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Janan Ganesh

'Tenet' escancara a grave crise de imaginação nos estúdios de Hollywood

Novo filme de Christopher Nolan mostra como a indústria do cinema americano está perdendo poder

Janan Ganesh
Financial Times

Os cinemas de Washington estão fechados e, por isso, tive de ir à Virgínia para saborear “Tenet”, de Christopher Nolan. O que se desenrola na grande tela do cinema Imax é uma lição sobre o potencial moderno dessa forma de arte. Destreza autoral e a mais recente tecnologia agora tornam possível compreender uma em cada sete —às vezes até uma em cada quatro— palavras do diálogo.

“Ehhnnxsbdeqr pasjudhghdhnd egefed inversão hdgdebhdud”, diz Robert Pattinson, e quem ousaria o contrariar?

O filme no qual Hollywood apostou seu futuro pós-vírus tem falhas que vão além de seu bizarro som subaquático. O tema central da história —reversão de tempo— é mais ou menos 10% tão interessante quanto Nolan imagina que seria.

Já no que tange às barrocas reviravoltas da trama, confusão é aceitável desde que as audiências acreditem que existe uma ideia central que vale a pena deslindar. Como costuma acontecer no caso de discos de rock progressivo, no entanto, “Tenet” é um caso de elaboração exagerada a serviço de um conceito fraco demais.

Mas o que mais estraga a experiência é o quanto tudo parece repetitivo. Há uma bomba-relógio tiquetaqueando. Uma donzela em perigo. Esnobes britânicos e vilões russos. (Já fui a lojas de malas que vendem canastras menores que os exageros de Kenneth Branagh em seu papel.)

Nolan talvez seja o mais criativamente ambicioso dos artistas que trabalham para o mercado de massa em nosso jovem século. Se até ele precisa recuar a clichês narrativos, a crise de imaginação em Hollywood parece ser tão grave quanto dizem.

Os problemas comerciais do filme são ainda mais prementes. Embora as bilheterias tenham sido decentes nos mercados menores, “Tenet” fracassou nos Estados Unidos. É difícil superestimar a nuvem de pavor que está se formando ao redor do setor, com a chegada dos números do filme.

Talvez Washington devesse estar coberta pela mesma nuvem. O declínio de Hollywood costuma ser registrado em geral como fenômeno cultural. Mas é possível que seja também um fenômeno geopolítico.

Os Estados Unidos imperaram no século passado principalmente por conta da tonelagem bruta de seus arsenais, claro, mas também pelo domínio que exerciam sobre as imagens em movimento. Mais de uma década antes do Dia D ou da conferência de Bretton Woods, os Estados Unidos já exerciam um domínio psíquico sobre o restante do planeta. Lá estava um país capaz de ser a um só tempo isolacionista e, de alguma forma, imperial.

Ao longo da Guerra Fria, não importa qual fosse a profundidade do cinema soviético, as mercadorias de Hollywood pareciam mais imediatas que, digamos, as oferecidas por Andrey Tarkovsky, e sua distribuição era incomparavelmente superior. Que outros polos da indústria cinematográfica internacional precisassem recorrer a trocadilhos cretinos com relação ao americano (Bollywood, Nollywood) representava uma espécie de tributo, no sentido romano do termo.

Agora que os Estados Unidos estão iniciando uma nova rusga com o outro comunista, é importante que Holywood já não seja o ativo estratégico que foi no último confronto. Sua escassez de histórias originais (o novo filme da série X-Men é a 13ª adaptação) certamente não representa um sinal de vitalidade cultural.

A fraqueza do mercado interno americano também incentiva os estúdios a tornar seus filmes menos americanos a fim de satisfazer os consumidores estrangeiros. Há mais de Mumbai e de Hampstead em “Tenet” do que do imaginário americano. E embora se trate de uma espécie de filme de espionagem, o inimigo, reveladoramente, não é um Estado estrangeiro, mas sim um nebuloso “futuro”.

Imagine um blockbuster da Warner, mesmo apenas dez anos atrás, que abrisse mão com tanta facilidade de seu aspecto territorial.

Quanto à China, a audiência de seus cinemas deve em breve superar a dos Estados Unidos em termos de faturamento bruto. Os argumentos comerciais em favor de censurar qualquer coisa que desagrade aos chineses se tornam cada vez mais irrebatíveis. Acostumados a ditar normas culturais, os estúdios dos Estados Unidos agora estão tendo de se adaptar às normas de outros lugares.

Uma esperança é que as plataformas de streaming venham a substituir Hollywood como eixo do soft power americano.

Mas esse é um reino muito mais fragmentado –a Netflix não está disponível oficialmente na China. E as séries dramáticas dos serviços de streaming, pelo menos as do tipo em que os Estados Unidos se saem muitíssimo bem, são uma forma verbosa por natureza, muito menos atraente para as audiências não-anglófonas do que o cinema e seu imediatismo visual.

Só um chato classificaria o cinema de Hollywood no século 20 como uma fábrica de propaganda patriótica –houve filmes que criticassem mais seu próprio país do que as produções americanas da década de 1970? Mesmo assim, eles ajudaram a estabelecer a linguagem, os vieses e as sensibilidades do país como paradigma mundial, sem o uso da força.

Nenhum outro império teve um ativo comparável. “Vivemos em um mundo crepuscular” é uma frase muito repetida em “Tenet”. Se o Sol está se pondo em Hollywood, ele está se pondo sobre uma forma específica de poder americano.

Tradução de Paulo Migliacci

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