governantes que estejam comprometidos com esse país, com saneamento básico, educação, o desenvolvimento do espírito crítico e político nas pessoas. Tudo é política, desde namorar até pagar imposto”, diz a cantora que se assustou com a guerra instaurada pela Secretaria de Comunicação contra o humorista Marcelo Adnet.

“O Mario Frias não gostar da imitação e fazer um post no perfil dele, vá lá. Mas a Secom entrar na jogada é absurdo, passa a ser institucional, vira uma guerra do governo contra os artistas, é revoltante.”

O sentimento é o mesmo quando se refere à sua cidade. Com o afastamento do governador Wilson Witzel, do PSC, e as acusações de irregularidade contra o prefeito Marcelo Crivella, do Republicanos, Abreu só vê uma solução –tomar o Rio de Janeiro de volta.

“Eu espero uma conscientização. Espero que as pessoas entendam que o Estado é laico. Não adianta ter a cidade mais linda do Brasil e não cuidar. Nas ruas, as pessoas estão deprimidas, agressivas, mal-educadas. O DNA do carioca é outro, ele é inventivo, divertido, inteligente. Temos que tomar a cidade de assalto. O Rio não é da milícia, da polícia, do tráfico, da igreja, é do carioca! Queremos o nosso crachá”, diz, incrédula com a reação das pessoas com a pandemia do novo coronavírus.

Isolada há seis meses, Abreu viu a pandemia redefinir seu 2020, quando celebraria 30 anos de carreira com uma turnê e o lançamento do DVD do registro do show “Amor Geral”, baseado no disco que, em 2016, quebrou o jejum de uma década sem material inédito.

O DVD chegou a ser gravado, mas sem o público que formava fila na frente do Imperator Centro Cultural João Nogueira, no Méier, já que a cantora foi surpreendida por um ofício do governo que decretou o fechamento de espaços culturais quando se preparava para subir no palco.

“Foi desesperador! A gente com aquele circo armado, investi uma grana alta, não dava para cancelar. Usei toda a minha experiência de palco para jogar a energia lá em cima e aproveitar o momento." O material ficou meses sem destino até a cantora decidir que em outubro ele chegará ao mercado. Ainda não se sabe se em DVD ou em streaming.

O registro é só um dos lançamentos que Abreu agendou para celebrar sua trajetória. A artista colocará nas lojas duas coletâneas. A primeira, “Slow Dance”, é uma seleção das baladas mais marcantes de sua discografia.

Mulher com mão no queixo estampa jornal
Há 30 anos, Fernanda Abreu saía em uma capa da Ilustrada, editoria de cultura da Folha de S.Paulo - Reprodução

"A galera tá buscando uma memória afetiva que me inspirou a mexer no meu catálogo. E tinha uma cobrança dos fãs de eu não cantar as minhas baladas.” O disco contará com pelo menos uma novidade –a versão inédita em estúdio de “Dance, Dance”, de Rodrigo Maranhão, gravada na série MTV Ao Vivo.

Com CD e DVD fora de catálogo por causa da briga judicial entre Abril e Viacom pelo acervo da emissora, Abreu entrou em estúdio para registrar a canção, nas plataformas desde o dia 8 de setembro, seis meses depois do lançamento de “Do Ben”, música inédita em que celebrou o ídolo Jorge Ben Jor.

A segunda é “30 Anos de Baile”, com remixes de seus sucessos sob a batuta do DJ Memê. Com planos de lançar um disco de inéditas em 2021 e um documentário dirigido por Paulo Severo com o registro da turnê e a gravação de “Da Lata”, título essencial em sua obra, Abreu acalenta ainda o desejo de gravar um disco de sambas, uma de suas grandes paixões junto ao funk, do qual se tornou madrinha e defensora há 30 anos.

“Vivi o funk intensamente! Ainda rola de uma certa 'intelligentsia' dizer que o funk não pode representar a música brasileira. É o preconceito com o pobre, com o preto, com o favelado, mesmo com o funk no mainstream. Sigo de braços dados com ele." Celebrada no funk, a eterna garota suingue sangue-bom se vê mesmo como uma veterana da música pop que soube sobreviver.

“O pop tem essa característica de ser meio descartável. Eu sempre tento aprofundar o meu som, trazer um frescor. O artista pop tem que se reinventar para continuar criando. Se cai na fórmula, vira descartável.”

Mulher branca com mão no queixo
Fernanda Abreu reproduz foto que estampou capa da Ilustrada, editoria de cultura da Folha de S.Paulo, há trinta anos - Fernanda Abreu

Aos 59 anos, a cantora não se importa com a busca pela juventude. “As pessoas são bem obcecadas com idade, nunca tive isso. Acho fútil, mas se for pra servir de estímulo a outras mulheres, ser um exemplo de que podem estar bonitas e com saúde, acho bacana.” É na pauta feminista que a artista vê o avanço.

“Depois da primavera das mulheres de 2013, o feminismo deu passos largos. Foi uma das coisas mais incríveis que avançaram na sociedade, mas ainda existe muita violência", diz. "Essa facilidade com que os homens matam as mulheres é a coisa mais revoltante que existe, qualquer pessoa de bem tem que entrar de cabeça na luta a favor da mulher.”

Cantora em palco
Show de Funk Orquestra com Ludimilla, Fernanda Abreu e Buchecha, no palco Sunset, durante o terceiro dia do segundo final de semana do festival Rock in Rio, no Parque Olímpido, na zona oeste do Rio de Janeiro, em 2019. - Eduardo Anizelli/Folhapress
Erramos: o texto foi alterado

Fernanda Abreu disse que a onda agora é "ter bundão", comentando a reportagem da Ilustrada de 30 anos atrás. O texto foi corrigido.

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