Descrição de chapéu The Wall Street Journal Moda

Closets personalizados são a nova moda e têm até bar, jogo de golfe e pilar de strip

Alimentados por comédias românticas, espaços de guarda-roupa viram um novo símbolo de status

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Rory Satran
The Wall Street Journal

Quando é que os closets se transformaram em algo mais que um canto conveniente para guardar suas roupas? Em algum momento entre o fantástico sistema de prateleiras computadorizadas de Cher em “Patricinhas de Beverly Hills” e o mausoléu de figurinos de Reese Witherspoon no novo programa “Get Organized With the Home Edit”, da Netflix, muitas mulheres —e homens— decidiram que mereciam mais.

A saber, um aposento meticulosamente organizado para acomodar suas roupas e acessórios. Não estamos falando do “walk-in closet” com prateleiras projetado pela California Closets, que era o padrão do luxo nas décadas de 1980 e 1990. O que temos agora é mais como um museu da moda. Podemos definir esses ambientes como “closets de princesa”.

Essa abordagem de status elevado com a armazenagem se tornou um símbolo poderoso de valor pessoal, no imaginário coletivo, com roupas e sapatos imaculados e ordenados rigorosamente transmitindo um senso de controle.

No Pinterest e Instagram, as imagens de “pornografia de closets” proliferam. Visitas aos closets de celebridades e influenciadores estão entre os vídeos vistos com mais avidez no YouTube e TikTok, com bilhões de execuções. Essa fixação quanto a closets impecáveis se tornou especialmente pronunciada durante a pandemia e é uma fonte de calma para alguns americanos, ao buscarmos impor ordem às nossas vidas durante um período desordenado e sem precedentes.

Quarto grande com várias prateleiras e espelho
Closet projetado por Lisa Adams - Reprodução/Instagram

A culpa pelo fenômeno pode ser atribuída à televisão e aos filmes. Da mesma forma que uma ilha de mármore de Carrara com tampo de quatro metros em uma cozinha telegrafa opulência doméstica num filme de Nancy Meyers, o closet de princesa veio a significar que a heroína de uma comédia romântica vive uma vida ordeira e que ela tem aspirações maiores.

Você conhece a cena: uma personagem vasculha as longas linhas de vestidos coloridos e as fileiras de Louboutins perfeitamente conservados em seu closet, antes de decidir quanto ao look perfeito para o seu dia. Ela em geral está conversando com a melhor amiga ao telefone, enquanto faz isso. Ou melhor ainda, a melhor amiga está presente, acomodada num pufe marroquino e fazendo comentários sarcásticos, porque um closet de princesa sempre tem espaço de sobra para o convívio.

(Um tema relacionado é o closet de armas, tal como visto em “Homens de Preto 2”, nos filmes da série “Kingsman” e na versão repaginada de “As Panteras”, lançada no ano passado, que representa uma reinterpretação do closet de sapatos, mas ilustra preparações de outra ordem.)

Homens conversam em frente a vitral com sapatos
Cena do filme "Kingsman", de Matthew Vaughn, lançado em 2014 - Divulgação

Da mesma forma que um ex-marido se acomoda para comer um sanduíche lambuzado sobre o balcão de mármore imaculado, num filme da geração baby-boom, as confusões da realidade invariavelmente interferem na existência ordeira da heroína. A personagem de Nicole Kidman era espancada pelo marido em seu closet duplo digno de uma reportagem na revista Architetural Digest, em episódios da série “Big Little Lies”, da HBO.

E embora em “Parasita”, produção sul-coreana que ficou com o Oscar de melhor filme do ano passado, o closet em si escape de um banho de sangue, a calma organizada de seus produtos Hermès não conseguiu salvar a senhora Park de uma tragédia sangrenta.

Talvez ninguém saiba mais sobre projetar um closet luxurioso do que Lydia Marks, a decoradora dos estúdios em “O Diabo Veste Prada” e nos dois filmes de “Sex and the City”, três marcos no panteão do closet de princesa. Uma parte importante da trama, no primeiro “Sex and the City”, gira em torno de um conflito por espaço de armazenagem no closet entre Carrie e Mr. Big, com ele dizendo que poderia "construir um closet melhor" para ela, enquanto os violinos ganham volume na trilha sonora.

Mulher e homem conversam ao lado de cabide repleto de roupas
Cena do filme "O Diabo Veste Prada", de David Frankel, lançado em 2006 - Divulgação

Discutindo o papel dos closets no cinema, Marks disse que “eles oferecem uma pista sobre quem são aquelas pessoas, e em que nível elas estão funcionando”.

Os clientes particulares de Marks muitas vezes querem um closet como o de Carrie e Big —mas ainda maior. “Embora os closets de ‘Sex and the City’ tenham ficado muito famosos, eles não eram tão sofisticados quanto alguns dos que projeto para clientes privados”, admitiu Marks.

Grandes espaços que em algumas casas serviam de salas para a família foram convertidos em closets opulentos. Os clientes dela, muitos dos quais têm jornadas de trabalho muito longas, buscam um senso de serenidade, enquanto se preparam para o trabalho. “É uma maneira agradável de acordar e começar o dia”, ela explica.

A família Kardashian fez tanto quanto Carrie Bradshaw pelos closets. Lisa Adams, da LA Closets, projetou muitos dos guarda-roupas mais famosos da família, entre os quais o “closet esporte” de Khloe, com uma prateleira especial para halteres e uma geladeira revestida de madeira para guardar água Fiji.

Um projeto de closet por Adams tem preço mínimo de US$ 50 mil (equivalente a R$ 279 mil), e o custo total pode passar de US$ 1 milhão (R$ 5,5 milhões), o que explica o nome da série que ela apresentava na emissora HGTV, “Million Dollar Closets”. Adams faz o que os clientes desejam. Ela já instalou um pilar para strip-tease e um minigramado de golfe em closets que projetou sob medida.

A inspiração de muitos dos projetos, no caso de diversos dos clientes de Adams, é reproduzir a sensação de estar numa uma butique. “Acho que as pessoas gostam da ideia de que estão fazendo compras dentro de seus closets. Isso explica a ideia de um espaço bem iluminado, de um espaço não atulhado. Isso atrai os proprietários de casas”, ela afirma.

Os closets mais cobiçados nos filmes e nas redes sociais se parecem quase fantasmagoricamente com lojas, uma fantasia que adquire novo significado num momento em que mais e mais de nós estamos fazendo muito menos compras fora de casa.

O design de closets, como visto nos filmes e reality shows de TV, se tornou tão exagerado que às vezes chega a parecer paródico.

No ano passado, Jeffree Star, um magnata da maquiagem e astro de vídeos do YouTube que está enfrentando dificuldades e caiu em desgraça, mostrou um vídeo de seu closet, que ele chama de “o cofre”. O conteúdo foi visto mais de 25 milhões de vezes. Com ardor infindável —“às vezes durmo aqui”—, ele mostra a seleção impecável de bolsas e roupas raras de seu closet.

E aí vem a informação que surpreende. Star afirma que seu closet é protegido por seguranças armados e que as pessoas credenciadas só têm acesso depois de passar por um leitor de retina e impressões digitais. São recursos que poderiam servir bem a Paris Hilton, que teve seu closet roubado em uma cena recriada em “Bling Ring: a Gangue de Hollywood”, filme de Sofia Coppola.

Mas o closet de princesa não é só uma ode narcisista ao consumismo. Pode servir como arquivo histórico, a exemplo do espaço revestido de madeira por trás do escritório da juíza Ruth Bader Ginsburg, onde ela guardava seus colarinhos.

Os closets também servem como lugar onde as pessoas podem relaxar e buscar um escape. Tara Johnson, 44, advogada no estado americano de Connecticut e mãe de dois filhos, era fã de “Sex and the City” e encomendou a construção de um closet muito fotogênico em sua casa, para guardar sua coleção de sapatos, que pode ser vista em seu perfil no Instagram.

“O meu closet é meu santuário”, disse ela. “Se quero uma folga da família, entro no closet. Se eu estiver tendo um dia horrível no trabalho, basta entrar no closet para que um sorriso surja no meu rosto”. O estresse e isolamento da pandemia a levaram a apreciar ainda mais esse espaço. Durante o lockdown, ela muitas vezes se fechava lá para organizar sua coleção. “Era uma boa maneira de me distrair de toda a loucura que estava acontecendo do lado de fora da casa.”

O conceito de impor ordem a um mundo selvagem surge em diversas das conversas sobre o closet de princesa. Basta acompanhar a fenomenal ascensão do Home Edit, um serviço sediado em Nashville que promove seus métodos de organização por meio de livros muito vendidos, serviços personalizados e do programa “Get Organized with the Home Edit”.

No programa, a equipe toma conta dos itens pertencentes a pessoas comuns e celebridades, dos carrinhos de brinquedo da filha de Khloe Kardashian aos acessórios ofídicos de Rachel Zoe, e os organiza em gradientes de cores. Clea Shearer e Joanna Teplin, as fundadoras da empresa, reconhecem o papel da inquietação mundial no sucesso de seu negócio.

Shearer diz que "as pessoas estão em busca de qualquer maneira de tomar o controle de suas vidas. As coisas todas parecem incertas, e, com isso, saber onde suas meias estão e se os dois pés estão juntos na gaveta oferece alguma calma”.

Por mais calmante que seja organizar os armários, a meticulosidade do closet de princesa pode intimidar. As notórias “mães do TikTok”, um grupo de influenciadoras que usam aquela plataforma, estão levando a ideia do closet como santuário à sua conclusão satírica inevitável –o closet como bar para um.

Christi Lukasiak, que estrelava em “Dance Moms”, compartilhou um vídeo com seus seguidores no TikTok que a mostra se escondendo no closet com uma garrafa de vinho rosé. Os hashtags #mãesduranteaquarentena e #vinhonocloset mostram mulheres igualmente aflitas que se escondem em seus closets para beber. É a resposta mais caótica —e mais cômica— à busca da ordem perfeita.

Tradução de Paulo Migliacci

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