Descrição de chapéu

Só mesmo no Leblon de Manoel Carlos o Rio de Janeiro continua lindo

No ar com duas reprises, roteirista criou uma redoma contra o 7 a 1 que a cidade levou

O carioca gosta muito do mate com limão vendido em galões na praia. Um belo dia, descobre que há ali mais coliformes fecais do que jovens chamados Enzo se aglomerando em plena pandemia nos bares do Leblon.

O que ele faz? Tapa os ouvidos, canta "lá, lá, lá" e pede um biscoito Globo para harmonizar com a bebida. Se fingir que está tudo bem, quem sabe ele não terá um dia de literal bosta, acredita o cidadão.

Também as novelas de Manoel Carlos funcionam como repelente psicológico contra uma realidade difícil de engolir. Se fora das telas a capital fluminense não vai bem, nas tramas de Maneco o Rio de Janeiro continua lindo, o Rio de Janeiro continua sendo.

Mas a cidade maravilhosa não é mais, se é que algum dia foi, aquele desbunde retratado pelo roteirista que escolheu seu bairro, o Leblon, como um protagonista tão forte quanto as nove Helenas que lideraram seus folhetins (só Regina Duarte interpretou três delas).

Hoje é possível rever Maneco em duas reprises simultâneas, "Mulheres Apaixonadas", de 2003, no Viva e "Laços de Família", de 2000 e 2001, na Globo. O roteirista encerrou a carreira com "Em Família", de 2014. O último episódio foi exibido no dia 18 de julho, dez dias após a seleção brasileira levar uma sova alemã, jogando em casa na Copa do Mundo.

O 7 a 1 bem que serviu de prenúncio para as goleadas que o país sofreria nos anos seguintes, e o Rio levou mais frangos do que qualquer um.

Recrudescimento das milícias. Incêndio que matou dez talentos mirins do maior de seus times, o Flamengo. Seis crianças mortas só no ano passado, vítimas de bala perdida com GPS para negros e pobres. Três pré-candidatos a prefeito alvos de operações num intervalo de quatro dias, todos por suspeita de corrupção –Marcelo Crivella, o detentor atual do cargo, Eduardo Paes, o ex, e Cristiane Brasil. Água podre com geosmina. Pipoca gourmet com pinça. Para a tragédia grega à carioca não há limites.

Maneco tentou ser o Woody Allen do Leblon. Sem o olhar cínico do nova-iorquino, seu universo ficcional virou a redoma perfeita para uma parcela da sociedade que, tal qual uma máscara no queixo, não sabe lidar com a pandemia social que o Rio de Janeiro enfrenta há anos.

Na fábula leblonina, empregadas domésticas uniformizadas existem como alívio cômico para os dramas do patronato e romances se desenrolam em livrarias charmosas como a Dom Casmurro do livreiro que Tony Ramos vive em "Laços de Família", daquelas que vendem mais café do que livro (hoje seria um frappuccino decaf que custaria a bagatela de uma cédula do lobo-guará).

"A elite quer se sentir segura. Quer continuar vivendo no mundo da novela de Manoel Carlos. E lá não existe sangue, tiro, preto", diz Thainã de Medeiros, "faveleker" e ativista do Coletivo Papo Reto, do Complexo do Alemão. "O Rio é a cidade idealizada, mas que de maravilhosa não tem nada."

Numa cena icônica de "Mulheres Apaixonadas", uma das personagens morre num tiroteio no meio do bairro com metro quadrado mais caro da cidade. Quando foi gravada, 17 anos atrás, só se falava nela.

Se algo similar ocorresse hoje, é capaz do morador, já mais anestesiado com as mazelas que antes faziam a gentileza de ficar só no subúrbio, achar o episódio mais banal do que Caetano Veloso estacionando o carro no Leblon. Isso sim é notícia.

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