Pinturas dos encapuzados do Ku Klux Klan detonam a mais nova polêmica na arte

Museus dos EUA e do Reino Unido adiam mostra com famosas telas de Philip Guston, ativista antirracismo

Pintura de Philip Guston mostra homens encapuzados do Ku Klux Klan

Pintura de Philip Guston mostra homens encapuzados do Ku Klux Klan Reprodução

São Paulo

A recente decisão de quatro museus importantes de adiar para 2024 uma exposição do pintor modernista Philip Guston que estava agendada para começar no início do ano que vem, na Tate Modern, em Londres, está causando uma grita entre intelectuais e críticos de arte.

Batizada “Philip Guston Now”, ou Philip Guston agora, a mostra com 125 pinturas e 70 desenhos trazia uma controversa série de telas dos anos 1960 nas quais o canadense que se radicou nos Estados Unidos retratava membros do movimento racista Ku Klux Klan em linguagem de desenho animado —o que parece ter sido julgado inapropriado pelos museus num ano em que o movimento “Black Lives Matter” ganhou relevância mundial.

Num comunicado conjunto divulgado há alguns dias, os diretores da Tate Modern, da National Gallery de Washington, do Museu de Belas Artes de Boston e do Museu de Belas Artes de Houston, as quatro casas por onde a mostra passaria, afirmaram que estavam adiando a exposição “até o momento em que acharmos que a mensagem de justiça social e racial que está no centro do trabalho de Philip Guston possa ser mais claramente interpretada”.

Obra de Philip Guston retrata homens encapuzados da Ku Klux Klan - Reprodução

A decisão vem sendo vista pelo meio artístico como se as instituições quisessem evitar a discussão pública sobre racismo trazida por um artista branco, que em diversos momentos de sua carreira lidou com o tema em suas telas.

“Acho que foi uma decisão terrível. Se temos um grande problema racial, o que nós temos, então por que você interrompe a conversa justamente no momento em que ela pode começar numa nova e interessante direção?”, questiona o crítico americano Robert Storr, que acaba de lançar uma biografia do pintor, pensada para chegar às livrarias no momento de abertura das exposições.

Um dos críticos e curadores mais importantes de sua geração, Storr acredita que a pressão pelo cancelamento partiu do museu de Washington. Segundo ele, embora haja movimentos racistas no Reino Unido, as imagens do Ku Klux Klan são um problema maior nos Estados Unidos e por isso não haveria razão para a Tate não querer exibir a mostra.

Mark Godfrey, curador da Tate envolvido há anos na produção da exposição, escreveu numa rede social que a suspensão tem menos a ver com o trabalho de Guston e mais com a falta de fé das instituições em seus curadores e no intelecto do público. O adiamento é “provavelmente motivado pelo desejo de ser sensível às reações imaginadas de determinados espectadores e por medo de protestos”.

Uma das obras mais polêmicas da mostra, “The Studio”, ou o estúdio, mostra o Klansman —a figura coberta dos pés a cabeça por um traje branco, símbolo do movimento— pintando um autorretrato diante de um cavalete, como se fosse um artista. Outra tela, “Riding Around”, ou andando por aí, retrata três membros da KKK fumando um cigarro tranquilamente, enquanto passeiam de carro.

Envolvido em movimentos de esquerda desde muito jovem, Guston começou sua carreira com pinturas figurativas na década de 1930, nas quais já retratava de forma crítica o KKK, grupo com o qual teve contato em Los Angeles, e os linchamentos que os negros sofriam naquele período nos Estados Unidos.

Ele em seguida se dedicou ao expressionismo abstrato, movimento que abraçou até os anos da Guerra do Vietnã, quando fez uma revolução pessoal e passou a se questionar porque deveria "ajustar o vermelho a um azul" enquanto o mundo pegava fogo. Influenciado pela agitação social do final da década de 1960, voltou seu olhar mais uma vez à arte figurativa.

O retorno foi marcado por trabalhos que satirizavam o presidente americano Richard Nixon e punham o racismo em foco com novas pinturas do KKK. A ideia era mostrar os Estados Unidos em conflito com a sua promessa democrática, ele disse à época. Guston morreu em 1980, aos 66 anos.

Depois do adiamento da mostra, curadores americanos publicaram uma carta aberta na qual pedem que colecionadores, curadores e críticos de arte não emprestem mais obras de arte e não prestem trabalhos aos quatro museus envolvidos, até que as instituições revejam suas decisões.

Musa Mayer, filha do artista, também criticou a decisão dos museus. Ela disse que "essas pinturas vão ao encontro do momento em que estamos hoje" e que "o perigo não está em olhar para a obra de Philip Guston, mas em desviar o olhar”.

Storr teme ainda que o adiamento da mostra manche injustamente o trabalho de um artista pioneiro em lidar com o racismo. “É uma falha completa da responsabilidade institucional com o artista e especialmente com o público. Você está privando as pessoas de pensarem de novas maneiras sobre algo que já está na cabeça delas.”

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