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Cinema

Amor lésbico em 'O Chão sob Meus Pés' detona os clichês de modo sutil

Filme austríaco retrata a loucura em trama de tensão crescente sem descambar para o terror barato

O Chão sob Meus Pés

  • Onde Now e Vivo Play
  • Elenco Valerie Pachner, Pia Hierzegger, Mavie Hörbiger
  • Produção Áustria, 2019
  • Direção Marie Kreutzer

Disponível nos serviços de streaming Now e Vivo Play, o longa austríaco “O Chão sob Meus Pés” trabalha com a quebra de estereótipos. Não é um diferencial inédito no cinema, mas vira vantagem ao fazer essa quebra de maneira sempre sutil, sem grandes alardes.

Valerie Pachner interpreta Lola, uma mulher na casa dos 30 anos que trabalha como consultora financeira. A exemplo do que às vezes acontece com profissionais do ramo, Lola está sobrecarregada, esgotada e parece forte candidata à síndrome de burnout.

Além da carreira, ela lida ainda com a irmã Cornelia, diagnosticada com esquizofrenia e internada num hospital psiquiátrico. E Conny não é a única mulher da família a enfrentar problemas dessa natureza —a mãe delas também sofria de transtornos mentais, e as duas cresceram órfãs.

Diante desse histórico, é natural que Lola tenha medo de seguir pelo mesmo caminho. E tudo indica ser mesmo uma possibilidade quando ela começa a receber telefonemas de um número anônimo, supostamente feitos por Conny de dentro da instituição em que se encontra. Lola se questiona se as ligações são reais ou alucinação.

A diretora Marie Kreutzer, que já havia posto sua protagonista num universo profissional em grande parte masculino sem precisar eliminar sua feminilidade, quebra, então, as expectativas mais uma vez. O foco agora é a progressão da tensão na trama.

Assim, o que poderia se transformar num terror barato, se mostra uma armadilha habilmente construída só para confundir —e obviamente manter cativo— o espectador. A cena em que o elevador de Lola desce ao subsolo é um resumo dessa opção de Kreutzer, porque insinua uma condução que acaba nunca acontecendo.

Lola mantém um relacionamento com sua chefe Elise, vivida por Mavie Hörbiger. Quando, na metade do drama, ela descobre os problemas que Lola enfrenta além do escritório, não é só o namoro que estremece. A performance e a reputação da jovem também estarão em risco.

Pachner conduz com segurança sua personagem, mantendo constantemente uma expressão de angústia sem exageros. Sua construção desenha com elegância uma mulher que não relaxa nunca e que até na hora de fazer exercícios físicos se demonstra tensa.

A intimidade e o sexo do filme também fogem do estereótipo —e é só no amor junto com Elise que Lola encontra algum tipo de calma. Em cenas realísticas, porém sem qualquer fetiche da cama lésbica, Kreutzer marca mais um gol para o filme.

No entanto, quando Lola entrega enfim um projeto no qual vem trabalhando desde o início da trama, a fita acelera desproporcionalmente em relação ao resto do roteiro. A solução de alguns conflitos se dá de maneira mágica e às vezes até sem muita clareza.

O que se salva sem arranhões do início ao fim é, por sorte, a fuga de Lola de um destino talvez traçado geneticamente. A loucura sempre fascinou e assustou as artes, não só no cinema. A escritora Hilda Hilst, por exemplo, dizia que sempre teve medo de enlouquecer, a exemplo do que aconteceu com seu pai.

“Essa coisa surpreendente dos loucos, essa desordem, tudo que eu queira era ordenar aquilo, ordenar aquela desordem”, declarou Hilst em uma célebre entrevista, a respeito de sua infância. A fictícia Lola, por sua vez, não desiste de tentar organizar e esquadrinhar sua própria trama. Vale assistir para saber se ela consegue.

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