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Novo sistema de cotas do Oscar enfrenta onda de ataques da velha Hollywood

Medidas da Academia visam aumentar visibilidade de mulheres, não brancos, LGBTs e pessoas com deficiência

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Imagem ilustra a falta de diversidade no Oscar, que entregou só 19 das 336 estatuetas de melhor atuação ao longo de toda a sua história a atores e atrizes negros

Detalhe de imagem que ilustra a falta de diversidade no Oscar, que entregou só 19 das 336 estatuetas de melhor atuação ao longo de toda a sua história a atores e atrizes negros lustração Jairo Malta

São Paulo

Mudanças estão a caminho do Oscar, e não, elas não têm relação com o anúncio em abril de que a cerimônia do ano que vem, por causa do coronavírus, vai considerar filmes lançados direto no streaming. As mudanças de agora são muito mais profundas —e têm potencial de abalar os alicerces que por tanto tempo sustentaram a Hollywood que conhecemos.

Nesta semana, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, instituição responsável pela entrega do Oscar, anunciou uma série de novas regras para que uma produção possa ser elegível à cobiçada estatueta de melhor filme. Elas visam ampliar a diversidade da premiação e se tornarão obrigatórias a partir de 2024.

Para ser considerado para a corrida, pelo novo livro de regras, longas-metragens precisarão cumprir pelo menos duas de quatro diretrizes que visam dar visibilidade a não brancos, mulheres, LGBTs, latinos e pessoas com deficiência.

Na prática, haverá uma espécie de sistema de cotas para que grupos menos representados estejam presentes em vários estágios da produção de um filme, o que pode ocorrer diante das câmeras ou só atrás delas, em cargos que vão de diretor e roteirista até estagiário. Há várias combinações de normas para seguir a fim de alcançar o mínimo estabelecido pela instituição.

Um filme pode, por exemplo, centrar toda a sua trama em protagonistas gays e, além disso, escolher pessoas não brancas para chefiar partes importantes da produção, como a fotografia e a montagem. Ou, então, oferecer cursos e estágios pagos para minorias que se envolvam no longa e também ter mulheres ou negros entre seus executivos das áreas de marketing e distribuição. São várias combinações possíveis.

As regras ainda não estarão em vigor na premiação do ano que vem, mas começam a valer de forma opcional já no ano seguinte. Nas cerimônias de 2022 e 2023, produções que quiserem disputar a corrida de melhor filme terão de enviar dados sobre diversidade em suas equipes e iniciativas, mas não haverá obrigatoriedade para alcançar os novos critérios. Eles passam a ser obrigatórios só daqui a quatro anos.

“Essa é uma mudança muito importante, porque eu acho que, com ela, você tem uma situação de abertura e de recolocação artística, dando acesso àqueles que têm menos acesso e destaque a quem às vezes não pode se destacar”, afirma o produtor Rodrigo Teixeira. Ele está por trás de filmes nacionais e estrangeiros que chegaram ao Oscar, como “Me Chame pelo Seu Nome”.

“Essa é a nova ordem do mundo e a gente vai ter que se enquadrar nesse modelo. Pensar melhor em como as histórias vão ser feitas, pelo menos se você tiver pretensão de chegar ao Oscar. A Academia vem se mostrando aberta a essas mudanças e acho que essas medidas vão ser aprimoradas com o tempo.”

Tais medidas têm relação direta com a onda de críticas que a Academia vem recebendo nos últimos anos, por causa da falta de diversidade entre seus indicados. O ponto de virada para a maior atenção dada ao problema ocorreu há quatro anos, com a campanha #OscarsSoWhite, que escancarou a falta de negros e de outras minorias raciais e étnicas entre os indicados daquele ano.

O movimento MeToo, que surgiu há três anos e também arrebatou o audiovisual, é outro que fez emergir uma série de vozes femininas potentes e escancarou a falta de mulheres em cargos de liderança nos sets de filmagem e nos estúdios.

Desde então, outras decisões haviam sido tomadas pela Academia para tentar apaziguar os ânimos, como a distribuição de cadeiras a novos membros –e, portanto, votantes no Oscar– a artistas e empresários que fugiam do perfil dominante, formado por homens brancos mais velhos e heterossexuais.

Segundo Teixeira, as mudanças devem respingar também na produção brasileira. Ele ainda destaca que, ao contrário de medidas já tomadas, esse novo conjunto busca atacar o problema da falta de diversidade de forma mais ativa.

“Sem dúvida essas regras visam mudar a estrutura, não é algo paliativo”, diz ele, sobre a diretriz que determina que produtoras tenham estagiários e aprendizes de grupos menos representados. “Eu acredito que, com isso, uma geração mais diversa de talentos vai surgir. Vai abrir espaço para isso.”

Mas, por melhores que sejam as intenções da Academia, o anúncio não foi recebido de forma totalmente positiva. Houve alfinetadas de lados opostos do debate –alguns dizem que as normas eram insuficientes e outros as consideraram ousadas demais.

Entre os últimos, alguns argumentam que produtoras menores vão sair prejudicadas se comparadas aos grandes estúdios, o que Teixeira refuta, e outros dizem que as normas vão limitar o tipo de filme que chega ao Oscar.

Mas isso não é bem verdade. As normas são uma formalização de um movimento que já vinha acontecendo. Vencedores do Oscar de melhor filme recentes, como "Moonlight" e "Parasita", já indicavam que a mentalidade da Academia está mudando.

Além disso, os filmes produzidos com intenção de chegar ao Oscar são pensados e lapidados para agradar aos membros da Academia —o que prova que uma trava a determinadas histórias sempre existiu. Agora, elas estão no papel e, claro, refletem os tempos de rebuliço social atuais, de uma maneira muito mais transparente.

“Nós temos que entender que a obrigatoriedade será apenas para duas das quatro exigências elencadas pela Academia, portanto, não há obrigatoriedade em seguir todas elas, o que poderia causar certo melindre por parte dos mais conservadores, que alegam o cerceamento da arte”, diz ainda Andréa Cotrim Silva, pesquisadora de questões raciais e de gênero no cinema.

“Essas medidas permitem que uma narrativa que se passa na Escandinávia, por exemplo, possa manter um elenco formado majoritariamente por pessoas brancas, desde que a produção fora dos sets seja composta por uma equipe mais diversa.”

Em estudo recente, o grupo americano Annenberg Inclusion Initiative examinou os cem filmes de maior arrecadação do ano passado e identificou que só 34% dos personagens com falas eram mulheres. Já na cadeira de direção, só 12 longas eram comandados por elas.

Barry Jenkins recebe o Oscar de melhor filme de "Moonlight", filme com elenco negro e que com temática LGBT
Barry Jenkins recebe o Oscar de melhor filme de "Moonlight", filme com elenco negro e que com temática LGBT - Lucy Nicholson/Reuters

Entre os outros dados divulgados, estão os de que 2,3% dos personagens com falas da lista tinham alguma deficiência e só 1,4% eram LGBTs. Para entender a desigualdade em relação a raça e etnia, nem é preciso ir muito além do Oscar —de todas as 336 estatuetas de atuação já concedidas, 19 foram para negros, 5 para latinos, 3 para amarelos, enquanto árabes e indígenas venceram uma única vez.

“Quando nós temos vários filmes, de gêneros diferentes, que não conseguem mostrar diversidade, temos o reflexo de um problema social muito sério”, afirma Cotrim Silva. “Por isso, essa decisão é uma maneira de mexer com as estruturas, ainda que os resultados levem algum tempo para serem percebidos.”

Em entrevista à revista americana Hollywood Reporter nesta semana, um grupo de diretores da Academia falou sobre as novas regras. Em relação às respostas negativas recebidas, o produtor DeVon Franklin concordou que as diretrizes não são perfeitas, mas são um passo importante.

“Isso não é sobre restringir a criatividade, é sobre elevar. Nós dedicamos muito tempo, esforço e comunicação para ter certeza de que haveria certa flexibilidade nas normas", disse à publicação. "E, em relação a elas não irem longe o suficiente, nós estendemos. Mas nós não queríamos que a perfeição entrasse no caminho do progresso, e nós achamos, sim, que isso é progresso.”

*

As novas regras

Representação nas telas, temas e narrativas
Deve obedecer a pelo menos um dos critérios abaixo

- Pelo menos um protagonista ou coadjuvante relevante precisa pertencer a uma minoria racial ou étnica (asiáticos, hispânicos/latinos, negros, indígenas, árabes, nativos do Havaí ou das ilhas do Pacífico);
- Pelo menos 30% do elenco precisa pertencer a dois dos seguintes grupos: minoria racial ou étnica, mulher, LGBT ou pessoas com deficiência;
- A trama precisa ser centrada em um dos grupos citados.

Liderança criativa e equipe do projeto
Deve obedecer a pelo menos um dos critérios abaixo

- Pelo menos duas pessoas dos grupos citados (sendo que pelo menos uma delas deve integrar uma minoria racial ou étinica) devem exercer os seguintes cargos de liderança ou chefiar os seguintes departamentos: diretor de elenco, fotógrafo, compositor, figurinista, diretor, montador, cabelo e maquiagem, design de produção, decoração de set, som, supervisor de efeitos especiais, roteirista;
- Pelo menos seis membros da equipe de produção em cargos técnicos precisam aos grupos citados;
- A composição geral da equipe precisa ter 30% de pessoas dos grupos citados.

Acesso à indústria e oportunidades
Deve obedecer aos dois critérios abaixo

- A distribuidora ou empresa por trás do filme contratou estagiários e aprendizes assalariados que integram os grupos citados;
- A empresa por trás do filme oferece oportunidades de emprego ou aprendizagem para pessoas que integram os grupos citados.

Desenvolvimento de público
Deve obedecer ao critério abaixo

- O estúdio precisa ter diversos executivos e pessoas em cargos de liderança nas áreas de marketing, publicidade e distribuição que pertençam aos grupos citados.

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