Descrição de chapéu

Ai Weiwei retrata dor e rudeza no México e na China em dois filmes

'Vivos' relata o desaparecimento de estudantes, e 'Coronation' observa a luta contra a pandemia em Wuhan

Coronation

  • Quando de quinta (22) às 20h até 4/11
  • Onde Mostra Play (plataforma online da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)
  • Preço R$ 6 por visualização
  • Produção China
  • Direção Ai Weiwei

Vivos

  • Quando de quinta (22) às 20h até 4/11
  • Onde Mostra Play (plataforma online da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)
  • Preço R$ 6 por visualização
  • Produção Alemanha e México
  • Direção Ai Weiwei

É possível ver Ai Weiwei pelo fato de ser um dissidente, opositor do governo chinês. É o lado que o celebrizou de uma hora para outra. Mas ele parece longe de ser um desses personagens unidimensionais que irrompem na mídia, servem a alguma visão de mundo e depois desaparecem.

Até onde foi possível ver, suas esculturas são pelo menos dignas como obras de arte. Não procuram se valer de demagogia barata como ponto de venda. No mais —antes de entrar em seus filmes—, é autor de uma frase preciosa, segundo a qual não existe Oriente e Ocidente –a Terra é redonda.

É uma estocada mortal no eurocentrismo que conforma até aqui a nossa visão de mundo. Traz implícita a visão de que “povos exóticos” como chineses, coreanos, hindus, ou simplesmente índios brasileiros mesmo, só são exóticos (ou “orientais”) porque vistos de longe e de fora.

Ai diz, com toda clareza, que as coisas já não se passam na era do avião a jato. O dito Oriente é tão central que a China, com Coreia, Japão e talvez até Vietnã, sejam hoje países desenvolvidos ou em rápido desenvolvimento.

É como defensor dos direitos humanos, sua principal bandeira, que Ai foi ao México para fazer “Vivos”, sobre o desaparecimento de um grupo de alunos do curso normal de uma escola rural. Todos eram filhos de camponeses (portanto pessoas extremamente pobres) e empenhados em se tornar professores.

São 43 jovens que desaparecem a caminho da escola, em 2014. Aos pais, da região de Iguala, o governo explica que o ônibus foi sequestrado por engano por traficantes que, para não serem descobertos, eliminaram os garotos. Não era inverossímil –42% da produção de heroína vêm dessa região, são escondidas em ônibus e remetidas aos Estados Unidos.

Mas, com jornalistas e advogados empenhados na preservação de direitos humanos, a versão oficial vem abaixo e começa a se demonstrar que, além dos traficantes, poderiam estar envolvidos a polícia local, a polícia estadual, a federal, e possivelmente o Exército.

Ai faz o filme a partir da dor dos familiares dos desaparecidos. O que o distingue é, sobretudo, o trabalho estético. Em cada casa, invariavelmente modesta, procura encontrar beleza. Não é tão difícil no barroco México.

Mas existe um empenho em revelar não só abstratamente a humanidade (e a dor) das pessoas, como essa humanidade se manifesta em seu cotidiano, nas roupas, nos rituais do trabalho, bem como nas manifestações que os pais fazem (cercados pela indiferença da população e funcionários) diante de órgãos oficiais, na Cidade do México.

Lembra um pouco o que as mães de argentinos desaparecidos durante a ditadura faziam na praça de Maio, em Buenos Aires, durante a ditadura argentina.

Mas a esperança de que isso dê em algo é bem menor. Quem liga para pobres camponeses, afinal?

“Coronation”, o outro documentário de Ai Weiwei nesta Mostra tem algo de mais preciso e imediato –a epidemia de Covid-19 ali onde começou, em Wuhan, China. O cineasta não deixa de observar a extrema rudeza como são tratadas as famílias das vítimas da doença, a impossibilidade de as ver, de celebrar seus mortos et cetera.

Visto hoje não parece diferente, em certos aspectos, do que acontece em outras partes do mundo, inclusive no Brasil. A diferença talvez esteja no rigor, não raro brutal, do governo chinês quanto às medidas de prevenção. Fora dos hospitais, o lockdown é severo. Os controles de exames, de realização das quarentenas, da identidade —tudo é controlado à maneira dos Estados policiais.

Dentro dos hospitais o rigor não é tão diferente assim. O exemplo mais chocante –um médico se prepara no vestiário para as tarefas que tem a realizar, o que inclui usar aquele traje de astronauta, entre outras. Quando está pronto para sair, sabemos que está sendo controlado por câmeras e, na cabine de uma sala preparada para isso, alguém logo chama a sua atenção. “Doutor fulano, o senhor precisa lavar as mãos.” E ele vai lavar as mãos.

Visto daqui (sejamos claros, da absoluta zona, do descaso com que se trata o fenômeno e do terrível número de casos e vítimas fatais), o documentário acaba pondo na surdina os possíveis excessos governamentais na tentativa de conter o vírus (ou seja, circunscrever o problema a Wuhan, naquele momento) e valorizando a capacidade chinesa (não só do governo, digamos) de efetivamente conter os efeitos brutais da pandemia.

Existe algo na civilização chinesa muito fascinante. Quando vista de cima, a cidade deixa uma impressão de vitalidade comparável apenas às das grandes cidades dos Estados Unidos.

Sim, Ai Weiwei está, ainda uma vez, preocupado com os direitos humanos, mas seu engajamento é com eles e não necessariamente contra o governo chinês. Nessa medida é que suas entrelinhas, e graças à honestidade do realizado —ao menos para nós, deixados na mão por um governo indiferente—, “Coronation” acaba sendo um paradoxal elogio dos meios nada delicados usados pelo governo de seu país.

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