Henri Matisse é celebrado com textos e texturas elegantes em meio à Covid-19

Pintor francês que combinava expressão pictórica e textual é homenageado em livro e exposição lançados na pandemia

Jackie Wullschläger
Financial Times

“Estou esperando pelo relâmpago que com certeza virá", escreveu Henri Matisse ao filho Pierre, negociante de arte nos Estados Unidos, que estava tentando convencer o pai a fugir da Europa.

“Parece que estaria desertando. Se todas as pessoas de algum valor deixarem a França, o que restará da França?” Matisse tinha 70 anos, seu casamento tinha acabado de se desfazer, ele estava se recuperando de uma doença quase fatal, a França estava ocupada pelos nazistas, e ele vivia apavorado por causa de seus dois outros filhos, que haviam aderido à resistência.

Por quase três anos, ele viveu sem sair de seu estúdio em Cimiez, no sul da França; e, quando finalmente saiu, foi para se mudar para a Villa Le Rêve, entre as palmeiras na cidade de Vence, onde ele não tinha telefone nem carro.

Para Matisse, assim como para muitas pessoas que estão vivendo lockdowns menos extremos, o relâmpago veio em forma de uma resposta intensa à poesia. Aqueles foram os anos de seus magníficos “livres d’artistes”, que combinavam expressão pictórica e textual, orquestrando cada elemento de design, mídia e material e ao mesmo tempo celebrando a tradição literária francesa, do cortesão medieval Charles d’Orléans e do “príncipe dos poetas renascentistas" Pierre de Ronsard ao simbolista Charles Baudelaire.

O refinamento decorativo extremo desses livros o tirou de seu impasse criativo e da fragilidade. Por meio deles, o artista pôde avançar para sua série final de colagens.

“Matisse: The Books”, o novo estudo em profundidade escrito por Louise Rogers Lalaurie, num volume suntuosamente ilustrado, foi lançado neste mês, pouco antes da abertura do tributo do Centre Georges Pompidou ao 150º aniversário de nascimento do pintor e talvez sirva para compensar as pessoas que não poderão visitar a mostra.

A exposição, cuja abertura foi adiada por causa do coronavírus, leva o título “Matisse: Como Um Romance”, e se centra no “emaranhamento entre textos e imagens” como tema central na obra do artista, reunindo obras de diversas coleções francesas.

Matisse deu ao seu primeiro trabalho importante o título “Luxe, Calme et Volupte”, de 1904, citando versos de “Convite à Viagem”, de Baudelaire. O resplandecente quadro foi o tiro de largada na jornada do pintor do neoimpressionismo rumo ao fauvismo, com formas chapadas e cores intensas.

O quadro foi comprado imediatamente e aclamado como “um poema” —em contraste com outros trabalhos contemporâneos, que eram simples “reportagens”— por Paul Signac. Raoul Dufy falou em nome da geração mais jovem ao dizer que aquilo foi a maior das revelações. "Compreendi instantaneamente a mecânica da pintura nova.”

A exposição do Pompidou deslinda as implicações de “Luxe, Calme et Volupte” por meio de trabalhos marcantes como “Intérieur aux Aubergines”, um salão de espelhos de refrães e reverberações azul-púrpura, o único interior sinfônico pintado no período pré-guerra pelo artista que ainda está na França —a peça vem de Grenoble—, e do alarmante, cubista e austero “Tête Blanche et Rose”, um retrato listrado da filha de Matisse.

Para superar uma crise de meia-idade na década de 1930, o pintor voltou a se inspirar na poesia simbolista; o centro Pompidou toma de empréstimo a Nice, na França, o fundamental “La Verdure”, ou “Ninfa na Floresta”, um quadro de dois metros e meio desenvolvido a partir dos desenhos rítmicos de Matisse para “Poesie”, de Stéphane Mallarmé (“ces nymphes, je veux les perpetuer”) –toda a textura e padrão dos seios curvos, das ondas pulsantes, da vegetação luxuriante.

Homem recorta papel diante de parede decoarada
O pintor e escultor francês Henri Matisse prepara colagem em seu ateliê em Nice, na França, em foto de 1952 - Raph Gatti/AFP- France Presse

A ninfa, Lydia Delectorskaya, musa do pintor —Matisse disse conhecer o corpo dela de cor, “como um alfabeto”— é tão maleável e sensualmente alerta que, embora o fauno a contemple maliciosamente, a história do estuprador e da vítima se torna ambivalente. Matisse disse que a composição expressava o mistério de seu relacionamento com a pintura, a batalha para determinar se era ele ou ela que estava no comando.

“Matisse usava livros para contar a história de sua vida”, argumentou o poeta surrealista Louis Aragon; seu “Henri Matisse: Um Romance”, de 1971, dá à exposição sobre Matisse o seu título, e as recordações do escritor são a fonte primária de Lalaurie.

Aragon escreveu o prefácio para o primeiro livro de Matisse na época da guerra, “Temas e Variações” –desenhos de jovens mulheres envoltas em lenços e contas, aninhadas em almofadas rechonchudas, envoltas por vasos de plantas.

Ele era um militante antifascista conhecido, e a publicação do livro em 1943 quase foi torpedeada pela insistência de Matisse para que ele participasse. Matisse sabia que o texto de Aragon oferecia um contexto político crucial para os interiores com jeito de estufa, modelados pelas belas e entediadas garotas cosmopolitas que a guerra havia lançado a Nice.

“Na porção mais escura da noite, as pessoas dirão 'ele fez esses desenhos repletos de luz'”, escreveu Aragon. Mesmo retirada, resistência é o tema de todos os livros que Matisse produziu durante a guerra. E como é comovente acompanhar o artista envelhecido mergulhando na poesia lírica a fim de encontrar sua linguagem pictórica de desafio e patriotismo.

Homem branco com óculos redondo olha para câmera
O pintor francês Henri Matisse em foto sem data - Reprodução

Nas canções de desejo e exílio de Charles d’Orléans, Matisse leu “a força, graça e as raízes mais profundas da França”. Seus desenhos elegantes em giz de cera de lírios amarelos, mulheres que se fundem a pétalas recurvas, lábios que se tornam botões de rosa (“sua boca me ordena: 'beije-me'”), evocam o clima de “soussy, soing e merencolie” do poeta —ansiedade, preocupação e melancolia—, transcendido pelas pinceladas límpidas de Matisse, assim como pela musicalidade do verso.

Já Ronsard, mais tosco, “me ajuda a manter meu equilíbrio moral”, afirmou Matisse. Seu “Florilège des Amours”, o sonho de um homem velho sobre corpos jovens, elásticos e entrelaçados, também é uma homenagem, sugere Lalaurie, a Ronsard como “campeão do vernáculo ainda nascente da poesia francesa”.

Matisse selecionou os sonetos com pertinência para aquele momento angustiado –uma sereia desliza sobre as ondas acima do lamento amoroso de “je veux pousser par la France ma peine” —quero espalhar minha dor por toda a França.

O livro sobre Ronsard demorou oito anos a ser realizado; Matisse o interrompeu (entre 1943 e 1944) para produzir deslumbrantes linoleogravuras brancas sobre fundo preto —que fazem lembrar a pintura de vasos gregos— para “Pasyphae”, uma retomada pouco feliz pelo escritor Henri de Montherlant do mito da ninfa oceânica cuja maldição era desejar um touro e que dá luz ao Minotauro, criatura máscula da qual Picasso se apoderou em 1935 para seu “Minotauromaquia”.

E assim prosseguiu o diálogo entre os dois artistas que durou uma vida toda. “Pasyphae” responde com uma história de paixão e sofrimento feminino contada por meio de arabescos de cabelos arrepiados, corpos trêmulos. Em uma imagem deslumbrante, a heroína transfixada, com a cabeça jogada para trás como um grito, é representada por uma única linha cascateante —uma tira clara sobre um fundo escuro, talvez o relâmpago pelo qual Matisse estava esperando.

“Este é o livro de um homem que não consegue dormir”, declarou Aragon, e o grito é “um eco das coisas sobre as quais ninguém falava” durante a ocupação; a repressão, implicada pelo desejo proibido, pulsa nessas imagens voluptuosas e ainda assim minimalistas. Só um passo as separa da simplificação de formas e do improviso que caracterizam o grande Matisse tardio, pós-libertação.

Lalaurie conclui com colagens mistas coloridas em guache que mostram palhaços, caubóis, um Ícaro caído: a amada tragicomédia “Jazz”. Já o Pompidou fecha o círculo de Matisse e retorna com ele a Baudelaire: depois de ilustrar o poema “La Vie Anteriéure”, que trata de voltar a contemplar, o pintor compôs seu último e brilhante autorretrato como uma série de “papiers découpés”, em “Os Pesares do Rei”, dev1952, um trabalho no qual ele relembra suas alegrias.

Pétalas amarelas, bordas coloridas, odalisca verde, uma dançarina branca rodopiando em torno de uma silhueta negra, Matisse como Saul em sua poltrona, reconfortado por uma harpa, porque, “já que preciso frequentemente ficar na cama" ele construiu um "pequeno jardim ao meu redor onde posso passear”.

Tradução de Paulo Migliacci

Matisse: The Books

  • Preço £ 60 (R$ 435,5)
  • Autor Louise Rogers Lalaurie
  • Editora University of Chicago Press
  • Págs. 320
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