Descrição de chapéu
The Wall Street Journal

Por que o cabelo de Jimi Hendrix continua influenciando rebeliões

Cinco décadas após sua morte, músico ainda é inspiração para milhares de pessoas com cabelos afro

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Wilbert L. Cooper
The Wall Street Journal

Para mim, o cabelo em estilo afro sempre foi um penteado de transição —um pit stop no caminho de raspar os cabelos bem rente ao crânio ou usar cornrows ou dreadlocks. Mas quando o lockdown do coronavírus fez com que sair de casa para cortar, trançar ou cuidar do penteado do meu cabelo se tornasse uma irresponsabilidade, fui forçado a adotar o estilo afro ao meu modo.

Para fazer isso do jeito certo, me inspirei na nova leva de caras que estão usando seu cabelo alto e cheio com o maior orgulho —do astro do futebol americano e ativista Colin Kaepernick, e seu penteado afro esférico ao estilo de Huey P. Newton, ao dramaturgo Jeremy Harris, cuja juba canaliza o espírito criativo indomado de Jimi Hendrix. As duas abordagens evocam com sucesso a história de um estilo de penteado que resume o autorrespeito e a rebelião.

Homem negro com cabelo black power toca guitarra
Guitarrista Jimi Hendrix em show no parque Gröna Lund, na Suécia, em 24 de maio de 196 - AFP

Embora o penteado afro invoque o afrocentrismo, a maioria dos ancestrais dos americanos negros não teria usado esse tipo de penteado.

Na cultura iorubá do oeste da África, região de origem de muitos dos americanos descendentes de escravos, os homens no século 17 usavam os cabelos curtos, em um estilo que faz recordar o corte rente moderno.

Quando os europeus chegaram à região para capturar esses homens, os cabelos crespos dos cativos passaram a ser usados como traço que os separava de uma sociedade livre e justificaria o tratamento desumano infligido a eles.

Alguns dos relatos mais antigos sobre o uso do estilo afro nos Estados Unidos são encontrados em “notificações sobre escravos” escritas por traficantes de pessoas brancas que buscavam recapturar seus “bens móveis” fugitivos.

Citando um estudo de autoria de Shane White e Graham White, publicado em 1995, a historiadora social Emma Dabiri, autora de “Don’t Touch My Hair”, propõe a teoria de que “restrições violentas ao tempo e ao uso de instrumentos necessários para que as pessoas cuidassem do cabelo” resultaram no surgimento desses estilos “bastos” e “notavelmente altos”. Mas, quando as pessoas escravizadas passaram a enfatizar seu look já volumoso, usar um penteado afro alto se tornou “um ato de desafio”.

No final do século 20, os jovens começaram a adotar o estilo afro nos cabelos, em rebelião contra as normas que pregavam alisamento ou corte dos cabelos a fim de parecerem mais eurocêntricos.

Desde então, revistas de moda, filmes e a publicidade de TV celebram e parodiam esses looks black power da década de 1970 —do cabelo basto às jaquetas de couro dos Panteras Negras e camisas de poliéster estampadas de roqueiros como Hendrix e Sly Stone—, de uma maneira que prioriza a estética e apaga a política e a história.

Essa nostalgia propelida pelo comercialismo me fez ponderar se o estilo afro havia perdido sua dinâmica iconoclastia. Mas no final de maio, quando entrei em quarentena e aderi aos protestos contra a execução extrajudicial de George Floyd, me deparei com provas de que o estilo de cabelo que adotei continua a servir como símbolo político.

Quando eu saía às ruas com meu cabelo volumoso, as pessoas que o viam como personificação da resistência me fotografavam e saudavam. E, nas marchas de protesto, eu também sentia medo de que o espaço que o ele ocupava pudesse me tornar alvo dos cassetetes de policiais excessivamente zelosos.

Essa preocupação não é novidade para Karma Knows, de 25 anos, o eclético artista de hip-hop que vem usando o penteado afro superdimensionado que o caracteriza com um pente plástico espetado desde a época do ginásio. O rapper, cujo nome de batismo é Kyle Schmoetzer, conserva seu afro com uma lavagem a cada sete ou dez dias, uso de condicionador que ele não enxagua, e ocasionais banhos de óleo de coco. Ele começou a usar o estilo porque “todas as meninas amavam”. Mas hoje ele sente que o penteado representa “ser negro e orgulhoso disso”.

“As pessoas sabem instantaneamente de que lado estou ao verem meu cabelo. Amo isso. É como um protesto pacífico”, disse ele. No entanto, professores e empregadores raramente curtiam o estilo, o que o fez ficar exposto a perseguições e, em sua opinião, lhe custou oportunidades de emprego. Sugeriam que eu aparasse um pouco o cabelo, o deixasse mais careta."

Mas a resistência que ele encontrou só alimentou sua persistência. "A experiência me tornou mais forte e me fez ter a convicção de que não vou aparar o cabelo. Nunca.”

Rachel Johnson, estilista de moda que trabalha em Englewood, no estado americano de Nova Jersey, e cujos clientes incluem Kaepernick, sabe muito sobre as maneiras pelas quais um penteado afro pode estigmatizar um homem.

Depois que a National Football League, NFL, baniu Kaepernick por conta de seus protestos contra o racismo e a brutalidade policial, o quarterback teve de ouvir apelos da Michael Vick, ex-jogador da NFL, para que cortasse o cabelo, a fim de parecer menos ameaçador.

Mas, para Johnson, esconder o cabelo não é a resposta. “Nosso estado natural foi politizado, transformado em arma, demonizado”, disse ele. “Mas, a esta altura acho que o certo é sermos exatamente quem somos."

Só posso concordar. Ainda que o pessoal agora esteja correndo ao barbeiro para aparar seus penteados da quarentena, eu vou manter meu look do lockdown. Como aconteceu no caso de Hendrix, meu penteado afro continuará a ocupar espaço.

Tradução de Paulo Migliacci

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