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Cazaquistão abraça 'Borat' depois de banir personagem cheio de clichês do país

Governo aproveita sucesso do filme para fazer campanha publicitária em meio à crise do setor de turismo

Joel Stein
The New York Times

Em 2005, Dennis Keen estava começando o ensino médio em Los Angeles e procurando um programa de intercâmbio para as férias de verão. Depois de pouca reflexão, ele decidiu que seria divertido e punk ignorar a França e a Espanha para visitar o Cazaquistão. “As pessoas nem sabiam onde ficava o país”, disse Keen. “No Cazaquistão, temos a era pré-Borat e a era pós-Borat.”

Ele estava se referindo, é claro, a “Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América”, comédia de Sacha Baron Cohen que chegou aos cinemas um ano depois, em 2006. No filme, Baron Cohen finge ser um repórter de televisão que visita os Estados Unidos vindo da antiga república soviética, onde as pessoas supostamente bebem urina de cavalo, consideram as mulheres como propriedades e celebram uma versão antissemita das touradas. (Os touros são substituídos por judeus.)

O governo autoritário do Cazaquistão proibiu a exibição do filme, ameaçou processar Baron Cohen e publicou um anúncio de jornal de quatro páginas para defender a honra do país.

E assim, quando Baron Cohen, em setembro, lançou o trailer da continuação de “Borat”, que ele desenvolveu em segredo e que estreou recentemente na Amazon, o humorista estava preparado para uma nova briga com o governo cazaque.

Mas isso não aconteceu. “A reação foi: 'De novo?'”, disse Kairat Sadvakassov, vice-presidente do conselho de turismo do Cazaquistão, que fez mestrado em administração de turismo pela Universidade de Nova York. O conselho estava determinado a evitar reações exageradas, mas Baron Cohen teria feito de novo as autoridades cazaques parecerem tolas. “Foi tomada a decisão de deixar que a coisa chegue a uma morte natural e não reagir”, disse Sadvakassov.

E foi então que Keen, o ex-estudante que fez intercâmbio no Cazaquistão, interveio. Depois de sua passagem pelo exterior, ele fez pós-graduação na Universidade Stanford e lá estudou com um professor do Cazaquistão.

Keen se mudou para o país, onde se casou com uma cidadã local e criou um negócio, oferecendo excursões pela cidade de Almaty, a maior do país. Ele agora apresenta um programa sobre viagens num canal estatal de TV. “Sou como que o Borat americano”, disse Keen.

Quando ele descobriu que a continuação estava para sair, imaginou que, em vez de ignorar Baron Cohen, o Cazaquistão deveria abraçar o bordão do personagem Borat e os transformar em lema do turismo no país. “Cazaquistão. Muito agradável!”

É o tipo de ideia que você tem quando dirige uma empresa de turismo e uma pandemia aniquilou o turismo mundial. “Eu estava com muito tempo livre”, disse Keen. “Também tinha um bebê pequeno em casa. Quando ele crescer, não quero que tenha vergonha de Borat. Quero que ele diga ‘foi aí então que meu pai criou esse projeto muito engraçado’.”

Recentemente, Keen e um amigo, Yermek Utemissov, que ajuda empresas estrangeiras a organizar filmagens de cinema no Cazaquistão, apresentaram a ideia ao conselho de turismo. A aprovação foi imediata. Os dois trabalharam sem remuneração para produzir quatro comerciais bem filmados e editados, prontos para a internet, com 12 segundos de duração cada um deles.

Os filmes mostram pessoas passeando pelo Cazaquistão e dizendo que o país é “muito agradável”. Em um deles, um homem está no mercado e bebe a especialidade local, feita com leite de égua fermentado (e não urina de cavalo), e diz “isso é realmente muito agradável”.

O novo filme, “Borat: Fita de Cinema Seguinte”, não desiste de estereotipar o país. Começa com Borat servindo uma sentença de prisão na qual ele está sujeito a trabalhos forçados, como explicação das consequências fictícias do filme original, explicadas em uma narração em off. “Cazaquistão se tornou motivo de piada em todo o mundo. Nossas exportações de potássio e púbis caíram. Muitos corretores pularam de nossos edifícios mais altos. Desde que a tourada do judeu foi cancelada, tudo que resta ao Cazaquistão é o Dia de Lembrança do Holocausto, onde celebramos nossos heroicos soldados que dirigiam os campos.”

Mas Utemissov disse que não estava preocupado que seus compatriotas se irritassem, desta vez. “É uma geração mais jovem”, ele disse. “Todo mundo tem Twitter, Instagram, Reddit, sabe inglês, conhece memes. O pessoal entende. Estão dentro do mundo da mídia, nós assistimos aos mesmos humoristas, ao mesmo programa de [Jimmy] Kimmel. O Cazaquistão se globalizou.”

Sadvakassov, o vice-presidente do conselho de turismo, não viu o filme antes da estreia, mas disse que isso tampouco o preocupava. “Na era da Covid-19, quando os gastos com turismo estão parados, foi bom ver o país mencionado na mídia”, ele disse. “Não da maneira mais agradável, mas é bom estarmos lá. Adoraríamos trabalhar com Cohen, ou talvez que ele viesse filmar aqui.”

Quando Baron Cohen foi informado de que o Cazaquistão tinha mudado de posição e agora favorecia seus filmes, ele comentou. “Estamos falando de uma comédia, e o Cazaquistão do filme nada tem a ver com o país real”, ele escreveu. “Escolhi o Cazaquistão porque era um país sobre o qual ninguém sabia coisa alguma nos Estados Unidos, o que nos permitiu criar um mundo louco, falso e cômico. O verdadeiro Cazaquistão é um belo país com uma sociedade moderna e orgulhosa —o oposto da versão de Borat.”

Isso é o mais perto de “muito agradável” que Borat pode chegar.

Tradução de Paulo Migliacci

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