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Livros

Voz singular de Maria Lúcia Alvim retorna depois de longa ausência

Reflexão da poeta prefere, ao invés dos grandes temas universais, os elementos rotineiros do campo

Amador Ribeiro Neto

Mestre pela USP e doutor pela PUC-SP, é professor titular aposentado do curso de letras da Universidade Federal da Paraíba.

Batendo Pasto

  • Preço R$ 42 (136 págs.)
  • Autor Maria Lúcia Alvim
  • Editora Relicário Edições

A vida tem desses encantos. Uma poeta entrega seu livro a fulano com a indicação de que seja publicado só depois de sua morte. Fulano mostra o livro a sicrano, que convence a poeta a publicar em vida. A poeta é Maria Lúcia Alvim. Fulano, Paulo Henriques Britto. Sicrano, Ricardo Domeneck. O livro, "Batendo Pasto".

Maria Lúcia Alvim nasceu na cidade de Araxá, em Minas Gerais. Hoje vive em Juiz de Fora e em outubro completará 88 anos. Irmã de Maria Ângela Alvim e de Francisco Alvim, forma a trindade da família Alvim na poesia contemporânea brasileira.

Seus cinco primeiros livros passaram praticamente em branco. Mereceram registro quando integraram a coleção "Claro Enigma" no volume "Vivenda (1959-1989)". Depois disso, nada mais publicou. Guilherme Gontijo Flores, no prefácio, não deixa de se espantar com o longo tempo em que ela esteve ausente da cena literária nacional. Justo ela, uma de nossas vozes mais singulares.

maria lúcia com mãos nas bochechas e olhos fechados
A poeta mineira Maria Lúcia Alvim - Sebastião Rocha Reis/Divulgação

Em "Batendo Pasto", a sonoridade e o vocabulário do campo, uma quase semântica rural, são marcas constantes. Há nos poemas, como “Litania da Lua e do Pavão”, um ludismo sonoro do tipo trava-línguas, palavra puxa palavra, jeito infantil de brincar com os sons, jeito onírico de lidar com o corpo das palavras, quase surreal, intertexto literário e mitológico. Mais as delícias de todas as idades –os neologismos.

Entre versos livres, sonetos, tercetos, quadras, sextilhas, Alvim espalha ternura, humor e ironia. “O amor/ do galo e da galinha/ ele/ bélico/ ela/ abúlica.” A inusitada união sentimental entre aves do quintal é por si hilária. Ao mesmo tempo, vogais abertas e rimas toantes de palavras proparoxítonas reverberam o exótico e o trivial com o sarcasmo do galo guerreiro e a falta de disposição da galinha. Sugestão de torneio galináceo em quintal mineiro.

Em outro poema, de só dois versos, o eu se descontrói diante do desconhecido. “Pleitear o Mistério me deixou desfigurada./ –Ninguém te viu, tiziu." A linguagem vai da contemplação do mistério ao salto concreto do pássaro tiziu. Ou, quem sabe, da contemplação à mera interjeição do dito popular. “Ninguém te viu, tiziu.” De toda forma, o eu se desestrutura em parcas palavras.

Dentre os aforismos, a reflexão filosófica prefere, em vez dos grandes temas universais, os elementos rotineiros do campo, a cobra, o rio, a noite.

“Fui mordida de cobra assim no limpo.” “Vou remando, aluada, vou luxando.” “Candiar é questão de afinamento.” Vocábulos e expressões rurais com sentidos, muitas vezes, além dos dicionarizados. O uso particularizado do advérbio assim, ampliando a extensão geográfica do espaço; o verbo luxar enquanto desfrutar; candiar como prover o lampião de combustível et cetera.

Quando se toma o curral como realidade bruta, palpável, olfativa e até incômoda, ali a poeta enxerga o avesso. “Curral/ é onde o real/ passa por cima.”

“Angelim” possui só um verso. A concisão pipoca com a beleza das flores da imensa árvore que empresta seu nome ao poema. “O carinho é um outro caminho do corpo.”

A palavra “outro” divide o verso ao meio. Ela é seu eixo. Ela permite permutabilidade do "R" e do "M" das palavras carinho e caminho. Com o movimento rotatório do eixo se tem a perenidade dos sentimentos aos quais o poema se refere.

Vocabulário do campo, uso de línguas estrangeiras (e mortas, como o latim), neologismos, humor, amor, erotismo, jogos sonoros, jogos de ideias, aforismo, irreal, o concreto e o inesperado. Eis um pouco de Maria Lúcia Alvim. Uma poeta que tem o que dizer. E a forma feliz de o dizer.

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