Descrição de chapéu The New York Times

Conheça o Voices of East Harlem, que há 50 anos fez do gospel um grito negro

Grupo americano fez sucesso unindo a música cristã a R&B, funk e rock, algo que era raro na época

Robert M. Marovich
The New York Times

A montagem de vídeos contendo imagens de atos de violência contra pessoas não brancas que acompanha “Hold On”, o sóbrio neo-spiritual de Isaac Cates e Ordained, levou os apresentadores do festival online de música Vox Virtual 2020 praticamente às lágrimas.

Lydia Salett-Dudley encomendou um vídeo com imagens igualmente vívidas para “Watcha Gonna Say?”, uma canção de levada funk lançada semanas atrás que pede aos ouvintes que se pronunciem sobre a desigualdade ou vivam com as consequências da inação nos dias de hoje e na eternidade.

Esses desdobramentos recentes na música gospel são notáveis. Ainda que cantar spirituals e hinos tenha energizado gerações de manifestantes em suas batalhas contra a opressão, poucas das canções do gênero gravadas nos últimos 30 anos condenaram a injustiça explicitamente.

Essa lacuna se deve em parte a uma tendência a canções de louvor e culto que celebram Deus e agradecem por bênçãos pessoais. E como os compositores anônimos dos spirituals, os cantores negros de gospel aprenderam cedo que a sobrevivência às vezes requer ocultar a ira por trás de imagens bíblicas que só os antenados saberão decodificar.

No entanto, a morte de George Floyd, Breonna Taylor e Ahmaud Arbery e os protestos que esses casos deflagraram levaram os cantores de gospel a tornar sua indignação mais pública. As raízes desse movimento podem ser traçadas a um disco que está celebrando seu 50º aniversário —“Right On Be Free”, a estreia de um coral de jovens negros chamado Voices of East Harlem.

Lançado pela gravadora Elektra no final de 1970, o disco combinava mensagens de protesto a uma trilha sonora com muito balanço, que misturava a capacidade de lavar a alma do gospel ao suingue do R&B, funk e rock. Era como se a banda Sly & The Family Stone tivesse decidido unir forças ao Edwin Hawkins Singers, um dos grandes grupos vocais de gospel.

O Voices of East Harlem surgiu na associação de jovens da federação do East Harlem, uma organização sem fins lucrativos criada pelo ativista Chuck Griffin a fim de oferecer aos jovens —entre os quais seus filhos— um santuário contra as ruas infestadas de heroína do bairro. A mulher de Griffin, Anna Griffin, e sua amiga Bernice Cole eram veteranas cantoras de gospel com diversos discos gravados.

“Quando o Voices of East Harlem começou, éramos mais ou menos 32 pessoas, porque a proposta do trabalho era incluir a todos”, disse Gerri Griffin Watlington, uma das duas filhas do casal, que substituiu Ronnie Dyson no elenco da produção original de “Hair” na Broadway em 1969. “Nós convocamos todo mundo que estivesse interessado em cantar em um coral.”

Inicialmente, o coral cantava apenas canções de gospel e de spiritual e, embora suas primeiras apresentações tenham acontecido em igrejas, em determinado momento Chuck Griffin começou a levar o pessoal para cantar em faculdades locais, onde ele podia pregar sobre o valor social da integração às audiências majoritariamente brancas.

“Era o final da década de 1960 e um tempo em que as pessoas estavam começando a se conscientizar das questões raciais”, disse Kevin Griffin, outro dos filhos de Chuck Griffin.

O primeiro grande sucesso do Voices of East Harlem aconteceu num evento de arrecadação de fundos para uma associação de juventude no Electric Circus, uma casa noturna de Nova York controlada pelo empreendedor Jerry Brandt. Impressionando pelo espírito forte do grupo, ele procurou seus pais e Bernice Cole “e basicamente lhes fez uma oferta”, disse Gerri Watlington. “Ele disse que via alguma coisa em nós e que queria ser nosso agente.”

Brandt adorava o som do grupo mas odiava os blazers cor de laranja quadradões e instruiu os integrantes do coro a irem aos ensaios usando suas roupas do cotidiano. Eles reapareceram usando os “freedom suits”, que se tornaram marca registrada do grupo. Na descrição posterior do roteirista Denis Watlington, um membro da associação de jovens, os trajes consistiam em “jeans, jaquetas e macacões de brim, com punhos cerrados pintados em vermelho, preto e verde nas costas”.

O coral também modificou seu repertório, acrescentando canções de protesto e trabalhos com importância social, canções como “To Be Young, Gifted and Black”, de Nina Simone, e “Simple Song of Freedom”, a ode pacifista de Bobby Darin.

“As coisas eram assim naquela época”, disse Gerri Watlington. “Era importante cantar canções folk, canções de protesto.”

As apresentações do grupo incluíam dança —às vezes coreografada mas quase sempre improvisada— que evocava liberdade e o orgulho negro, e Brandt trabalhou para garantir a eles uma plataforma nacional na qual as audiências pudessem desfrutar do pacote completo.

O Voices of East Harlem apareceu nos programas de Dick Cavett e Ed Sullivan. Abriu um show para o grupo Kinks no Fillmore East. Sua apresentação no Winter Festival for Peace, em janeiro de 1970, com Richie Havens e o grupo Blood, Sweat & Tears, levou um jornalista da revista Billboard a escrever que “a banda menos conhecida do programa conquistou a primeira, mais unânime e mais imediata ovação da noite”.

Com as resenhas positivas surgindo sem parar, Brandt sentiu que era hora de levar o Voices of East Harlem ao estúdio. Produzido por Brandt, “Right On Be Free” foi um dos primeiros discos gravados no Electric Lady Studios, no West Village de Manhattan. Eddie Kramer foi o engenheiro na gravação, e músicos veteranos como o baixista Chuck Raines e o guitarrista Cornell Dupree reforçaram os instrumentistas do grupo.

“Naquela época, se você não tivesse Rainey e Dupree em seu disco, não tinha um disco”, disse Monica Burruss Pege, uma das integrantes do coral e solista no hit “Giving Love”, de 1973, em entrevista por telefone.

“Right On Be Free” destaca momentos solo de diversas das cantoras, reforçando o papel tradicional das mulheres negras como porta-vozes da comunidade. Gerri Watlington é a voz principal em “For What It’s Worth”, hino de protesto do Buffalo Springfield, e Cynthia Sessions Vaughn canta “Simple Song of Freedom”.

Num aceno às gerações precedentes, Anna Griffin e Cole cantam faixas gospel. O disco termina com uma cover psicodélica de “Run, Shaker Life”, de Richie Havens, cuja força é o poderio vocal infatigável de Kenny Griffin, um dos dois solistas homens do coral. O crítico Robert Christgau comparou sua energia efusiva à de Michael Jackson.

O gospel não costumava fazer sucesso comercial, ainda que o Edwin Hawkins Singers tenha chegado às paradas pop com “Oh Happy Day”, em 1968. A Elektra, que já estava discutindo com Brandt sobre gravar outro dos artistas que ele representava —Carly Simon—, fechou contrato para distribuir “Right On Be Free” e lançou o disco no fim do terceiro trimestre de 1970.

Em outubro, o disco já tinha chegado à parada Billboard 200, depois que o Voices of East Harlem levou sua mensagem de liberdade ao festival da ilha de Wight, no Reino Unido, onde eles foram aplaudidos de pé diversas vezes. De volta aos Estados Unidos, o grupo deslumbrou as audiências em diversos shows no teatro Apollo e acompanhou Harry Belafonte na Westbury Music Fair. Eles iniciaram o Ano-Novo abrindo para Jimi Hendrix no Fillmore East.

Em 6 de março de 1971, eles se uniram a Carlos Santana, Ike e Tina Turner, Wilson Pickett, Staples Singers e ao saxofonista Wayne Shorter no festival Soul to Soul, em Acra, em Gana, filmado para um documentário de Denis Sanders. Na forma pela qual o filme os captura, eles são um caleidoscópio de som e movimento.

Aquilo que o Voices of East Harlem cantava era importante, mas o que importava mais era como eles cantavam. A música da diáspora africana havia fechado o círculo.

O grupo gravou dois singles para a Elektra em 1972 com produção de Donny Hathaway e lançou mais dois álbuns pela gravadora independente Just Sunshine, relançados em 2017 pela Soul Brother Records, do Reino Unido.

Depois do disco “Can You Feel It”, de 1974, o coral e a Just Sunshine se separaram. “Acho que a gravadora não sabia o que fazer conosco”, disse Kevin Griffin. “Nós representávamos uma mensagem bem balanceada sobre um período perturbador, e eles não sabiam como nos comercializar.”

Além da incompreensão da indústria da música, a separação litigiosa entre Chuck e Anna Griffin e o fato de que os membros do coral estavam enfrentando as realidades da vida adulta contribuíram para o fim do Voices of East Harlem, em 1975. “Não foi como um fim oficial”, disse Pege. “Nós simplesmente não conseguíamos mais shows, e tivemos de encontrar outras coisas para fazer, pelo dinheiro.”

Pege se tornou parte do Lady Flash, o trio vocal que acompanhava Barry Manilow. Gerri Watlington fez faculdade enquanto continuava se apresentando na Broadway e cantando em casas noturnas locais. Vaughn se tornou psicoterapeuta e especialista em saúde mental comunitária. Kevin Griffin se tornou pastor.

Relembrando o passado, Vaughn e Kevin Griffin continuam a acreditar que o grupo não só estava diante de seu tempo como foi uma voz necessária, e continua a ser. “A federação e o Voices of East Harlem eram as joias da coroa do East Harlem”, disse Kevin Griffin. “Nos tornamos a voz de todo o movimento social.”

Vaughn acrescentou que “é realmente triste que estejamos passando por exatamente as mesmas coisas tantos anos mais tarde”.

Tradução de Paulo Migliacci

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.