Descrição de chapéu The Wall Street Journal Cinema

Produção de 'Missão Impossível' tenta explodir ponte polonesa e é criticada

Realizadores do sétimo filme da série protagonizada por Tom Cruise causam polêmica em cidade pequena

Drew Hinshaw Natalia Ojewska
Polônia | The Wall Street Journal

A missão parecia improvável, se não impossível: convencer os moradores de uma cidadezinha polonesa a permitir que Tom Cruise explodisse sua ponte.

Em janeiro, um especialista em locações de Hollywood chegou à cidade de Wleń (que tem 1.759 habitantes) com a missão de obter uma estrutura que Cruise pudesse explodir no sétimo dos filmes da série “Missão Impossível”. A cena envolveria derrubar dentro um lago um trem viajando a 100 km/h.

Uma ponte ferroviária abandonada nos limites da cidade atendia às especificações. A Paramount Pictures repararia a estrutura, e em seguida a explodiria. Depois, ajudaria a financiar uma nova ponte, para a passagem de trens que trariam fãs de cinema para ver o local, disse Robert Golba, o especialista em locações cinematográficas, ao prefeito da cidade. “Bilhões de pessoas assistirão ao filme”, disse Golba.

Em agosto, a situação ferveu.

Quando a notícia começou a se espalhar, primeiro na cidadezinha e em seguida pela Polônia, os moradores explodiram de raiva, decididos a proteger a ponte histórica que até aquele momento eles não prestavam muita atenção.

A ponte de Pilchowice tem um século de idade e está enferrujada. Seu piso de madeira está solto, e os trilhos estão tortos. Há copos de papel usados espalhados por toda parte, e sua travessia por pedestres está proibida. A estrutura está debilitada demais para permitir a travessia de trens.

Passagem de ponte com árvores ao fundo
Ponte Pilchowice, na Polônia - Ralfik D - stock.adobe.com

Mas para a cidade e um grupo pequeno dedicado a preservar velhas ferrovias, ela precisa ser salva a qualquer custo.

“Essa ponte, em particular, é um monumento extraordinário: é a ponte ferroviária mais alta da Polônia”, disse Marcin Drews, um produtor de vídeos local cuja especialidade é documentar estruturas abandonadas.

“Digamos que o diretor de cinema mais famoso da Europa quisesse filmar uma produção superfamosa em Nova York e para os propósitos do filme ele precisasse explodir a cabeça da estátua da Liberdade. Os americanos diriam que tudo bem, esse é o caminho para promover nossa cultura na Europa?”

A ponte se tornou uma atração, no verão europeu em curso, atraindo duas vezes mais movimento de turistas do que costuma normalmente, já que muita gente decidiu visitá-la para vê-la talvez pela última vez. Cerca de 15 mil pessoas assinaram uma petição pedindo intervenção do governo.

Em carta ao ministério cultural da Polônia, a embaixada dos Estados Unidos pediu que o governo colaborasse com alguns dos produtores envolvidos, embora não tenha expressado uma posição oficial americana sobre a destruição da ponte. Representantes do governo polonês assumiram posições contraditórias.

Golba, o especialista em locações, diretor da Alex Stern, uma empresa de serviços de produção cinematográfica, está preocupado por sua tarefa ter se tornado muito mais difícil. “Ninguém se importava com a ponte até agora”, disse ele.

Um assistente de Cruise não respondeu a pedidos de comentário sobre o assunto.

Em declaração, Christopher McQuarrie, o roteirista e diretor do filme, disse que só queria explodir a seção central da ponte. E de qualquer forma ela teria de ser destruída e reconstruída, para restaurar o serviço ferroviário. “Em resumo, para abrir a área ao turismo a ponte precisa ser demolida”, escreveu ele. “E 'Missão Impossível' —cuidado com o spoiler— explodiria parte da ponte."

“Respeitar e celebrar os lugares em que filmamos é parte de nosso objetivo", continuou ele. "A produção jamais fará qualquer coisa que possa danificar um marco histórico significativo.”

Segundo Daniel Gibski, a ponte não precisa necessariamente ser destruída para ser consertada, assistente do diretor regional de conservação de monumentos históricos em Wroclaw, uma grande cidade próxima. Ele se opõe à filmagem, da cena: “Não quero nem falar sobre essa atitude neocolonialista quanto à Polônia.”

Cenas perigosas rodadas com os atores reais do filme é uma das formas pelas quais Cruise divulga os filmes “Missão Impossível”.

Cruise, de 58 anos, interpreta Ethan Hunt, integrante da Impossible Missions Force, que persegue vilões variados em todo o planeta. A emoção vem de ver Cruise em pessoa —e não um dublê— escalando o Burj Khalifa, em Dubai (como ele fez no quarto filme da série), ou voar pendurado de um avião de carga militar (no filme seguinte), ou pilotar um helicóptero sobrevoando o Himalaia (uma cena do sexto filme). A série gerou alguns dos maiores sucessos de crítica e bilheteria da Paramount.

“Temos de forçar os limites”, disse Wade Eastwood, o coordenador de cenas de ação da série.

A cena planejada para a ponte é uma citação ao que muita gente considera como a sequência mais cara da era do cinema mudo: o clímax de “A General”, de 1926, no qual uma ponte do Oregon desaba sob uma locomotiva em alta velocidade. Aquela equipe de filmagem deixou só ruínas ao partir.

Homem de costas para trem em movimento
O ator Buster Keaton no filme "A General" - Divulgação

Em Wlén, muitos dos moradores encaram a ideia com ceticismo. “Vivi por tempo demais para acreditar que, depois que a ponte for explodida, eles vão consertá-la”, disse Teresa Marianna, de 76 anos.

A ponte de Pilchowice esteve entre as últimas grandes realizações do imperador alemão Guilherme 2º, que liderou uma parada militar por ela em 1912, pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, soldados nazistas em fuga diante de uma ofensiva soviética, na Segunda Guerra Mundial, tentaram explodir a ponte mas só a danificaram levemente.

Com a retirada das forças alemãs, Stálin e Churchill transferiram o território libertado para a Polônia. O regime comunista do país manteve o sistema ferroviário do país em operação até que um novo regime capitalista iniciou a construção de rodovias, nas décadas de 1990 e 2000, o que resultou na decadência do tráfego e da ponte ferroviária.

E então o produtor de cinema polonês Andrew Eksner foi informado de que Tom Cruise precisava de uma ponte.

A embaixadora dos Estados Unidos, Georgette Mosbacher, escreveu em setembro ao Ministério da Cultura da Polônia para ajudar Eksner a trazer produções de Hollywood para o país. “Eu apreciaria muito se vocês oferecessem apoio a Eksner e aos executivos”, ela escreveu.

Em 20 de novembro do ano passado, um gerente de produção de “Missão Impossível” encaminhou especificações a Eksner por email: “Queremos filmar um acidente de trem em escala natural.”

Passadas 24 horas, as ferrovias públicas polonesas propuseram que Eksner tentasse a ponte Pilchowice.

O encarregado de locações para o filme amou a ponte. Em um email repleto de erros de ortografia encaminhado a Eksner, ele pediu: “Você poderia verificar e determinar se existe possibilidade definitiva de explodir a ponte e também quais são as preocupações [das autoridades] quanto ao trem cair na água?”

Enquanto Eksner se encarregava de obter essas informações, um rival entrou na jogada. Em dezembro, Golba foi contratado para fazer o trabalho que Eksner esperava que a Paramount lhe atribuísse.

Golba tinha um currículo relevante. Seu projeto mais recente havia sido “Ponte dos Espiões”, embora ele não tenha participado da obtenção da ponte em torno da qual gira o filme de Steven Spielberg. O trabalho dele era obter para o diretor um tanque de guerra soviético T-55A.

Rejeitado, Eksner informou a amigos sobre os planos de destruir a ponte, na rodagem do filme. Em março, as organizações preservacionistas locais já tinham sido informadas e começaram uma campanha para que a ponte fosse classificada como patrimônio histórico. A questão ficou em ponto morto até que uma petição a respeito ganhou circulação viral, no final de julho. A ponte se tornou notícia nacional, na Polônia.

“A situação da ponte Pilchowice se tornou um pouco mais complicada”, afirmou em email aos produtores um funcionário da companhia ferroviária estatal polonesa, este mês, propondo algumas alternativas.

Cruise ainda está à procura de uma ponte.

Em uma tarde recente, havia turistas em visita à ponte Pilchowice, até recentemente vazia: famílias, adolescentes, um fotógrafo amador e uma equipe de cinema polonesa que estava rodando um filme infantil.

“O que eles não sabem é que nós vamos explodir a ponte e colocar a culpa nos americanos”, brincou um membro da equipe.

Tradução de Paulo Migliacci

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