Ferreira Gullar ditou coluna para a Folha da cama do hospital; leia seleção

Poeta, que completaria 90 anos nesta quinta, escreveu para o jornal por 11 anos

São Paulo

O poeta Ferreira Gullar, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira do século 20 e que completaria 90 anos nesta quinta (10), escreveu uma coluna semanal na Folha durante 11 anos.

O período coberto pelas crônicas do autor na Ilustrada foi de 2005 até dezembro de 2016, quando ele ditou um texto da cama do hospital à neta Celeste Aragão, publicada depois de sua morte. Leia abaixo uma seleção.

Já com pouco fôlego, devido a um quadro de pneumonia que o acabaria vitimando, Ferreira Gullar ditou sua última coluna para Folha discutindo o futuro da arte contemporânea.

Teve de fazer pausas para descansar, segundo contou a neta, que digitou o texto. "Quando eu perguntei se preferia terminar outro dia, ele disse que não, porque não sabia o que poderia acontecer", afirmou Celeste.

Leia a coluna 'Não custa nada imaginar que uma nova arte está para nascer'

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O poeta contou também, em 2006, o episódio em que a máquina da repressão da ditadura militar o prendeu em casa e confiscou um livro sobre arte, assumindo que tratava de comunismo.

"Foi numa dessas que levaram de minha casa os originais de um livro sobre arte contemporânea, intitulado 'Do Cubismo à Arte Neoconcreta', na suposição de que se referia a Cuba. Esse fato tornou-se uma piada que correu o mundo inteiro."

Leia a coluna 'Natal em cana'

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Ficou famosa uma contenda do poeta com Augusto de Campos, antigo companheiro de movimento concretista, quando escreveu em 2016 que fora o responsável por reavivar o interesse dos concretos por Oswald de Andrade numa conversa no restaurante Spaghettilândia.

"O resultado dessa conversa foi que [Campos] certamente foi reler Oswald e sem dúvida percebeu suas qualidades de escritor, reviu sua opinião sobre ele e, juntamente com Haroldo e Décio, contribuiu para a redescoberta e valorização de sua obra."

Augusto de Campos reagiu com virulência aos comentários, em respostas também publicadas pelo jornal.

Leia a coluna 'Encontro com Oswald'

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Militante comunista desde a juventude, Gullar não se alinhou ao PT quando Lula subiu ao poder. Pelo contrário, tecia críticas constantes ao partido e ao governo, mesmo no auge do primeiro mandato do presidente.

Em 2005, em uma de suas primeiras colunas, escreveu: "Assim, o PT é fruto de um acordo tácito entre duas coisas heterogêneas, mas afins: a ambição política de Lula e a visão revolucionária da esquerda radical. Lula se imaginou um Lech Walesa sul-americano, mas os seus novos companheiros –todos barbudos– imaginavam-no um Fidel Castro. Ele, ladino, deixou crescer a barba também."

Leia a coluna 'Lula versus PT'

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Em texto de 2006, Gullar falou sobre sua relação com o futebol. Filho de um centroavante "craque da seleção maranhense", ele disse nunca ter desenvolvido o mesmo talento.

"Minha carreira futebolística terminou quando sofri uma violenta rasteira e caí de bunda no chão. Temi ter quebrado o espinhaço e vi que seria melhor dedicar-me a esporte menos brabo; a poesia, por exemplo."

Leia a coluna 'Craques da minha vida'

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