Descrição de chapéu The New York Times

Davi, a obra-prima de Michelangelo, ganhará um gêmeo de alta tecnologia 3D

Engenheiros, técnicos, artesãos e restauradores italianos querem uma réplica perfeita da escultura renascentista

Escultura de Davi, obra renascentista de Michelangelo, na Galleria dell'Accademia, em Florença

Escultura de Davi, obra renascentista de Michelangelo, na Galleria dell'Accademia, em Florença Rubens Chaves/Folhapress

Elisabetta Povoledo
The New York Times

Pelos últimos cinco séculos, o Davi de Michelangelo Buonarroti foi celebrado por sua perfeição escultórica e pela sua personificação da beleza e da força da juventude.

Agora as autoridades italianas querem que a escultura ajude a expor a capacidade artística e artesanal dos trabalhadores de seu país e seus conhecimentos tecnológicos especializados na era digital.

Ao longo dos próximos meses, uma bateria de engenheiros, técnicos, artesãos e restauradores italianos usará o que a coordenadora do projeto descreveu como “as mais avançadas tecnologias hoje disponíveis” para produzir uma cópia em 3D exata da estátua de cinco metros de altura. A réplica será a peça central do pavilhão italiano na próxima feira mundial, a Expo 2020 Dubai, que deveria ser aberta neste mês mas foi postergada para outubro do ano que vem por causa da pandemia do coronavírus.

“É tecnologia vinculada a memória histórica, para a memória futura”, disse Paolo Glisenti, o comissário-geral italiano na exposição. “História e inovação —esses são os temas que nos interessam.”

Companhias italianas trabalharão em todos os aspectos do projeto, disse Glisenti. “A promoção do conhecimento científico e tecnológico italiano é parte da operação.”

Ele falou na Galleria dell’Accademia, o museu florentino que serve de lar ao Davi desde 1873, em um de uma série de eventos que estão sendo realizados nesta semana na Itália para marcar a contagem regressiva de um ano para a exposição.

O Davi é provavelmente a mais famosa estátua renascentista do planeta. Primeira estátua em escala colossal a ser produzida desde a Antiguidade, ela causou impacto praticamente desde o momento em que foi desvelada, em 1504. Em sua crônica da vida de Michelangelo escrita cerca de 50 anos mais tarde, Giorgio Vasari a descreve como uma obra de “proporção justa, beleza e excelência”, superior a “todas as demais estátuas, antigas ou modernas”.

Mesmo em um ano no qual o turismo em Florença foi sufocado pelo coronavírus, a estátua continua a ser um poderoso atrativo.

“Ele é meu departamento de marketing”, disse Cecile Hollberg, diretora da Accademia, com uma risada. “Atrai visitantes, e em seguida os encaminhamos a todas as outras coleções que são excepcionais e esplêndidas.”

Embora não tenha sido movida por quase 150 anos, a estátua viveu seus dramas. Foi danificada. Foi causa de conflitos. Causou controvérsias quanto a direitos autorais. Passou por uma limpeza em 2004 para seu 500º aniversário, em meio a disputas amargas. Inspirou outros artistas e, em 2012, uma cópia gigantesca viajou à cidade de Nova York. Mais recentemente, a estátua foi a estrela de uma instalação em vídeo que destacava padrões têxteis.

Mas, acima de tudo, o Davi de Michelangelo foi copiado. Repetidamente.

É uma das poucas obras de arte a terem um verbete de Wikipedia dedicado às suas cópias, que adornam os lugares mais improváveis, como a entrada principal da Prefeitura de Montevidéu, no Uruguai; um parque comunitário em Queensland, na Austrália; e o centro da cidade de Sioux Falls, no Dakota do Sul, nos Estados Unidos.

A reprodução em gesso da estátua exibida pelo Museu Victoria e Albert, de Londres, atrai visitantes desde que chegou, em 1857.

Mesmo Florença conta com duas réplicas. Uma, em mármore, foi instalada em 1910 diante do Palazzo Vecchio, que serve de sede da prefeitura. Uma cópia em bronze avulta sobre a cidade no Piazzalle Michelangelo, uma praça localizada numa colina alta.

O Davi impresso em 3D é a única cópia que o museu autorizou desde que Hollberg venceu uma batalha pelos direitos autorais sobre a estátua, em 2017. As incontáveis estatuetas plásticas, ímãs de geladeira e camisetas coloridas que lotam as prateleiras das lojas de suvenires de Florença são tecnicamente “não legais”, ela disse. “Mas é difícil chegar ao fundo dessa questão.”

Vinte anos atrás, o departamento de computação gráfica da Universidade de Stanford digitalizou o Davi e fez uma cópia em 3D empregando técnicas de produção rápida de protótipos que permitiam a confecção de “réplicas precisas em escala reduzida”, segundo o líder do projeto, Marc Levoy, professor emérito de ciência da computação em Stanford.

A reprodução italiana tirará vantagem dos avanços tecnológicos obtidos desde o projeto de Stanford, disse Grazia Tucci, professora da Universidade de Florença que está coordenando a criação do que ela definiu como “o gêmeo digital” da estátua.

Usando scanners a laser e outros instrumentos “normalmente utilizados na indústria assim como na engenharia aeronáutica” para produzir a maior resolução possível, a estátua original será digitalizada (nas segundas-feiras, quando o museu fica fechado para o público), afimou Tucci.

Os dados serão processados e em seguida usados para criar a reprodução, com “a maior impressora 3D do planeta” e com o uso de “materiais inovadores” e resinas, disse Tucci, ainda que ela tenha preferido não especificar que tipos de materiais seriam usados. “Ainda estamos no estágio de teste”, afirmou.

A estátua em seguida será polida —por máquina e depois o processo será completado à mão— para obter uma superfície mais lisa, e os restauradores acrescentarão os retoques finais, o que inclui colorir a cópia para refletir as tonalidades do mármore e “conferir ao trabalho um aspecto agradável do ponto de vista estético”, disse Tucci.

O “making of” completo da estátua será registrado em vídeo e mostrado aos visitantes da exposição em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, disse Glisenti. A réplica ocupará posição central no pavilhão italiano, que terá diversos pavimentos para os visitantes a poderem ver de ângulos e em alturas diferentes.

O processo vai criar um tesouro de dados que os técnicos entregarão à Accademia e pode se provar inestimável caso algo aconteça ao original. Essa possibilidade voltou a causar preocupação anos atrás, quando cientistas italianos publicaram um estudo que teorizava que submeter os tornozelos já desgastados da estátua a tensão ainda mais alta poderia derrubar a obra-prima.

Por enquanto os tornozelos estão bem, disse Hollberg. “Está tudo sob controle.”

A reprodução deve retornar à Itália quando a exposição chegar ao fim, mas ainda não se sabe o que será feito dela.

Por melhor que seja a tecnologia empregada, Hollberg afirmou que a cópia jamais vai se equiparar ao original. “O original está em Florença desde 1504”, disse ela. “Uma cópia jamais durará tanto tempo.”

Tradução de Paulo Migliacci

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