Descrição de chapéu Entrevista da 2ª

Brasil não lida bem com pluralidade, em especial com a de pretos, diz Emicida

Músico lança livro infantil que discute o medo e fala sobre como a leitura foi negada a ele, racismo e a nova geração da luta negra

Homem sentado com braços apoiado em cadeira

O rapper Emicida em foto de 2019 Julia Rodrigues

São Paulo

Dias após ser indicado a duas categorias —melhor álbum e melhor canção em língua portuguesa— do Grammy Latino 2020, o rapper Emicida, de 35 anos, lançou neste mês seu terceiro livro, “E Foi Assim Que Eu e a Escuridão Ficamos Amigas”.

A obra, direcionada ao público infantil —ou “aos pequenos” como diz o autor— tem como tema um sentimento existente em muitas pessoas, o medo do escuro. Repleto de ilustrações de Aldo Fabrini, o livro personifica emoções humanas e dispensa maniqueísmos ao retratar o que há por trás do medo e da coragem.

Em 13 de outubro, Emicida anunciou o documentário "AmarElo — É Tudo Pra Ontem", que tem estreia prevista para 8 de dezembro na Netflix. O filme mescla momentos históricos do país com o épico show do músico no Theatro Municipal de São Paulo, em novembro do ano passado.

Ele fala agora sobre sua relação com a literatura, o que tem feito em meio à pandemia do novo coronavírus, a explosão do movimento Black Lives Matter em 2020 e a polêmica em que esteve envolvido em junho, quando publicou um vídeo de sete minutos dizendo o porquê de não comparecer aos atos antirracistas.

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Como surgiu a ideia de falar com as crianças sobre medo? Eu gosto muito de ler livros infantis. Mas são poucas as vezes que a gente encontra um sentimento que é mais denso na literatura infantil. Em geral, as coisas são mais lúdicas e positivas —e até acho que o tema [do livro] também é tratado dessa maneira. O que me levou a isso foi uma música que estava escrevendo. No geral, escrevo rápido. Resolvo uma música por dia, no mínimo. Escrever para mim é como se fosse ir à academia de ginástica, aliás, é a única que frequento, deveria ir à outra.

Quando escrevi [o livro] estava no Vietnã, na baía de Ha Long, com as minhas filhas, no final de 2019. Eu acordei numa noite de escuridão danada e fiquei ali escrevendo.

Como foi o processo de publicação? Mandei um email para o Laboratório Fantasma e para a Companhia das Letras, e o pessoal gostou. Mas veio a pandemia e comecei a pensar na importância desse tema. Tive muita dificuldade de concentração, estava amedrontado. Comecei a praticar meditação para me acalmar e fiquei admirado com a minha disciplina. Depois, comecei a ler sobre medo e fiz essa associação dele com os pequenos e com os adultos. E o que mais gostei foi falar dele sem ser maniqueísta, ele não é um inimigo.

E qual é o seu maior medo? Eu fui uma criança muito medrosa, demorei a perder medo do escuro. Mas acho que hoje meu medo é acordar achando que foi tudo em vão. Quanto menos sentido a gente encontra, mais angustiante se torna a vida. Acho que é por isso que estamos tão desolados em 2020.

É verdade que nessa pandemia está viciado em literatura brasileira? Sim. Li muito Mário de Andrade e Graciliano Ramos. A nossa literatura é muito rica. Como ela não está na boca das pessoas? Fico bravo com isso. E, quando acabo de ler um livro, viro uma pessoa insuportável, quero falar com todo mundo e analisar cada vírgula.

Qual é a sua história com a literatura? Já tive muitas experiências tristes de ter sido colocado distante dos livros, justamente porque o estereótipo de uma pessoa preta de quebrada não é o de alguém aficionado por literatura. Eu adoraria ter lido na minha adolescência tudo que estou lendo agora. Estou lendo tudo que roubaram de mim.

As pessoas deveriam ser bibliotecárias, mas se transformam em carcereiras dos livros. Fui enxotado muitas vezes de bibliotecas. Tinha um segurança que sempre me colocava para fora, mas eu sempre voltava no dia seguinte. Sou teimoso e não paro.

Muitos artistas têm feito shows em drive-ins ou de outras formas distanciadas. Pretende subir ao palco assim? Não existe meio molhado. Ou você está molhado, ou seco. Estou triste com muita gente do meu setor que tem lidado com isso de maneira irresponsável. É claro que a maior irresponsabilidade é do governo, que se mostrou completamente blindado contra humanidade. Mas de que adianta eu aceitar fazer um concerto num ambiente gigante para um monte de carro?

Eu nem dirijo, odeio carro e buzina até em tempos normais. Respeito quem está buscando suas alternativas, mas para mim não faz sentido. Não é o momento de voltar apresentação artística. Prefiro ficar pelas redes sociais, que é o que temos de mais seguro nesse momento. E nem sou fã das redes.

Por quê? Eu acredito que elas deterioram muitas coisas positivas, e o preço que a gente paga é alto: informações entregues a quem desconhecemos. É muito legal se comunicar com qualquer um com um clique? Sim, mas a quantidade de informação que recebemos é muito prejudicial para a nossa cabeça.

Esse ano foi marcado por uma explosão de protestos antirracistas no mundo inteiro. Como enxerga isso? Eu acho que a popularização do Black Lives Matter vai pra caixinha de "coisas positivas que produzimos nesse momento". Mas a gente não pode esquecer que essas causas são alvo de fake news, de perfis robóticos e pessoas frustradas que querem capitalizar em cima disso.

​​E o que pensa sobre os movimentos negros no Brasil? Acho que a gente colhe muitos frutos do que a geração anterior à nossa fez, principalmente depois do MNU [Movimento Negro Unificado]. Ela incluiu a negritude no IBGE, e é por isso que temos hoje mais de 50% do país se identificando como preto ou pardo. Essas conquistas são de Abdias do Nascimento, Beatriz Nascimento, Clóvis Moura, Sueli Carneiro, Paulo Paim e tantos outros.

A nossa geração ainda precisa mostrar a que veio. Infelizmente, ainda não conseguimos produzir um chacoalhão. E essa responsabilidade é completamente nossa.

Em junho, quando os protestos antirracistas se espalharam pelo país, o senhor publicou um vídeo explicando o porquê de não ir. Como vê o fato de compararem sua atitude à de alguns rappers que foram ao ato, como o Djonga? Refleti muito se deveria ter dividido a minha opinião na ocasião. Teoricamente, se tivesse ficado quieto, meu final de semana teria sido mais pacífico. Tenho plena convicção do país onde nasci. O Brasil não se relaciona bem com pluralidade, principalmente com a de pessoas pretas.

Pegam uma posição minha e uma do Djonga para questionar qual é o verdadeiro negro. Mas qual foi o momento da história em que Lula ou FHC foi o falso branco por discordar um do outro?

Uma semana antes de tudo isso, muitas pessoas vieram me dizer que aquele era "o momento do jogo virar" e iriam à rua quebrar tudo. A minha intenção no vídeo não era de desmobilizar nada, mas sim apontar que o cuidado é necessário. A Covid-19 existe. Fui chamado de medroso até por quem faz discurso sobre masculinidade tóxica.

Isso está relacionado com o estereótipo do rapper ser mau? No começo da minha carreira, tive que me travestir de pessoa má, porque o lugar da compreensão de muitas pessoas sobre a cultura hip-hop é isso. Até hoje existe um cercadinho misógino, agressivo e raso no rap.

Tenho que ser o negão mau? Isso é triunfo do racismo. Por isso, estou disposto a pegar toda nossa subjetividade de volta. Foi isso que fez a gente vagar por três séculos achando que não tinha alma.

E FOI ASSIM QUE EU E A ESCURIDÃO FICAMOS AMIGAS

  • Preço R$ 29,90 (36 págs.) e R$ 19,90 (ebook)
  • Autor Emicida
  • Editora Companhia das Letrinhas
  • Ilustrador Aldo Fabrini
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